Margot Robbie Fala Sobre a Família, o Movimento #MeToo e a Moda

A atriz australiana é a nova sensação de Hollywood e este é o seu majestoso retrato. Por: Françoise Delbecq -- Imagens: Liz Collins.

Com apenas 28 anos, a atriz australiana Margot Robbie já pode vangloriar-se da sua subida fulgurante até ao firmamento de Hollywood. Todas as etapas do seu percurso culminaram em sucessos, o que revela não só um talento incrível, mas também uma determinação de ferro e muito carisma. Quando a encontrámos em Londres, o seu sorriso franco e desarmante confirma tudo isto. Com Margot Robbie, não há disfarces nem falsas delicadezas. A atriz é franca, simpática, divertida. Parece ser alguém que se preocupa genuinamente com os outros… Poderá Margot Robbie ser a nossa nova amiga? Podemos sempre sonhar, certo? Mas acalmemos os espíritos e regressemos aos seus triunfantes êxitos, esses sim absolutamente reais.

Antes de ser nomeada para o Óscar de Melhor Atriz por I, Tonya de Craig Gillespie, Robbie foi dirigida por Martin Scorcese em The Wolf of Wall Street, onde contracenou com Leonardo DiCaprio, que acabou por reencontrar ao lado de Brad Pitt em Once Upon a Time in Hollywood, o próximo filme de Quentin Tarantino.

Em fevereiro, o novo rosto da Chanel regressou ao grande ecrã com Maria, Rainha dos Escoceses de Josie Rourke, ao lado de Saoirse Ronan, um filme sobre as rivalidades que opuseram a rainha Isabel I de Inglaterra, futura dirigente da Igreja Anglicana e Maria, a rainha católica. Absolutamente irrepreensível no filme, Margot Robbie sucede assim a uma longa lista de estrelas que já usaram as vestes de Isabel I: Bette Davis, Judi Dench e, claro, Cate Blanchett. Hollywood acabou de encontrar uma nova rainha, e ela chama-se Margot Robbie. God Save the Queen!

A infância

Nascida na pequena vila de Dalby, em Queensland, Austrália, Margot é filha de pais divorciados e partilhou a sua infância entre a quinta dos avós maternos e Southport, uma charmosa localidade na Gold Coast, conhecida pelos seus 60 kms de praia e pelo surf. A atriz lembra-se das discussões com os irmãos mais velhos Lachlan e Cameron, e com a sua irmã mais nova, Anya, e ainda hoje se questiona: «Como é que a nossa mãe conseguiu? Nós erámos quatro crianças insuportáveis! Para nos educar, ela tinha de trabalhar muito, como psicoterapeuta, que era a sua profissão. Mas tinha sempre energia. Isto transcende-me. Sempre quis imitá-la. A minha mãe é o meu motor, o meu exemplo, o meu modelo». Assim que a atriz começou a ganhar algum dinheiro, fez questão de pagar o empréstimo que a mãe tinha feito para comprar uma casa.

Na casa dos Robbie, viam-se muitos filmes em VHS. «Nessa altura, tinha uma paixão pela Goldie Hawn. Via os seus filmes todos repetidamente. Também gostava muito do Quinto Elemento, de Luc Besson. Mas não sabia quem era Martin Scorcese, Wes Anderson, Jacques Audiard… Só descobri Citizen Kane muito mais tarde, por exemplo».

Sem artistas na família, pouco levava a imaginar que Robbie se tornaria atriz. Um dia, viu na televisão uma rapariga parecida consigo, que estava a fazer um diálogo de uma forma que ela considerou extremamente desinteressante. Margot disse para si própria: «Eu podia fazer o mesmo, ou até melhor». Foi a motivação necessária. Tinha 17 anos, tinha acabado de terminar o liceu e partiu à aventura para Melbourne.

O sonho americano

Foi preciso uma enorme dose de coragem para ir à aventura, sozinha, para uma cidade grande onde não conhecia ninguém. «Tinha muito medo e também tinha a consciência de que estava a dar um salto para o desconhecido. Se me sentisse em baixo no fim de semana, não podia ir a casa, era muito longe. Em Melbourne, tinha a impressão de estar noutro país».

Margot Robbie foi fazendo pequenos trabalhos, como empregada na cadeia de fast food Subway, por exemplo. Mas sem perder a determinação e graças aos vários castings que foi fazendo um pouco por todo o lado, conseguiu um papel na telenovela australiana Neighbours, que é um programa televisivo de culto. Durante dois anos e meio, Margot aprendeu a profissão e percebeu que amava não só a câmara, mas também o trabalho em equipa. Mas sabia que Neighbours era apenas uma etapa e sentia que tinha de ir mais longe. Por isso, teve a ideia de se inscrever num curso de um coach que ensinava o sotaque americano. A possibilidade de Los Angeles tornava-se cada vez mais real.

Robbie poupou algum dinheiro. «Tinha menos medo do que quando fui para Melbourne. Acima de tudo, já não era uma jovem de 17 anos». E tinha um plano B preparado, se por acaso Hollywood não estivesse interessada nela? «Está a brincar? Pedi imenso aos guionistas de Neighbours para matarem a minha personagem para não me sentir tentada em regressar à Austrália. Já tinha virado a página».

Tentou a sua sorte e conseguiu um papel na série Pan Am, que acabou por ter uma única temporada. Como hospedeira da mítica companhia aérea, Robbie roubou o protagonismo à sua colega de elenco Christina Ricci. E isto foi só o início… Quando conheceu Martin Scorcese, tudo mudou. O realizador estava à procura de uma atriz para representar a mulher do protagonista interpretado por Leonardo DiCaprio.

Houve dois momentos que criaram a lenda de Margot Robbie. Primeiro, em pleno casting, a jovem atriz deu um estalo a Leonardo DiCaprio, apanhando-o de surpresa, para exprimir o desespero da sua personagem. Scorcese saltou de alegria. Tinha encontrado a sua atriz, uma mulher com carácter. Segundo momento: uma cena muito ousada com DiCaprio que faz lembrar ‘a’ cena de Instinto Fatal. A máquina começou a rolar, Hollywood tinha encontrado a sua nova Sharon Stone. Mas, contra todas as expectativas, Margot Robbie partiu para Inglaterra.

A líder do grupo

Num set de filmagem, entre duas cenas, nunca encontraremos a atriz fechada na sua caravana. Margot detesta a solidão e prefere todo o tempo com a equipa. Na rodagem de Suite Française, de Saul Dibb, fez a sua magia com os assistentes. Assim que o filme foi apresentado em antestreia em Londres, a pequena equipa do filme reagrupou-se e decidiu experimentar viver em conjunto. Alugaram uma grande casa no bairro de Clapham – eleito como morada por Vivienne Westwood, Jason Statham e pela irresistível Joanna Lumley. Uma experiência sobre o espírito de comunidade que acabou com… um casamento. A 18 de dezembro de 2016, Margot Robbie casou-se com Tom Ackerley, um realizador assistente. Um casamento realizado com a maior discrição, claro. Mas nem isso levou Robbie a querer separar-se do grupo dos sete amigos de casa.

Foi neste contexto que a atriz criou a empresa de produção LuckyChap Entertainment. «Quando me davam guiões, muitas vezes achava as personagens masculinas mais interessantes do que as personagens femininas. Tive vonta de mudar isso». Assim, produziu I, Tonya, um filme que lhe trouxe a nomeação para o Óscar de Melhor Atriz. «Os projetos cresceram e tornaram-se muito importantes. Por isso, tivemos de regressar a Los Angeles». E projetos não lhe faltam. Em breve, encontrá-la-emos em Suicide Squad 2; em Marion, uma versão feminina do clássico Robin dos Bosques; e, last but no least, em Barbie, uma coprodução com a Warner e a Mattel.

A consciência do presente

Robbie faz parte do movimento #MeToo. Algumas semanas depois da prisão de Harvey Wenstein, pediram-lhe para se pronunciar a favor das mulheres na indústria do cinema. Para escrever o seu discurso, pesquisou e conversou com atrizes, mas também com mulheres atrás das câmaras, maquilhadoras… «O assédio chega a todas. Achei que era importante falar com mulheres que exercem profissões cujos nomes nunca são escritos com letras grandes nos cartazes».

A atriz é uma verdadeira mulher do seu tempo, assume a sua consciência política. Para si, o direito de voto é sagrado. «Na Austrália, somos obrigados a votar. Senão, recebemos uma multa. Acho esta lei incrível». Também nos seduz pela sua consciência ecológica: «Cresci com a água que tínhamos nos reservatórios. Sei qual é o valor de cada gota. As noções de separação de lixo e de luta contra o desperdício de energia fazem parte do meu ADN. Não uso sacos de plástico há muito tempo. Na Austrália, todos estes gestos são dados adquiridos. Quanto a conduzir um carro elétrico, nem se coloca a questão. Desde que vivo em Los Angeles que o faço».

O jogo da moda

O cinema é a sua grande paixão, mas Margot Robbie reconhece ter um profundo respeito pelo mundo da moda. Os olhos do novo rosto da Chanel ainda brilham quando pensa na visita aos arquivos da Maison, em Paris, na companhia de Karl Lagerfeld, que morreu recentemente. «Coco Chanel soube traduzir o espírito do seu tempo, a emancipação das mulheres. Karl Lagerfeld foi um fiel guardião desse espírito. Tive a sorte de assistir, em dezembro, ao último desfile da Chanel Métiers d’Art Paris-New York no Metropolitan Museum of Arts em Nova Iorque. Senti-me quase como a Alice no País das Maravilhas».

Quanto à passadeira vermelha, Margot Robbie reconhece que esta faz parte da profissão de atriz. «Foi preciso tempo mas, hoje em dia, gosto mesmo. É divertido pensar na nossa roupa, da mesma maneira que pensamos em criar uma personagem para um filme. Para além disso, há um contacto especial com cabeleireiros, maquilhadores, todo esse tipo de pessoas que estão na sombra e que nos fazem, a nós atrizes, brilhar. Nunca deixo de lhes agradecer». Aqui concedemos-lhe um novo título: Margot Robbie, a nova rainha do nosso coração.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de abril de 2019.