Rami Malek: «Espero Que Fiquemos Mais Unidos e Mais Fortes Depois Deste Ano»

Falamos com o ator de James Bond em plena quarentena, que agora um dos novos embaixadores da Cartier. Por: ELLE Portugal Fotos: © Craig Mcdean para Cartier (1)

A sua voz profunda e ligeiramente arrastada é quase tão distinta quanto as suas performances, quer no grande ecrã como no pequeno. «É um tipo de magia», diz Rami Malek. O ator, que deve conhecer por encarnar Freddie Mercury – que lhe valeu um Óscar e um Globo de Ouro de Melhor Ator, entre outros – ou Mr. Robot – com o qual ganhou um Emmy como Melhor Ator – está a falar comigo via Zoom. Infelizmente, só tenho som. Mas consigo imaginar o seu rosto simpático e os seus olhos grandes e expressivos do outro lado do ecrã. Será que acabou de acordar? Será que ainda está de pijama ou de roupão? Será que ainda está em quarentena com Lucy Boynton, a sua parceira no filme Bohemian Rapsody e na vida real? Rami Malek é a discrição em pessoa.

Entrevistar o ator é um exercício em si. Malek fala com cautela, com grandes pausas entre cada pergunta. Para qualquer leitor, que neste caso também gosta de escrever, cada palavra tem um significado. Tudo é feito com dedicação suprema e isso é visível também nas suas escolhas profissionais. Ao mesmo tempo que chega aos ecrãs como o vilão do aguardado 25º filme de James Bond, No Time to Die, o ator americano integra a comunidade exclusiva, altamente criativa e multifacetada que a Cartier reuniu para o lançamento do seu novo relógio Pasha. Rami Malek parece ser o homem do momento.

Como estão a ser estes dias de distanciamento social?

A encontrar novas maneiras de me entreter (risos). Fui inteligente por ter comprado uma bicicleta quase no início, quando ainda não havia ninguém nas estradas. Foi uma experiência única ver Londres quase em passeio privado. E o exercício é sempre bom para a nossa saúde e mente, especialmente em momentos como este.

Sei que gosta de escrever. Teve oportunidade de escrever alguma carta nos últimos meses?

Sim! Tenho estado permanentemente preocupado nos últimos tempos, sem saber se vou conseguir voltar a tocar em pessoas. Então, tenho lido mais do que escrito, para ser sincero. Tendo a gravitar para livros de não ficção, talvez porque tenham mais a ver com as histórias que crio enquanto ator. Tenho desenhado, comecei a pintar um pouco. Estou a trabalhar em algo que me tem ocupado consideravelmente, estou ansioso de o pendurar na parede um dia destes!

Acha que a pandemia irá mudar o nosso mundo?

Com certeza! No mínimo, isto vai forçar-nos a realmente respeitarmo-nos uns aos outros, ouvirmo-nos uns aos outros, cuidarmos uns dos outros. Espero que fiquemos mais unidos e mais fortes depois deste ano, porque situações difíceis como esta muitas vezes podem ser uma oportunidade para mudarmos. Espero que seja o caso.

Como vê o futuro da indústria do cinema, que sofreu muito nos últimos tempos?

Sinto-me confiante na nossa capacidade de adaptação e readaptação. Pessoalmente, anseio por poder voltar a frequentar os cinemas, espero que volte a ser um hábito de consumo das pessoas, mas entendo que temos que tomar certas medidas e ações antes que isso seja uma possibilidade generalizada. A nossa indústria foi posta em pausa [o que inclui o lançamento mundial do novo James Bond, inicialmente previsto para abril], mas é claro que isso perde importância quando comparado com outras coisas que estão a acontecer no mundo.

No seu discuros nos Óscares, quando ganhou o galardão de Melhor Ator por Bohemian Raphsody, referiu que estamos ansiosos por histórias sobre minorias, sejam raciais ou sexuais, para nos desafiar e abrir mentalidades. Sente que esses passos já estão a ser dados pela indústria?

Sim, mas espero que este ímpeto ganhe ainda mais força. Esta não é uma conversa nova, mas é uma que talvez esteja a ganhar volume e tração agora. Por isso, tenho esperança de que a inclusividade continue a acontecer e seja colocada em prática com mais eficiência.

Voltaria a fazer outro filme biográfico?

Ainda estou a pensar e a saborear a experiência incrível que foi interpretar o Freddie Mercury. Daqui a um tempo voltamos a falar sobre esta questão biográfica.

É o vilão do próximo de James Bond, No Time to Die. Como foi fazer um filme do universo de 007?

Gostei muito. Há algo de muito especial no ato de entrar num set do 007 e ver o design de produção numa escala incomparável. É um daqueles momentos em que, quando olhas para trás, ficas com um sorriso no rosto. Existem coisas que achas que nunca vão acontecer contigo. Achas simplesmente que não terás uma oportunidade como esta, estares ao lado do James Bond, prestes a gravar uma cena.

O Rami cresceu a assistir James Bond? Qual é o seu ator favorito dos vários que já interpretaram o agente secreto?

Sim, cresci a assistir a todos eles! Adoro os primeiros filmes com o Sean Connery, mas tenho que dizer que o Daniel [Craig] é o meu Bond favorito. Ao ver estes filmes enquanto crescia eles acabaram por tornar-se nos momentos em que estudei cinema, sentado com meu pai. Eles [filmes do Bond] passaram a fazer parte de uma educação que valorizo muito.

Uma vez explicou que gosta de personagens que têm dilemas morais com elas próprias e que se recusam a reconhecê-los. Sente que encontrou esta complexidade neste papel, tal como é esperado de um vilão de James Bond?

Safin é uma personagem muito diferente de qualquer outra que já tenha interpretado. Tem características muito próprias, o que permite uma análise interessante… Acho que ele é guiado por um certo conjunto de princípios morais autoprescritos, mas não acho que ele, em algum momento, veja isso como uma dificuldade ou algo negativo. Para ele, não há muito que possa atrapalhar as suas intenções de levar a cabo os seus planos… até que entra o Bond.

Há algum papel de sonho específico que gostasse de interpretar no futuro?

Sim e estou a mantê-lo muito próximo do meu horizonte. Se tudo correr bem, ele vai concretizar-se.

É um dos novos embaixadores do relógio Pasha da Cartier. Como se sente nesse papel?

A Cartier é o epítome da sofisticação e estou obviamente entusiasmado por ser um dos seus embaixadores, especialmente porque adoro o design exclusivo do relógio Pasha. Acho que tem tudo a ver comigo, é uma relação natural.

Qual é a sua relação com joias?

Penso que é uma ótima forma de adorno e expressão pessoal. Há algo muito especial em ter um bom relógio no pulso.

Prefere prata ou ouro?

Existe uma hora e um lugar para tudo. E gosto de ter uma variedade de relógios para ocasiões específicas. O meu relógio Pasha é prateado com uma safira azul. Acho que toda a gente vai gostar! É absolutamente deslumbrante e um chamariz para o olhar. Destaca-se, mas é muito elegante e sofisticado. E tem todas as características da mestria Cartier.

Lembra-se do seu primeiro relógio?

Costumava pedir os relógios emprestados ao meu pai, por isso não me lembro… Usava sempre os dele. Ele foi definitivamente uma influência para mim em termos de estilo, não há dúvida sobre isso mas, na verdade, quando penso naquela época, fico sempre impressionado com a elegância da minha mãe. Isso e a sua determinação são qualidades pelas quais sempre fui influenciado e que tento imitar.

Faz parte da comunidade Pasha da Cartier com Willow Smith, Maisie Williams, Troye Sivan e Jackson Wang. A nível pessoal, o sentimento de pertença a uma comunidade é importante ?

Extraordinariamente! Para mim, as comunidades simbolizam apreciação mútua, respeito. É um sentimento incrível poder fazer parte desta comunidade e ver estas pessoas que se esforçaram para alcançar algo especial nas suas vidas e ultrapassar os limites. Tenho orgulho de estar associado a este grupo em particular, que considero incrivelmente talentoso, especial – não apenas como artistas, mas como empresários, que estão a mudar a forma como pensamos sobre o que somos capazes enquanto artistas.

Em breve completa 40 anos. Como se sente perante a aproximação de uma nova década da sua vida?

Sinto-me bem. Sinto-me ótimo. Não perco muito tempo a pensar sobre a idade: a sua, a minha, de qualquer pessoa … É um presente estar vivo. Agora, estou obcecado em tentar dormir o suficiente. É algo que sinto que estou sempre em falta. Li um livro recentemente que se chama Porque Dormimos [de Mathew Walkner, disponível em wook.pt] e fez-me muito sentido principalmente pela importância para a nossa saúde física e emocional e bem-estar. O melhor conselho de beleza que, provavelmente, qualquer pessoa deve seguir é: “Vai dormir!”.

Está bastante afastado das redes sociais. Aliás, só tem quatro publicações no Instagram. Há algum motivo?

É algo que não faz parte dos meus instintos naturais, então não quero que pareça forçado. Se eu gravitasse naturalmente nessa direção, seria diferente. Consigo ver as múltiplas vantagens e desvantagens das redes sociais. Só que não sou alguém que beneficiaria desse envolvimento, simplesmente. Com isto, não quero ofender ninguém que aprecie esta forma de comunicação. Consigo entender totalmente.

Segue alguém online?

Não, mas volto a sublinhar que há aspetos positivos e negativos, e se é no online que alguém consegue encontrar as suas pessoas, então, excelente. Só que há algumas questões fraturantes que podem ser difíceis para alguns. Portanto, tenho algumas reservas.

Qual é a sua relação com o tempo?

É mais uma apreciação do passado, sempre olhando para frente. Um ótimo lembrete.