Valentina Sampaio Tem Uma Importante e Urgente Mensagem Para Passar a Todos

«Só queremos ser aceites, respeitadas, ter uma vida digna, ser vistas como um ser humano normal» Por: Vítor Rodrigues Machado Imagens: © Nicole Heiniger (2) - Imaxtree (1) - D. R.

Pouco devia passar das 14h50 quando abri a janela de conversação do Zoom. A chamada tinha ficado marcada para as 15h (11h da ma- nhã no Brasil), mas por precaução, ali estava eu, a ler e reler todas as perguntas que tinha preparado. E a respirar fundo. Por norma fico sempre um pouco nervoso antes de uma entrevista – até porque nunca se sabe qual será o estado de espírito do entrevistado –, mas bastou que às 15h01 Valentina Sampaio entrasse na conversa para os nervos se dissiparem. «É preciso ligar a câmara? Eu não me preparei para uma chamada com vídeo» disse num tom animado. Disse que se eu quisesse, o poderia fazer. E assim foi: o cabelo estava preso, o seu rosto esboçava um simpático sorriso, e os seus olhos de tom verde-claro (que quase que faziam pandã com as várias palmeiras que tinha como pano de fundo) tornaram-se visíveis.

Não consegui esconder a inveja, afinal de contas, aquele cenário que parecia ter sido tirado do filme da Lagoa Azul (em que eu queria ter crescido), foi o que ela teve ao longo de grande parte da sua vida. Perguntei-lhe sobre então sobre como foi essa fase. «Foi uma infância muito feliz, em contacto com os bichos, com a natureza. Até à minha adolescência vivi aqui. Era como crescer numa grande família , porque é uma vila de pescadores tão pequenininha que todos se conhecem», começa por me contar. «Quando era pequena brincava muito com a minha irmã, com a minha prima, com as minhas ami- gas. Gostava muito de desenhar, especialmente roupas para as minhas bonecas. Lembro-me que na altura nós morávamos na casa da minha avó, e lá tinha uma árvore, junto à qual eu ia pintar e brincar com as florzinhas. Era um momento meu».

Talvez por ter crescido neste ambiente tão livre (em tempo e em espaço) que desde muito pequena «Sempre soube quem eu era. Sempre soube a minha identidade desde que me entendo como pessoa. E não houve um momento em que me descobrisse Valentina. Mas há uma altura da minha vida em que, por vivermos numa sociedade repleta de padrões que nos são impostos, percebemos que o mundo me vê como diferentes. Quando nascemos não sabemos o que é de menina ou o que é de menino, isso é um padrão cultural. E é aí que percebo ‘mas eu não sou assim’, ‘eles estão-me a colocar numa categoria à qual não pertenço’.» diz mudando o tom alegre e leve para outro, mais sério.

O MUNDO DA MODA

Valentina foi crescendo nesta realidade e assim que termi- nou o secundário decidiu que dar continuidade aos estudos especializando-se na área da moda seria o caminho certo para si. Até porque, como a própria já contou, desde pequena que «Sempre me senti muito ligada a este universo da moda, da criação. Desde criança que os meus primeiros desenhos eram de vestidos, de bonecas e, para além disso, ainda tinha o hábito de costumizar as minhas roupas. Até porque me permitia mostrar um pouco mais da minha personalidade. Se a minha mãe me desse uns calções, eu cortava e fazia algo que ficasse mais a minha cara, porque eu olhava e via aquilo de menino e eu fazia virar mais de menina.»

A entrada na Faculdade foi feita cuidadosamente, «Lembro-me que estava completamente assustada. Era a primeira vez que estava ali [na cidade grande] e, por isso, quando chegava à sala de aula eu não falava nada com medo das pessoas perceberem alguma coisa e me julgarem, e me descriminarem. Mais tarde percebi que a minha turma era mais aberta, e então fui-me encaixando, e foi lá que conheci algumas pessoas que trabalhavam no mercado de moda daqui do Ceará, e come- çaram a surgir algumas oportunidades».

Esta sería a parte em que diria que foi aqui que a sua carreira descolou, e nunca mais parou até chegar ao patamar em que está. Mas essa não é a verdade. Até porque nada é assim tão fácil para uma mulher transgénero. «No meu primeiro trabalho para uma marca relevante daqui, eu lembro-me que estava pronta para começar quando eles pediram a minha identificação e viram que era trans. Disseram que não queriam continuar com a produção porque não sabiam o que a cliente iria pensar. Naquele momento eu senti… eu morri de vergonha. Fiquei a sentir-me como se eu é que tivesse errada para aquela situação». Mas isso não a travou. Como verdadeira sagitariana que é correu atrás dos seus sonhos: «Vi que não estava errada e fui atrás dos meus direitos, abrindo e descobrindo novos caminhos para pessoas que, como eu, vivem na sua verdade».

Depois disto sim, posso dizer que daqui em diante a sua carreira levantou voo. Literalmente. Primeiro, até ao Rio de Janeiro para gravar o filme Berenice Procura (uma «experiência completamente incrível, que me ajudou não só profissionalmente como também no campo pessoal»), depois até São Paulo para percorrer as passerelles da São Paulo Fashion Week, e conquistar a sua primeira capa na versão brasileira da ELLE a qual recorda como tendo sido «uma experiência incrível».

Seguiram-se mais trabalhos, mais capas, mais momentos históricos trilhados por ela. Conquistou o lugar de primeira mulher transgénero a ser contratada pela Victoria’s Secret, desfilou para a Jean Paul Gaultier no último desfile desenhado pelo fundador e, mais recentemente, aos 24 anos de idade, tornou-se a primeira mulher transgénero a entrar dentro da icónica edição de verão da Sports Illustrated. Todos estes acontecimentos, fizeram com que Valentina se

tornasse num ícone da comunidade transgénero, mesmo não aceitando a posição: «Não me vejo como um ícone, vejo-me como uma pessoa que tem
estas oportunidades, pelas quais sou muito grata, mas que isso só é possível por causa de todas as pessoas que antes de mim, lutaram muito. E se hoje eu estou aqui, é por todas essas pessoas que tiveram de passar por muito coisa. Não sou só eu. É uma luta conjunta. Eu sinto, sim, a responsabilidade e a necessidade de poder passar uma mensagem para as pessoas e tentar abrir o coração educando e mostrando que somos pessoas iguais a todas as outras».

A sua posição e experiência fizeram com que o deixasse de sentir o preconceito com tanta frequência e intensidade como no início, mas não foi o suficiente para que este desa- parecesse da sua vida. «Lembro me que quando cheguei em Milão, o meu agente disse-me que algumas marcas seriam mais difíceis de alcançar, por ser trans. E chegou a acontecer, algumas vezes, o cliente ver o meu perfil, e gostar do meu portfólio e depois, quando descobriu que eu era trans, dizer que não tinha mais interesse em trabalhar comigo. Isso já aconteceu assim umas cinco ou seis vezes». E claro, nas redes sociais, onde o ódio é destilado gratuitamente, mas que decide ignorar: «Tenho uma cabeça mais forte, e procuro sempre olhar mais para os pontos positivos e não olhar muito para as coisas negativas porque sei que não me vai acrescentar nada. O que tenho que fazer é lutar por mim e por todas as pessoas que são como eu, e poder levantar essa bandeira, tentando, de alguma forma, educar as pessoas» até porque o seu objetivo é «plantar uma semente de amor, de aceitação, e de respeito».

TEMPOS DE PANDEMIA

O setor da moda, por não ser o de uma indústria de primeira necessidade, foi um dos mais afetados pela pandemia e, por isso, todos os trabalhos da modelo pararam fazendo com que quisesse regressar ao seu país de origem. «Tenho feito algumas coisas por aqui, mais relacionado com revistas… Tenho fotografado algumas coisas que fazemos online e por Zoom, mas isto afetou bastante o meio. Não tenho feito muito coisa desde o meu último trabalho em março, que foi quando as coisas começaram a ficar muito ruins em Nova Iorque. Eu estava sozinha num apartamento e decidi regressar para o Brasil. Na altura ainda estava tudo relativamente bem, com muitos poucos casos. Só depois é que se tornou num dos lugares mais complicados» diz, acrescentado «acho extremamente importante termos o apoio e o amor deles [da família], e eu sei que muitas pessoas nesse mundo não tem esse suporte, e eu me sinto muito grata de poder voltar para casa e ter a minha família».

 

SER TRANS NO BRASIL

Se até agora a nossa conversa foi pautada pelo som do vento que vem da praia e das folhas das palmeiras, neste momento, a música de fundo muda. O disco troca a canção para Balada de Gisberta (escrita por Pedro Abrunhosa cantada por Maria Bethânia), que me foi apresentada por Valentina nesta conver- sa. Ainda que os números tenham baixado bastante, o Brasil continua a ser o país que mais mata travestis e transexuais – estima-se que seja uma a cada três dias. Infelizmente, esta é a realidade do país e, por isso, não posso terminar esta conversa sem falar sobre o tema com ela. Afinal de contas, como será que uma pessoa trans se sente lá? «Quando era jovem preocupava-me bastante em estudar porque queria mostrar que tinha o mesmo valor que as outras pessoas. As trans aqui no Brasil não tem grandes oportunidades. Ou trabalhas num salão de beleza ou acabas na prostituição. As hipóteses de ter trabalho digno quase não existem. Não vês uma trans a trabalhar numa loja. Ao saíres à rua as pessoas olham-te de uma maneira meio torta. Por várias vezes quando estava com as minhas amigas, aqui, vi famílias que estavam com uma criança tirá-la de perto, sem deixar que ela olhasse sequer para nós. Somos marginalizadas, vistas como algo imoral, como algo que não é correto, como pecado. A minha simples existência é tida como um pecado que tem que ser tratado. Na ideia de muitos eu só fiquei assim porque o meu pai não me bateu o suficiente para me fazer ser um homem» diz num tom de voz intenso, acrescentando «Muitas pessoas pensam que é uma escolha, como se escolhêssemos ser assim. Mas não escolhemos, nascemos assim, e só queremos ser aceites, respeitadas, ter uma vida digna, ser vistas como um ser humano normal, e viver como qualquer outra pessoa. Muitas das vezes nem somos vistas como pessoas mas sim como algo descartável, como se não tivéssemos valor. Nós só queremos amor e respeito, temos sentimentos como todo mundo».

Mesmo que por vezes a luta no “país tropical, abençoado por Deus” pareça não ter fim isso não faz com que Valentina perca a esperança de que tudo possa vir a mudar. Aliás, é precisamente essa a mensagem de esperança que tenta passar a todas as jovens trans que entram regularmente em contacto com ela: «Espero que o mundo se torne num sítio com mais amor e respeito, onde toda a gente tenha direito de ser livre para viver e ser quem é».