Natalia Vodianova: «A injustiça esteve muito presente na minha infância»

Ativista e defensora dos direitos das crianças, a supermodelo tem muitas razões para estar feliz. Por: Susana Blázquez -- Imagens: © Gilles Bensimon.

Enérgica, acessível e natural são os adjetivos que melhor definem – sem entrar no território da beleza –, à primeira vista, Natalia Vodianova (nascida na Rússia, em 1982), que chega pontualíssima e de muito bom humor ao apartamento parisiense de estilo haussmaniano no qual marcámos encontro. Conta-nos que esta é a primeira produção que faz em 2020, mas não o seu primeiro trabalho. «No dia 1 de janeiro, acordei às cinco da manhã para apanhar um avião para Moscovo, onde assisti a um evento importante da minha fundação. Dessa vez, fui acompanhada pelo meu filho Maxim, de 5 anos, que ainda não tinha ido à Rússia, e divertimo-nos muitíssimo», diz com a voz doce e pausada que a caracteriza.

Não há dúvida, Supernova – como é apelidada – tem algo de especial que vai muito além do físico. «A primeira vez que vi a Natalia, fiquei deslumbrado pela luz que irradiava e pelo seu magnetismo, que tanto me lembraram Romy Schneider, com a qual trabalhei, precisamente com Gilles Bensimon. Fiquei fascinado com a forma do seu rosto, a intensidade do seu olhar e a sua beleza interior», comenta Olivier Échaudemaison, diretor artístico da Guerlain, ao mesmo tempo que o icónico fotógrafo francês dispara a sua câmara.

Rápida, precisa e muito profissional, a top model gosta de supervisionar o resultado depois de cada mudança de look e de cruzar opiniões num melódico francês ou inglês, de acordo com o interlocutor. «As coisas em casa são muito divertidas, falamos três idiomas. Temos de estar muito atentos! Falo com os meus filhos em russo, o Antoine [Arnault] fala com eles em francês ou em inglês e nós os dois falamos em inglês», diz entre gargalhadas durante a pausa feita pela equipa para almoço. Divertida e muito generosa, partilha com todos as pessoas presentes histórias da sua vida quotidiana como se estivesse num encontro de amigos. «Sinto-me incrivelmente confortável a trabalhar com a Guerlain. São como uma família».

A sua infância e adolescência foram marcadas pela pobreza. A mãe, que foi abandonada pelo pai da modelo quando esta era muito pequena, teve de educar sozinha Natalia e a sua irmã, Oksana, diagnosticada com autismo. Natalia Vodianova não teve outra alternativa se não começar a trabalhar quando ainda era praticamente uma criança. Algo que, sem dúvida, marcou o seu carácter e a tornou mais forte, ela que com 17 anos chegou a Paris disposta a tentar a sua sorte no complicado mundo da moda.

Natalia Vodianova

Depois de duas décadas nesta indústria, continua a protagonizar as melhores capas e campanhas. Que balanço faz?

Obviamente sou uma pessoa muito diferente daquela que começou. Na altura, era muito jovem e não dava tanto valor como dou agora. É algo que a experiência proporciona.

Que lição aprendeu durante estes anos?

Para mim tudo se resume a apreciar o presente e a desfrutar de cada momento. Estou tremendamente agradecida ao mundo da moda por tudo o que me deu, pelo que me fez desfrutar e também por me apoiar tanto na minha fundação, Naked Heart.

Tem 38 anos e parece que já viveu duas vezes, tantas foram as coisas que já fez. Está tudo a passar muito depressa?

Eu sempre vivi a toda a velocidade [risos]. Comecei muito jovem no mundo da moda, fui mãe muito cedo, e mesmo quando era criança tudo passava depressa. Tive sempre de assumir muitas responsabilidades e só agora tenho a sensação de que posso relaxar mais. Preciso de dedicar tempo a mim própria e de cuidar mais de mim.

Até que ponto a sua infância a influenciou na criação de uma fundação para a defesa dos direitos das crianças?

Sempre fui muito sensível à injustiça, e ainda mais desde que triunfei na vida. A injustiça esteve muito presente na minha infância, que não foi fácil, embora em nada se compare com a de outras crianças em meu redor.

 

 

«A Naked Heart foi uma forma de dar significado a todo o êxito profissional, com o qual não me sentia completamente bem»

 

 

Em que momento teve consciência de que podia usar a sua fama para ajudar os mais desfavorecidos?

Muito cedo, tanto que tinha apenas 22 anos quando criei a minha fundação. O mais lógico seria acabar a carreira, retirar-me e só depois fundá-la. Mas, como não sabia os passos a seguir, fi-lo à minha maneira. A Naked Heart foi uma forma de dar significado a todo o êxito profissional, com o qual não me sentia completamente bem.

Qual é o vosso trabalho?

Somos uma equipa de 26 pessoas fixas, repartidas por Paris, Londres e, sobretudo, Moscovo, embora contemos com muitos colaboradores em diferentes áreas. Dedicamo-nos sobretudo aos menores com necessidades especiais, como os que sofrem de autismo, e à formação de pessoas que os ajudam a superá-las. Para estas crianças um diagnóstico precoce é fundamental e, embora estejamos muito longe de conseguir uma igualdade real, fazemos lobby para que as leis sejam mais inclusivas.

O que pede para esta nova década?

Que os meus filhos sejam saudáveis, que o Lucas entre na universidade que quer e que eu tenha mais tempo para mim. Quero ler mais, adoro, mas ainda não encontrei um momento para desfrutar da leitura. E gostaria de escrever, mas além de requerer mais tempo e dedicação, ainda não sei sobre o que poderia escrever.

Natalia Vodianova

Num plano mais pessoal, começou o ano com o anúncio, no Instagram, do seu casamento com Antoine Arnault…

Sim, ele pediu-me em casamento há pouco mais de um ano, justamente no dia do meu aniversário. Planeou tudo tão bem que me apanhou completamente de surpresa, e eu pensei que a chegada de 2020 era o momento certo para comunicar o nosso casamento.

Pode partilhar connosco algum detalhe do casamento?

Será uma celebração grande, com uns 300 convidados. Mas digo-lhe que em França estão habituados a casamentos mais numerosos, assim algumas pessoas vão pensar que são íntimas nossas [risos].

Como concilia a vida profissional e a vida pessoal, tendo em conta que tem cinco filhos?

Tento equilibrar o meu trabalho com a família, muitas vezes, sacrificando o pouco tempo livre que tenho. Mas sabe que mais? Penso que lá em casa começam a aperceber-se disso, porque o meu filho Viktor, de 12 anos, me ofereceu pelo Natal dez massagens de 15 minutos na parte do corpo que eu escolher. Uma ternura…!

Como cuida de si?

Pratico ioga e também vou ao ginásio. Necessito de libertar energia! Não faço todo o exercício que deveria, porque sou muito preguiçosa. Por isso, tenho um personal trainer, embora não seja todos os dias…

E no que diz respeito à alimentação?

Pratico jejum intermitente. Normalmente, passo 14 horas sem comer, embora me seja permitido ingerir alguns líquidos, e nas dez horas restantes posso comer. Tento ingerir menos açúcar, embora seja algo que o meu corpo me pede. Talvez porque tenho um metabolismo bastante rápido. Ou melhor, esta é a desculpa que dou para comer chocolate [risos].

É há mais de dez anos o rosto da Guerlain. Pode partilhar connosco um truque de maquilhagem?

Adoro maquilhagem e sou muito fã dos pós Terracotta. Aplico-os todos os dias na parte superior do rosto, nas têmporas, no nariz e à altura das maçãs do rosto, para o arredondar e ter um aspeto mais jovem. É uma ilusão de ótica que funciona!

E em relação à moda, como é que gosta de se vestir?

Não gosto apenas de um estilo nem procuro a última moda, embora obviamente tenha muitíssima roupa assinada. Mas no meu armário há sempre aquilo a que chamo peças de resistência, à prova da passagem do tempo.

Muitos concordarão comigo quando digo que a alcunha Supernova lhe assenta que nem uma luva…

Identifico-me muito. Tenho demasiada energia.

 

Styling: Sylvia Montoliu;

Maquilhagem: Marielle loubet/Calliste para Guerlain;

Cabelo: nabil harlow/ Calliste;

Manicure: Alyona Protsenko.

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na revista ELLE de maio.