Como Rosalía Se Tornou Num Ícone Mundial Sem Deixar As Suas Raízes

Falámos com a cantora antes de nos fecharmos em casa e de ela ser a banda sonora perfeita para este momento. Por: Carinha Chocano -- Imagens: © Zoey Grossman.

Conheci Rosalía alguns dias antes de o mundo parar, no início de março, quando as coisas começaram a ficar estranhas. A cantora devia regressar a Espanha, onde a crise da covid-19 estava a crescer, alguns dias depois do nosso encontro, mas o encerramento
das fronteiras forçaram uma mudança repentina de planos. Rosalía publica uma foto no Instagram e no Twitter, onde está a sorrir, cercada por equipamento de gravação, com a legenda: «Monto o meu estúdio em qualquer lugar!», seguido por um tweet com um emoji de rosto triste e de corações.

A balada que estava a terminar, Dolerme, é sobre um relacionamento fracassado, mas quando é lançada, no final de março, a imagem de capa é uma ilustração em tons de azul de uma miúda semelhante a Rosalía, deitada numa cama com um telefone, uma faca e um chihuahua com cara de mau e uma máscara cirúrgica descartada ao lado dela no chão. Dirigindo-se aos fãs no dia do lançamento, a cantora escreveu nas redes sociais: «(…) Estou em quarentena e perdi um pouco a noção do tempo, porque decidi que não pensaria muito nisso e que, em vez disso, colocaria a minha energia e o meu coração a fazer algo pelos outros, por mim mesma. Sei que o que faço como artista pode parecer dispensável – para alguns será – mas para mim, ser capaz de fazer música é saúde mental (…). Espero que faça [as pessoas] sentirem-se um pouco melhor, como aconteceu comigo quando fiz isto».

Como Rebeca León, a sua agente, me contou mais tarde, o plano original era lançar uma música diferente. Mas devido à pandemia, Rosalía decidiu mudar de direção. «Ela mostrou-me esta música e comecei a chorar quando a ouvi. É muito emocionante, e a reação que estamos a receber é muito poderosa», diz León. «A música tem um poder incrível, não importa o que está a acontecer no mundo».

Nos Grammys

Em janeiro, Rosalía cantou duas músicas na 62ª cerimónia dos Grammy Awards. Alicia Keys apresentou-a como a «sensação espanhola que encantou o mundo», e é verdade – há algo na sua música que chama a atenção. Vestida com um bodysuit branco com franjas e ténis de plataforma, Rosalía cantou uma versão eletrizante de Juro Que, em frente a painéis espelhados, acompanhada por um guitarrista de flamenco. Seguiu-se Malamente, na qual a cantora foi acompanhada por uma multidão de dançarinos em macacões vermelhos. No início da noite, Rosalía ganhou o Grammy para Melhor Álbum de Rock Latino, Urbano ou Alternativo. A espanhola também foi nomeada para o prémio de Melhor Novo Artista, a primeira pessoa que canta apenas em espanhol a ser considerada para esta categoria (Billie Eilish saiu vencedora).

«A experiência dos Grammys foi, tipo, uau», contou-me enquanto comíamos sushi, depois de simpaticamente aceitar tirar umas fotografias com duas mulheres que estavam de olho – e discretamente a filmar – a nossa mesa. «Foi algo muito importante para mim. Toda a minha vida vi os artistas que mais admiro a apresentarem-se naquele palco, sabes? E de repente, estar a cantar flamenco e a dançar um pouco de seguidilla [uma dança tradicional espanhola em tempo triplo], fez-me sentir muito grata, juro. Senti-me tão abraçada. Chorei no carro a caminho de todos os ensaios. Não acreditava no que me estava a acontecer».

Origem musical

Rosalía, cujo nome completo é Rosalía Vila Tobella, foi criada em Sant Esteve Sesrovires, uma pequena cidade no nordeste de Espanha, na Catalunha, a cerca de 38 quilómetros de Barcelona. A sua mãe trabalhava numa empresa familiar que fabricava placas de metal, e o seu pai na área da construção. A cantora e a sua irmã mais velha, Pilar, sempre foram incentivadas a serem criativas. Os pais passaram-lhe o amor pela música, incentivando-a a cantar desde muito nova.

Há uma história, agora famosa, sobre como o seu pai lhe pediu para cantar num evento familiar, tinha ela sete anos. Quando a cantora abriu os olhos, após o seu espetáculo caseiro, os adultos choravam. Rosalía começou a aprender guitarra e solfejo – um método de leitura de partituras usado para desenvolver as capacidades auditivas e de tom – aos nove anos, e aos dez, já sabia que queria ser cantora. «Eu queria estudar», afirma, «Queria aprender».

A chegada do flamengo à vida de Rosalía

Flamenco, o género musical ao qual Rosalía é mais frequentemente associada, combina várias tradições folclóricas da Andaluzia, no sul da Espanha, e está intimamente associado ao povo cigano. As fábricas existentes junto à cidade da cantora atraíam trabalhadores da Andaluzia e os seus filhos – colegas de turma e amigos de Rosalía – apresentaram-na ao flamenco. «Nunca tinha ouvido flamenco até aos 13 anos», lembra a cantora. A música sempre teve uma função espiritual para Rosalía, mas o flamenco tomou conta dela por completo. «É uma das formas de música mais sinceras que existe», aponta a artista espanhola. «A mais honesta, a mais apaixonada, a mais visceral». Entretanto, começou a estudar canto flamenco, bem como piano, o instrumento em que agora compõe.

Aos 19 anos, Rosalía foi admitida na Escola Superior de Música de Catalunha para estudar com José Miguel Vizcaya, conhecido como Chiqui de la Línea, um professor de flamenco muito conceituado, que aceita ser mentor de apenas um aluno por ano. Sem conexões na indústria, a cantora começou a apre- sentar-se em bares e casamentos para mostrar o seu talento.

O primeiro álbum

Apesar do sucesso lhe ter chegado cedo, Rosalía fez as coisas com calma. «Nunca tive pressa para fazer o meu primeiro álbum», revela a cantora. «Sabia que não faria algo até saber exatamente o que queria que fosse». Aos 17 anos, um empresário de um grande cantor espanhol propôs-lhe um projeto muito pop, mas Rosalía recusou por não se identificar. Esperar até os 22 anos para fazer o seu primeiro álbum – e fazê-lo sozinha – deu-lhe tempo para estudar e absorver. A cantora interiorizou muitas formas de música e sintetizou-as de uma forma única e em camadas. «Quero que cada álbum seja diferente, para me sentir viva», conclui.

Rosalía ainda estava na universidade em fevereiro de 2017 quando lançou o seu primeiro álbum, Los Ángeles, de forma independente. Naquele verão, apresentou-se num teatro de flamenco em Madrid para um público de cerca de 50 pessoas, entre elas Juanes, o cantor colombiano que a sua agora empresária, Rebeca Léon, representava. «Ele não é uma pessoa dramática; não é exagerado», diz León sobre Juanes. Mas quando o colombiano ouviu Rosalía cantar, «disse-me: “Eu chorei! Esta é, provavelmente, a artista mais importante que veremos nos próximos 50 anos”», recorda León.

O poder do tango

Poucos meses depois, Juanes convidou Rosalía para cantar um dueto com ele no seu concerto em Madrid. Rebeca diz que ficou surpreendida quando Rosalía sugeriu cantar um tango. «Pensei “ela tem profundidade”», diz. «Nem todas as pessoas optariam por um tango». Rosalía impressionou-a ainda mais quando chegou para fazer os testes de som e dominou o palco com «a maneira como dizia aos técnicos como queria os microfones no seu ouvido e se movia no palco», diz León, «Foi uma loucura». A empresária contratou-a no mês seguinte.

De projeto de fim de curso a álbum

O segundo álbum de Rosalía, El Mal Querer, lançado em novembro de 2018, começou por ser o seu projeto de fim de curso. A ideia era fazer um álbum conceptual sobre um relacionamento tóxico: «Aquele relacionamento que sabes que vai acabar mal, mas mesmo assim, vais em frente com ele», diz. «Queria explorar a possessividade e o ciúme e falar de um amor [sombrio]». Esta sua visão estendeu-se aos videoclipes, cada um sendo uma tour de force complexa e cheia de referências vertiginosas. Por exemplo, no vídeo de Malamente, o primeiro single deste trabalho, a mota que vemos a cantora a guiar representa um touro, uma luta contra o seu amante toureiro.

Espanha sempre no coração

Um dos motivos pelos quais Rosalía está numa liga à parte é por ter ascendido ao topo do pop global sem deixar de permanecer fiel às suas raízes. O jornalista Guillermo Alonso escreveu no jornal El País, no ano passado, que ela se destacou entre as estrelas pop espanholas que alcançaram fama mundial por «usar Espanha como a sua marca registada». Em outras palavras, «ela não canta em inglês, ela não usa produtores suecos, ela não tem que cantar com estrelas britânicas ou americanas e ela não se mudou para Miami», escreveu Alonso.

Isto faz com que a polémica que a rodeou seja, no mínimo, surpreendente. Houve quem acusasse a cantora de se apropriar da cultura e do imaginário do flamenco e da Andaluzia. «Porque é que a Rosalía – que fala como uma pija [uma menina beta de classe média alta] – quando canta, usa palavras ciganas e as pronuncia como uma andaluza?», escreveu a ativista romani Noelia Cortés no Twitter. «Se ela não achasse que estava a roubar algo, usaria o seu sotaque natural – e não se disfarçaria como algo que não é nem remotamente parecido com o seu discurso normal».

Rosalía ficou surpreendida. O flamenco foi uma parte essencial do seu tecido cultural enquanto crescia. «A cultura andaluza está presente na Catalunha porque sempre houve imigrantes dessa região», afirma. «É assim que as coisas são. É um fato. O flamenco está na Catalunha». O flamenco em si é uma fusão de culturas (romani, sefardita, mourisca, espanhola) e os seus ecos podem ser encontrados em todos os tipos de música popular.

León diz que a polémica é um sinal de que algo está a funcionar. «A Rosalía vai deixar as pessoas desconfortáveis, porque está a mudar o paradigma», constata. «Hoje, qualquer criança em qualquer sala em qualquer lugar do mundo tem acesso a qualquer tipo de música. É possível alguém estar no seu quarto na Índia a ouvir Justin Timberlake. Então, é válido que ele seja uma influência para essa pessoa, porque é isso que está a ouvir enquanto cresce. Não precisa de estar na sua cultura para ser uma influência para a pessoa». Rosalía acha que a parte mais importante de fazer música é que ela venha do coração. «Estudei este género musical porque o amo, e tento fazer a minha música a partir de um lugar de respeito por uma tradição que tanto amo», afirma.

Um progresso «alucinante»

A cantora não se deixa abater pelas críticas. Quando reflete sobre onde está hoje, a única palavra que consegue encontrar para o descrever é «alucinante». E quando pensa em algumas das pessoas que afirmam ser suas fãs, a artista espanhola não consegue acreditar. «Tipo, não sei! Pessoas que fazem parte da cultura pop global! O David Byrne veio ao meu concerto em Nova Iorque. E o Caetano Veloso. E o Frank Ocean. Quase tive um ataque cardíaco!». A cantora lembra-se de como, quatro anos antes daquele espetáculo, partilhou um vídeo no YouTube. «O primeiro vídeo que pus no meu canal – ainda está disponível – e a única cover que fiz, é a Thinkin Bout You do Frank Ocean!». Isto ainda a surpreende. Tudo isto.

James Blake, músico e produtor, aponta a sua ética de trabalho como a chave do seu sucesso. Quando ele e Rosalía colaboraram na música Barefoot in the Park, o músico deu à cantora espanhola «o conceito da música e ela fez o que quis. Percebi que ela é muito rápida e profissional… Superconcentrada, mas ao mesmo tempo muito criativa e incrivelmente musical».

Já preparada

León diz que é porque Rosalía estava preparada para este momento. «Ela tem trabalhado nisto de maneira muito disciplinada há anos», afirma a agente. «Uso sempre a metáfora de que ela é como o Batman na caverna», referindo-se ao lugar onde Batman encontra a sua alma em Batman Begins. «Quando ele entra com os gurus e sai transformado em Batman. É ela. Ela foi estudar flamenco com este guru, Chiqui, aos oito anos. Ela não saía à noite, não ia a festas, não tinha namorados. Ela não tinha vida. Tudo o que fez foi estudar flamenco e trabalhar duro. É por isso que ela está tão preparada. Ela não está a aprender com o tempo. Ela já está pronta. Mais do que qualquer outro artista que alguma vez vi».

No final, Rosalía sabe que não pode controlar a forma como a sua música será recebida. «Com a música, nunca sabes o que vai acontecer», diz. «Não depende de ti. Mas se a fizeres a partir do teu coração, da tua verdade, as pessoas vão perceber».

Styling: Natasha Royt;

Cabelos: Panos Papadrianos;

Maquilhagem: Romy Soleimani;

Manicure: Yvett Garcia;

Produção: Michelle Hynek;

Styling de adereços: Ali Gallagher.

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na revista ELLE de outubro de 2020.