Júlia Palha: «Não Havendo Respeito Pelas Mulheres, Há Machismo Na Mesma»

Conversámos com a (novamente) embaixadora da linha Vera da Intimissimi sobre ser mulher e tempos excecionais. Por: Inês Aparício Imagens: © Mário Príncipe.

É por entre os versos escritos e narrados por Júlia Palha que viajamos pela nova campanha da linha Vera, da Intimissimi. Neste ano atípico, a atriz regressa ao seu papel de embaixadora da gama que alia o conforto e sensualidade e, por isso aproveitámos a deixa para conversar com um dos rostos da marca de lingerie.

Já és um dos rostos da Intimissimi há mais de um ano. Como tem sido o percurso com a marca?

Tem sido ótimo, eu adoro a marca. Mesmo. É uma marca que, para mim, é a melhor marca de lingerie que há. Consegue conjugar elegância com o ser sexy. No fundo, um bocadinho de tudo. E, agora, com esta nova linha, principalmente, consegue conjugar o conforto. Portanto, podemos ter coisas confortáveis e ser elegante e sexy ao mesmo tempo.

Quanto à minha relação com a marca, eu já trabalhava como influencer da Intimissimi há cerca de uns quatro anos e, no ano passado, recebi o convite para fazer também a linha Vera. Saber que gostaram de mim ao ponto de quererem fazer novamente a campanha comigo é um orgulho enorme.

Identificas-te com essa linha da Intimissimi?

Identifico-me muito e fiquei muito contente porque, por exemplo, no vídeo da campanha, pude recitar uma coisa que fui eu que escrevi. Um poema que é meu e acho que isso dá um toque muito meu e dá a verdade de eu, de facto, me identificar com esta campanha, porque é mesmo isso que quero transmitir, que podemos estar confortáveis e sentirmo-nos sexy ao mesmo tempo e, ainda, saber que não é preciso estar tudo bem. Que nós temos todas corpos diferentes, que somos todas diferentes e que temos de nos aceitar como somos.

Pensas que a marca tem feito um bom trabalho na aposta em modelos mais confortáveis e peças para todas as mulheres?

Sim, acho que não é qualquer marca, principalmente de lingerie, que faz uma aposta destas. Porque, como sabemos, existem muitas marcas de lingerie com nome [no mercado] e que puxam mais para ‘sexyness’ e para ser elegantes e acho que a Intimissimi é a primeira a fazer uma linha propositada para corpos com peitos maiores,…

Neste caso, por exemplo, este ano, a linha Vera acrescentou uns calções que fazem quase de cinta, que vem até cima, umas cuecas mais subidas e, portanto, para além do problema do peito, também já vem acrescentar isso para ajudar as pessoas a sentirem-se mais confortáveis. Porque há dias em que estamos com mais barriga, há dias em que queremos usar um vestido mais justo e são pequenas peças que [provam que] não tens de mudar o teu corpo, o teu corpo não tem de ficar diferente, mas podes encontrar maneiras de te sentir mais confortável. E a Intimissimi vai-nos trazer isso, vai aliar o conforto à elegância.

Sentes que a relação entre a mulher e o soutien mudou com a pandemia, em especial com a quarentena, por ficarmos mais por casa?

É possível. Nunca me tinham feito essa pergunta, por isso nunca tinha pensado sobre isso. Mas faz sentido. Ficámos todas mais por casa. E é que não foi só o ficar por casa. Não havia nada. Houve alturas em que não se podia mesmo sair. É aprenderes a estar noutro conforto, é o estares mais confortável contigo mesma, e é possível, sim, que a relação da mulher tenha mudado com o soutien. Se calhar é forte falar-se numa relação [entre mulher e soutien], mas acho que quanto mais nos sentirmos confiantes com o nosso corpo, melhor, e se houver um modelo que ajude nisto, melhor.

E acreditas que esta linha, por ser mais confortável, vai ao encontro dessa questão?

Sim, definitivamente. Porque, muitas vezes perguntam-me: mas preferes o conforto ou a elegância. ‘Ah, mas eu gosto é de estar confortável’. E a Intimissimi vem-te trazer isto. Vem-te trazer a possibilidade de poderes estar super confortável e estares bem, estares elegante, sentires-te sexy, sentires-te confiante.

Enquanto preparava esta entrevista, reparei que grande parte dos artigos que existem sobre ti focam-se no teu corpo e não no teu trabalho. Como consegues lidar com a atenção dos órgãos de comunicação social e os comentários nas redes sociais?

A verdade é que o que acontece com as revistas, agora com o conceito do online, é que têm de fazer artigos diariamente. E como é que elas, às vezes, preenchem esse espaço? É a ‘sensacionalizar’ tudo. Eu dei por mim a pôr fotografias de roupa, vestida dos pés à cabeça, e ter títulos como «Júlia Palha e as suas curvas», que normalmente era um título que esperas quando pões uma fotografia em biquini ou quando pões uma fotografia desta campanha, por exemplo, em soutien e cuecas. Não é um título que esperas que saia quando pões uma fotografia de roupa. «Júlia Palha e as suas curvas voltam a causar fogo». E, portanto, muita da culpa disso é do sensacionalismo e do ter de se fazer notícia de tudo e por isso agarrar-se às fotografias do Instagram para o conseguir.

É uma questão, é verdade. É difícil às vezes ser vista por um lado do meu corpo e não do meu trabalho, mas esse estigma vai acabar por morrer, até porque o número de projetos que já fiz, para a minha idade [Júlia Palha tem 21 anos], são imensos. Estou a trabalhar imenso. Acabou de estrear um filme [o Ordem Moral] e já estou a filmar mais dois. Em qualquer entrevista, qualquer pessoa que me conheça, acho que consegue perceber que sou muito mais do que um corpo e do que «umas curvas que voltaram a causar furor». Portanto, é um estigma que sabia que ia acontecer se quisesse optar por um lado quase de sex symbol, que optei ao escolher trabalhar com uma marca como a Intimissimi e sei que é um processo que vai acabar, porque as pessoas falam, falam, e, a certa altura, cansam-se. Portanto, vai deixar de ser falado.

Mas sentes que, por seres mulher, és mais criticada?

Definitivamente.

 

 

«Precisamos de, sem perdermos o respeito por nós próprias e sem sentirmos que nos estamos a humilhar ou que podemos perder o controlo, fazer tudo o que nos apetecer. Porque temos esse direito, tal como os homens sempre tiveram»

 

 

Pensas, então, que são necessárias mais ‘Saras‘ [a modelo que denunciou ou caso de assédio sexual pelo funcionário da CP].

Sim. Hoje em dia já nem acho que seja tanto – e não estou, de maneira nenhuma, a dizer que esses casos não existem, porque existem -, mas acho que já não é tanto o assédio. Quanto a isso, acho que há cada vez mais cuidado, por causa das denúncias que já houve. Acho que é mais a sexualização, em geral, da mulher, e o machismo, que ainda há muito. «Ah, mas já se fala nos direitos das mulheres em tudo: a mulher já vota, a mulher já faz isto, a mulher já faz aquilo». Mas depois não existe respeito. Não havendo respeito pelas mulheres, há machismo na mesma. E, um homem pôr uma fotografia em tronco nu ser normal e uma mulher pôr uma fotografia em biquini na praia não ser prova que o machismo ainda existe.

O que é preciso ainda fazer para contornar isso?

Precisamos de, sem perdermos o respeito por nós próprias e sem sentirmos que nos estamos a humilhar ou que podemos perder o controlo, fazer tudo o que nos apetecer. Porque temos esse direito, tal como os homens sempre tiveram e como estamos a começar a ter, felizmente. E há cada vez mais vozes e pessoas a falar para isso. Por isso, é não ter medo. Não ter medo do que as pessoas vão dizer, acima de tudo. Sempre com a noção de que tens de fazer tudo e saber que foste dormir descansada, sem vergonha do que fizeste.

Disseste que estás a gravar dois filmes. Significa isso que já voltaste ao estúdio, em plena pandemia?

É verdade. Por acaso, como estou a fazer em cinema, não fiz nada em estúdio mesmo, tem sido em ambientes mais abertos. É diferente quando é em estúdio, porque mete muita gente, é um armazém fechado, é diferente.

Essa escolha foi propositada, devido à covid-19, ou é por uma questão editorial?

Acho que até agora, pelo que tenho visto, porque eram guiões que já tinha há algum tempo, só calhou ser em cenários mais abertos. Mas é sempre, em cinema escolhem sempre. Quando é uma casa é mesmo uma casa, nunca é um estúdio, que é uma coisa muito mais pequena do que o que parece na televisão.

Mas como tem sido o regresso? Não conseguem fazer distanciamento, por exemplo.

Tem corrido bem. Mas, pois, não. As equipas estão todas de máscara, os atores também estão de máscara e só tiram para gravar. Eu tive de fazer testes para a covid-19 antes de filmar. Nas novelas, como é uma coisa mais longa – pelo que sei de colegas, porque agora não estou em nenhum projeto -, têm de fazer teste de 15 em 15 dias e as pessoas adaptam-se às regras que existem agora.

 

As novas peças da linha Vera já estão disponíveis nas lojas físicas e online da Intimissimi.