Miley Cyrus: «Se não queres ter filhos, as pessoas têm pena de ti»

Uma conversa franca em que Miley fala abertamente da sua sexualidade e do casamento (que terminou depois). Fotografias: Mario Sorrenti -- Styling: George Cortina

Foram precisos um incêndio, um casamento, um estranho episódio de Black Mirror, um novo álbum caleidoscópio, e a cantora americana, finalmente, encontrou-se a ela própria.

Miley Cyrus quer partilhar comigo algo que escreveu. «Tento meditar na noite anterior a entrevistas sobre qual é o meu objetivo, o que quero que isto diga sobre mim.» Estamos na sala de estar da casa que comprou aos 18 anos, nas colinas de San Fernando Valley. Algures no tempo, passou a ser o seu escritório, mas Cyrus e o marido, Liam Hemsworth, voltaram para aqui, depois de a sua casa em Malibu ter ardido no incêndio de Woolsey, em novembro passado (os dois casaram-se um mês depois na sua quinta no Tennessee). Nas paredes estão molduras com fotografias de Elvis e Dolly Parton. Temos vista para a piscina lá fora. Dois dos seus cães estão aconchegados entre nós, enquanto Cyrus pousa o seu caderno no colo, limpa a garganta e começa. «O meu álbum chama-se She is Miley Cyrus (Ela é Miley Cyrus, em português). ‘Ela’ não representa um género. ‘Ela’ não é apenas uma mulher. ‘Ela’ não se refere a uma vagina. Ela é a força da Natureza. Ela é poder. Ela é o que tu quiseres ser. Assim sendo, ela é tudo. Ela é a superela. Ela é heroica. Ela é a Ela-E-O».

Cyrus salta e começa por explicar que “ela” é a versão mais confiante dela própria e que «‘ela’ está a trazer de volta o poder. Ela está aqui, energia feminina poderosa. O discurso dela pretende transmitir como as mulheres são a razão para a vida, «o que é uma bênção, mas também uma maldição». Miley lamenta a expectativa que se põe no sexo feminino: «Deposita-se nas mulheres a responsabilidade de manter o planeta povoado. Quando isso não faz parte dos nossos planos, somos alvo de julgamento e de raiva ao ponto de tentarem criar e mudar leis, forçando-as a todo o custo – mesmo se engravidares numa situação violenta. Se não queres ter filhos, as pessoas têm pena de ti, como se o teu coração fosse feito de gelo e não conseguisses amar.» Cyrus odeia a palavra “egoísta”. «Porque é que somos treinados a pensar que o amor significa pormo-nos em segundo lugar e quem nós amamos em primeiro? Se tens amor-próprio, pões-te em primeiro lugar.» A sua expressão facial séria dá lugar ao seu característico sorriso encantador, e senta-se no sofá. «Esta é a minha filosofia.» Eventualmente, acabámos por ceder o sofá aos seus cães e sentámo-nos no seu tapete felpudo, no chão.

«Deposita-se nas mulheres a responsabilidade de manter o planeta povoado. Quando isso não faz parte dos nossos planos, somos alvo de julgamento e de raiva»

No novo episódio de Black Mirror, série da Netflix, Cyrus é Ashley O, uma pop star fictícia muito similar à sua antiga vida como a estrela da Disney Hannah Montana. Também estreou um dos três EPs que, juntos, vão formar o tão esperado She, o seu sétimo álbum. A música é fluida e, como Miley, consegue ser um pouco confusa, mas de uma forma intencional. Ela tem pensado muito em quem é e chegou à conclusão de que a resposta é complexa. Aos 26 anos, Cyrus está a fazer um balanço de diferentes fases da sua vida pública e a considerar como deve usar a sua plataforma para consciencializar sobre os problemas acerca dos quais mais se preocupa, como as mudanças climáticas, o direito ao aborto e a desigualdade habitacional. Lá no fundo, ela é uma pessoa empática, tem uma alma vulnerável e quer ajudar a proteger outras almas assim.

Miley Cyrus

ELLE: Parece que também tens vindo a pensar muito na autonomia corporal da mulher.

Miley Cyrus: Sim, muito. Penso demais nos assuntos. Mas neste ponto da minha vida, sinto-me mais poderosa do que nunca. Gosto da maneira como ser sexual me faz sentir, mas nunca atuo para os homens. Eles não deveriam elogiar-se a si próprios ao ponto de pensarem que as decisões que estou a tomar na minha carreira têm alguma coisa a ver com eles. Não é por um homem achar que eu sou boa que vai comprar o meu álbum. Isso não ajuda.

ELLE: E depois há a ideia de que se és uma mulher, a tua vida acaba quando te casas.

M.C.: Acho que é confuso para as pessoas saberem que estou casada. Mas a minha relação é única. Não acho que alguma vez permitiria ao público entrar nela, porque é muito complexa, moderna e nova. Não acho que as pessoas vão entender. Do género, as pessoas acham mesmo que eu estou em casa, de avental, a preparar o jantar? Estou numa relação hétero, mas ainda me sinto sexualmente atraída por mulheres. As pessoas tornam-se vegetarianas por questões de saúde, mas o bacon é ótimo e eu sei isso. Decidi escolher o meu parceiro. É a pessoa que sinto que me protege mais. Definitivamente, não me identifico com o estereótipo de esposa. Nem gosto dessa palavra.

 

«Ainda me sinto sexualmente atraída por mulheres. As pessoas tornam-se vegetarianas por questões de saúde, mas o bacon é ótimo e eu sei isso.»

ELLE: Parece que os teus pais têm uma boa relação. Isso ajuda.

M.C.: E eles foram sempre companheiros um do outro. É por isso que gosto dessa palavra. Marido e mulher, para mim, parece um anúncio de cigarros dos anos 50. Penso muito na música Stand By Your Man e como era uma das músicas favoritas da minha mãe. Será que ela percebia a letra? Diz que ele vai estar embriagado e vai trair-te, mas quando chega a casa, ele ama-te. Ele é apenas um homem. Ele tinha tanto de fazer sexo que se esqueceu dos teus sentimentos. Tenho uma música nova, Never Be Me, e o refrão diz: «Se procuras alguém fiel, nunca serei eu. Se procuras alguém estável, nunca serei eu. Se procuras alguém que seja sempre tudo aquilo de que precisas, nunca serei eu.» Quando a mostrei pela primeira vez ao Mark Ronson [o produtor], ele disse-me: «Não podes dizer isso. Tens fãs homens e eles não vão perceber o que queres dizer. Nem eu percebo o que queres dizer.» E eu disse-lhe: «Não dirias isso se esta música fosse de um homem.» Passados dois dias, ligou-me e disse: «Sabes? Tens toda a razão. Percebo totalmente a tua perspetiva.»

ELLE: Assusta os homens.

M.C.: A Joan Jett contou-me que na primeira vez que tocou I Love Rock‘n’Roll, o Clive Davis disse-lhe: «Não há espaço na indústria para algo assim. Ninguém quer ver uma rapariga de calções com cabelo curto e uma guitarra.»

ELLE: Quando homens hétero são os responsáveis, a primeira pergunta é: «Quero ir para a cama com esta pessoa?» Mas, ao mesmo tempo, homens homossexuais querem ir para a cama com a Joan Jett. Muitas pessoas querem ir para a cama com a Joan Jett. Se calhar, tu não. Do género, muitas mulheres hétero querem ir para a cama com ela.

M.C.: 100% verdade.

ELLE: Ela é tipo o Mick Jagger.

M.C.: Agora, sempre que alguém me disser não, repondo: «Querido, sabes uma coisa? Disseram à Joan Jett que ninguém queria I Love‘n’Roll. Não devia ter-me contado essa história porque agora vai ser o meu argumento para tudo.»

ELLE: Os homens recusam-se a receber um não como resposta. O conceito de que tu, na condição de mulher poderosa na indústria musical, tens de o receber porque és mulher é absolutamente inacreditável.

M.C.: A minha nova música conta essa história. O meu episódio de Black Mirror também. A personagem sou eu. Eles distorceram, como sempre fazem, mas a indústria, por si só, já é bastante sinistra. Já me senti como a Ashley O em algumas situações. Ainda sinto. Enquanto fazia este álbum, senti-me como ela várias vezes.

ELLE: Foi o Charlie Brooker [criador e produtor da série Black Mirror] que te procurou?

M.C.: Sim. Deram-me o guião e disseram: «Avisa-nos se estiveres interessada.» Li-o e disse logo: «Não é uma questão de estar ou não interessada. Ninguém pode fazer este papel porque isto é a minha vida. Escreveste literalmente a minha vida.»

ELLE: Eu e o meu pai acabámos de almoçar juntos e eu expliquei-lhe a música Old Town Road [do rapper Lil Nas X com o pai de Miley, o cantor de country Billy Ray Cyrus].

M.C.: Essa música é o melhor de dois mundos, de tal maneira que acabou por ser uma canção perfeita para a rádio – é cola, junta as pessoas. Mas é uma afirmação política.

Miley Cyrus

ELLE: É um momento de divisão para a música country, claramente, assim como o facto de o teu pai, Billy Ray, dizer: «Vou entrar nesta música e legitimá-la como música country.»

M.C.: O meu pai não gosta quando dizem não a alguém. Ele adora os “underdogs” e foi sempre assim. Ele prefere fazer o que está certo e perder do que enganar e ganhar. Eu também sempre fui assim. Prefiro falhar do que enganar. Tenho uma música nova, Bad Karma, mas não existe tal coisa. Simplesmente, há uma causa e um efeito. Doutra maneira, Donald Trump nunca seria Presidente.

ELLE: Exatamente – É confuso quando pessoas más têm sucesso.

É pura ação e reação. Se tiveres muito dinheiro e fizeste algo manhoso, vais ganhar. Mas não significa que não há a hipótese de alguém te derrubar. Só não acredito que todas as pessoas têm aquilo que merecem. Conheço pessoas incríveis, através da Happy Hippie [a associação criada por Cyrus que se foca na juventude sem-abrigo, na comunidade LGBTQ+ e noutros grupos vulneráveis], que vivem na rua. Artistas com muito talento que nunca conseguiram vingar. Por isso, sei que o karma não é real.

 

ELLE: Sou de Los Angeles e este problema com os sem-abrigo não é de agora. O facto de algumas pessoas passarem por eles e simplesmente os ignorarem é horrível para mim.

M.C.: Cresci a trabalhar na KTLA, na Sunset {Boulevard, avenida em português}, onde estão vários sem-abrigo. Quando volto lá e vejo crianças a usarem t-shirts da Happy Hippie, isso deixa-me mais orgulhosa do que se ganhasse sete Grammys. Depois do incêndio de Woolsey, pensei em como ajudámos mais de 120 famílias que perderam as suas casas. Ajudámos quase 1000 crianças desalojadas em Hollywood, todos os anos, desde 2014. E no último ano, ajudámos 200 crianças a encontrar casa e fornecemos 32 mil refeições. Isso não se esquece. Ajudou-me muito a desconectar.

ELLE: Os incêndios põem realmente tudo em perspetiva…

M.C.: Com desastres naturais, não tens escolha. Tens de te entregar simplesmente.

ELLE: Ninguém é mais poderoso do que a Natureza.

M.C.: Nada. E a Natureza é feminina. Quando está zangada, não te metas com ela. Sinto que as mulheres estão assim agora. A Terra está zangada.

ELLE: Temos vindo a tratá-la mal.

M.C.: Têm feito ao planeta a mesma coisa que fizeram às mulheres. Tiram e tiram e esperam que ainda continue a funcionar. Está exausta. Não consegue produzir. Estão-nos a dar um planeta fraco e eu recuso dá-lo ao meu filho. Até eu sentir que o meu filho pode viver num planeta com peixes na água, não vou trazer uma pessoa para o mundo para lidar com isto.

 

«A Natureza é feminina. Quando está zangada, não te metas com ela. Sinto que as mulheres estão assim agora. A Terra está zangada.»

ELLE: Sinto que é o que os millennials estão a viver neste momento.

M.C.: Sim. Não queremos reproduzir-nos porque sabemos que o nosso planeta não aguenta.

ELLE: Alguma vez sentiste que tinhas de partir o molde Hannah Montana quando ainda fazias a série?

M.C.: Sim, quando fiz 18 anos, porque era ridículo. Assim que comecei a fazer sexo, foi tipo «não posso voltar a usar esta peruca». Começou a ser estranho. Sentia-me…

ELLE: Já adulta.

M.C.: Adulta em todos os sentidos.

ELLE: E continuas a usar a mesma roupa desde que eras criança.

M.C.: Uma vez, nos bastidores da Disneyland, vi o Peter Pan a fumar um cigarro e pensei: «Este sou eu. Estes são os sonhos que estou a destruir.» Foi isso que as pessoas pensaram quando saiu o vídeo do bongo, mas eu não sou nenhuma mascote da Disney. Sou uma pessoa.

ELLE: Achas que as pessoas te veem como uma artista completa?

M.C.: Sinto que agora tenho o respeito que quero. Quando chego a algum lado, as pessoas podem pensar: ‘OK, ela mostra as mamas.’ Mas também pensam: «Ela tem uma voz excelente.» E é só isso que me importa.

ELLE: Esse é o legado de Dolly [Parton, cantora country e madrinha de Miley], claramente.

M.C.: Exatamente. É algo do género: «Não deixes que este cabelo loiro te engane. Sou eu que assino os meus cheques.» Ela é uma mulher de negócios brilhante.

ELLE: O episódio de Black Mirror é quase como um exorcismo à Hannah Montana e a toda essa fase?

M.C.: Sim. Sinto que já não tenho vergonha dessa fase. É incrível ouvir a Cardi B dizer que ouvia Hannah Montana no secundário. Deixa-me muito feliz.

ELLE: Este episódio também faz um ótimo trabalho ao mostrar que qualquer música que faça uma pessoa solitária sentir-se menos só tem um propósito valioso. Ao mesmo tempo, apresenta uma visão real de que ser famosa tem os seus desafios mentais específicos, que mais ninguém consegue entender.

M.C.: Já fiz terapia algumas vezes. E eles tratam-me como tratam qualquer pessoa. Dizem: «Bem, sentes-te paranoica porque fumas erva, muito provavelmente.» E eu digo: «Não, sinto-paranoica por haver pessoas a enviarem drones para o meu quintal.» Uma vez, estava nua em cima de um cavalo falso quando apareceu um drone. Sinceramente, não podia ter pedido um momento melhor. Ao menos não estava sentada a beber café, a ser aborrecida. Mas acho que, agora, já não é interessante as pessoas verem-me a ser rebelde.

ELLE: Exato. É muito comum na fase do início dos 20 anos dizer: «Vou testar os meus limites, experimentar várias identidades e ver de que é que gosto.»

M.C.: É o que ainda estou a fazer – a experimentar novas identidades e a ver com que é que me identifico. Os incêndios retiraram-me da minha zona de conforto, para procurar um novo sítio a que pudesse chamar casa, para dizer: «Ouve, colecionei tudo isto, todos estes anos, mas isto não define quem sou.»

Maquilhagem: James Kaliardos. Cabelo: Bob Recine. Manicure: Lisa Jachno. Styling: George Cortina. Produção: Kyd drake do North Six. Fotos: Mário Sorrenti.

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de setembro de 2019.