Sandra Oh, a Atriz Camaleónica Que Nunca Foge aos Seus Princípios

Sandra Oh conta à ELLE como navega o universo de Hollywood. Por: Vanessa Craf -- Imagens: Greg Swales.

Há uma certa aura de eletricidade que envolve Sandra Oh. A atriz coreana-canadense, de 48 anos, tem uma capacidade especial de se conectar com as pessoas sem qualquer tipo de esforço, desde um grupo de mulheres na casa dos 40 anos que mal se contem quando ela sai do elevador do hotel onde se encontra até aos adolescentes que estão a descobrir a série Anatomia de Grey pela primeira vez através da Netflix e estão a fazer TikToks da #CristinaYang, com visualizações que já ultrapassam os 14 milhões.

Este carisma de Oh é muito evidente em Killing Eve, a série que está disponível na HBO Portugal e que já vai na sua terceira temporada. Aclamado pela crítica e vencedor de vários prémios, este thriller documenta a relação obsessiva, de gato e rato, que se desenvolve entre uma assassina profissional, Villanelle (interpretada pela atriz britânica Jodie Comer) com Eve Polastri, uma desonesta agente do MI6 (papel de Oh). Entre assassinatos mirabolantes com ganchos de cabelo envenenados e nuvens de perfume mortal, Killing Eve mostra-nos duas mulheres consumidas pela ambição e, em última instância, as faíscas inevitáveis que surgem quando se encontram duas pessoas que são as melhores nas suas respetivas áreas. Estas personagens complexas não são fáceis de gostar, mas são muito atraentes de interpretar, ou seja, Eve é o tipo de papel que Sandra gosta.

Foi a desempenhar o papel de outra mulher complexa que a atriz canadiana se tornou um nome de sucesso – a médica Cristina Yang de Anatomia de Grey. «Decidi que só vou interpretar personagens que são essenciais para a história, que conduzem a narrativa e, portanto, não podem ser eliminadas», explica. O fator crucial, acrescenta a atriz, «é que tens que chegar a um ponto [na tua carreira] onde podes dizer não».

O compromisso de Oh com este padrão e o que ela traz para a sua performance é o motivo pelo qual Shonda Rhimes, criadora e produtora executiva de Anatomia de Grey, lamentou publicamente a decisão de Oh sair após dez temporadas. «Fiquei mais triste por não escrever para a Sandra do que qualquer outra coisa, porque já não teria a oportunidade de ver o que ela poderia fazer com a personagem», explica-me por telefone. «Acho que ela escolhe as personagens e depois encaixa-se nelas. Existem muitos atores que querem ser fixes ou que querem ser vistos como protagonistas românticos ou como heróis, mas a Sandra não está interessada nisso. Ela quer interpretar coisas da vida real».

Oh nunca vacilou em relação ao queria fazer. O desejo de ser atriz tornou-se a sua prioridade no secundário, o que a levou a juntar-se a grupos de improvisação e a realizar espetáculos para os seus pais sul-coreanos e os seus dois irmãos. Pergunto-lhe como é receber tantos elogios. «É bom saber que as pessoas estão entusiasmadas com o que estou a fazer – especialmente quando se tem uma carreira [de forma teatral, baixa a voz para um sussurro] com décadas». A atriz pode brincar sobre a duração da sua carreira, mas assume o seu lado determinado e confiante de forma confortável, sem pedir desculpas.

«A Sandra é intensa quando está a interpretar um papel, e digo isto no melhor dos sentidos», diz Rhimes, explicando que Oh entrava a correr no seu escritório todas as semanas, com os guiões cheios de anotações, fazendo inúmeras perguntas sobre as escolhas de palavras e motivações da personagem. «Isso deixava-me louca e deixava-me muito feliz ao mesmo tempo», diz Rhimes. «A Sandra queria fazer sempre o melhor possível. Ela consegue melhorar qualquer coisa que tu escrevas – ela mergulha na personagem e preocupa-se profundamente. Não consegues ter uma conversa superficial com a Sandra».

A profundidade do trabalho de Oh nota-se em cada episódio de Killing Eve. No ecrã, a química entre Oh e Comer é palpável. «Tenho uma conexão muito profunda com ela», diz Oh. «Quando nos juntamos, existe uma grande confiança. Estamos a motivar-nos uma à outra. Confiamos neste espaço de alquimia entre nós. Ela confia nos seus instintos, assim como eu confio absolutamente nos meus».

Na série, as personagens de Oh e Comer podem ser semelhantes nas suas ambições e obsessões, mas há um vencedor claro quando o assunto é estilo. Villanelle desfila em fatos Chloé e casacos J.W. Anderson, enquanto Eve opta por golas altas e casacos confortáveis. «Isso mata-me!», diz Oh quando menciono esta discrepância. «Vou até ao guarda-roupa e vejo as roupas daquela vadia e fico tipo: “Posso vestir algo que não seja Uniqlo? Não?”».

A atriz ri-se, mas fica séria quando o tema é a enorme importância da moda no programa. O guarda-roupa de Eve mostra, de forma subtil mas crucial, a sua metamorfose e como a personagem de Oh é influenciada pelo estilo sofisticado de Villanelle. «Eve está sempre em tons neutros e básicos, certo?» diz Oh. «Ela é sempre terrena, com as suas inúmeras golas altas. A beleza está na forma como ela muda. Eve muda de tecido, de silhuetas, de formas». À medida que se vai aproximando de Villanelle, por exemplo, Eve deixa de usar o seu habitual sobretudo de linhas masculinas e troca para uma opção mais feminina; as suas peças passam de oversized para mais justas, «Mas todas estas opções mantêm-se na paleta de cores que a personagem usa», remata.

Antes de dominar a televisão, Oh passou pelo cinema em filmes como Last Night, Sideways e The Diary of Evelyn Lau e, mais recentemente, mostrou o seu sentido de humor incrível no Saturday Night Live e nos Globos de Ouro de 2019, quando apresentou a cerimónia com Andy Samberg. Oh foi a primeira mulher asiática a fazê-lo. («Fiquei apavorada à séria, mas foi por isso mesmo que o fiz».).

Ultimamente, tem-se falado muito sobre a representatividade em Hollywood, especificamente sobre atores de minorias que são escolhidos para papéis “daltónicos” (onde as especificidades da raça são abolidas) ou que reforçam o estereótipo de que apenas alguém com uma determinada aparência pode desempenhar um papel de protagonista. «Agora estou num ponto da minha carreira em que estou especificamente interessada em papéis que explorem a raça de uma personagem», diz Oh. «Porque posso, é verdade, e porque quero que as conversas da humanidade eventualmente evoluam para um lugar em que se reconhece que a diferença é importante. Por exemplo, se for uma série sobre uma revista de moda na qual o diretor é negro. A personagem não pode ser escrita sem abordar a história que a envolve. Mas essa tem sido a narrativa desde que existimos».

Segundo a atriz, essa abordagem unidimensional faz pouco sentido, porque todos nós sabemos, por experiência, como a raça ou cultura de uma pessoa influencia as suas escolhas ou a forma de encarar o mundo. «Os asiáticos-americanos, principalmente da minha geração, quase se escondem se ouvirem um sotaque [no ecrã] pelas conotações racistas automáticas implícitas e por sentirmos que não estamos no comando da nossa própria história», partilha connosco. Isso é algo que está a mudar com as gerações mais jovens, o que deixa a atriz otimista, principalmente porque sente que teve um papel de educação ativo a esse respeito. «Estou muito feliz por ter contribuído para isso», diz.

Quando finalmente terminamos o nosso brunch, Sandra Oh afasta a sua chávena de café vazia ligeiramente para o lado e reflete sobre a sua motivação atual para trabalhar. «À medida que amadureces, começas à procura de um propósito, de uma conexão com o mundo», afirma. «Trabalhas para a tua vida ter um sentido – se o conseguires encontrar é uma verdadeira bênção!».

 

 

Styling: Annie Horth;

Maquilhagem: Kara Yoshimoto / SWA;

Cabelos: Jenny Cho / SWA;

Produção editorial: Estelle Gervais;

Assistente de fotografia: Yolanda Leaney, Amanda Yanez;

Assistente de styling: McCall O’Brien;

Assistente de maquilhagem: Pricilla Pae;

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na revista ELLE de dezembro de 2020.