Jorja Smith: «Tens de perceber que tens defeitos e que isso não faz mal»

Com a sua voz hipnotizante, a pose estudada e um sorriso cheio de alegria, Jorja Smith está em plena ascensão. Por: Adwoa Aboah - Imagens: Daniel Clavero

 Só este ano, ganhou um Brit Award, marca presença nos melhores festivais de música – incluindo o Nos Alive – e foi recentemente anunciada como a nova embaixadora de maquilhagem da Dior. Aqui, partilha com a amiga e manequim Adwoa Aboah a banda sonora da sua vida.

É Dia Internacional da Mulher e Jorja Smith está num palco em Hackney, no este de Londres, a dar um concerto intimista. Na plateia, algumas centenas de mulheres cantam o seu single de sucesso, Teenage Fantasy. Trata‐se de uma colaboração da Gurls Talk (uma comunidade online para jovens mulheres) com o Boiler Room (uma plataforma musical e cultural independente do Reino Unido), para celebrar as jovens mulheres de todo o mundo com uma festa organizada pela supermodelo, ativista e grande amiga de Jorja, Adwoa Aboah. Nesta sala, a energia é contagiante e Jorja passa a noite toda a sorrir de orelha a orelha (ou de argola dourada a argola dourada, para sermos mais exatos).

A incrível miss Smith tem muitas razões para sorrir, é claro. Nos últimos quatro anos, assistimos a uma ascensão fulgurante desta cantora de 22 anos. Filha de Peter, gestor de recursos humanos, e de Jolene, designer de joias, Jorja cresceu em Walsall, nas Midlands Ocidentais. Com apenas 18 anos, mudou‐se para casa dos seus tios em Londres e foi trabalhar para uma loja da cadeia Starbucks («Era uma incompetente total a servir cafés», confessa). Até que, em janeiro de 2016 – sem ter o apoio de uma editora – lançou o seu primeiro single, Blue Lights. O single foi lançado na plataforma SoundCloud e em apenas um mês foi ouvido mais de 400 000 vezes. Jorja Smith tornou‐se viral.

Nos anos que se seguiram, trabalhou com Drake, Kendrick Lamar e Stormzy. O seu álbum de estreia, Lost & Found, fez com que tivesse nomeações tanto para os Grammys como para os prémios Mercury. Em fevereiro, trouxe para casa o Brit Award de Melhor Artista Feminina a Solo (tem o troféu exposto na sua sala de estar). Este verão, vai ser cabeça de cartaz do festival Field Day e faz parte do alinhamento do mítico Glastonbury. Além de tudo isto, foi recentemente anunciada como a nova embaixadora de maquilhagem da Dior, sucedendo a Bella Hadid e a Natalie Portman. É justo dizermos que Jorja teve uma ascensão meteórica.

Uma semana depois do concerto no Boiler Room, em Londres, Jorja sentou‐se com a amiga Adwoa Aboah – no sofá de veludo cor‐de‐rosa do seu apartamento, no bairro W10 – para partilhar a banda sonora da sua vida. O que se segue é uma conversa que inclui confidências, choro e a razão por que ter mais cuidado consigo própria faz parte da lista de prioridades da cantora.

Adwoa Aboah: Quando lançaste Teenage Fantasy, lembro­ me de pensar que esta canção era o epítome do amor jovem. Identifiquei-­me tanto com esta música! Ainda hoje é uma das minhas canções favoritas. Como é que foi quando te mudaste para Londres, com 18 anos? Tinhas um plano para quando chegasses cá? Como é que te movimentaste na cidade e zeste amigos?

Jorja Smith: Não pensei muito nisso, fui fazendo… Vou sempre andando para a frente com as coisas. Faço imensas perguntas, mas não faço perguntas a mim própria – vou avançando. Adoro estar em Londres. Gosto de ser independente, por isso costumava explorar a cidade sozinha. Ficava entusiasmada por andar de metro. Londres é muito diferente do lugar de onde venho. Lembro‐me de ter ficado boquiaberta quando fui a Oxford Street e vi aquela parte da rua onde foi rodado o filme Boyhood – Momentos de uma Vida.

Quando escreves canções, o que é que fazes primeiro: a letra ou a melodia?

Nunca escrevo a letra antes. Vou simplesmente cantando, e depois escrevo de acordo com a melodia. No início, nunca faz muito sentido, até repito algumas frases ou palavras. Gravo sempre tudo no meu telemóvel e depois vou voltando a elas.

Qual foi a primeira música que lançaste?

A primeira música que lancei online foi a Blue Lights. Parece que já passou uma eternidade. Escrevi‐a quando ainda estava em Walsall. Lancei‐a porque, de alguma maneira, me fazia lembrar‐me de casa. Podemos dizer que foi, de certa forma, uma loucura, mas nunca tinha lançado uma música antes, por isso não sabia o que era normal e o que não era. Correu muito bem, então lancei outra música, e depois outra, fui lançando músicas e videoclips… E agora estamos aqui.A.A.: Ainda escreves sobre aquilo por que estás a passar? J.S.: Sim, sempre. Há pouco tempo, escrevi: “Admiro‐te constantemente por aquilo que me ensinas.” Eu consigo ficar muito zangada mesmo e o meu namorado [o produtor Joel Compass] é ótimo porque ele sabe bem como manter a calma. Por isso, disse‐lhe: “Ensina‐me.” Quero parar de ficar tão irritada, porque chego a gritar e a berrar. Preciso mesmo de me acalmar, mas é tão difícil.

Quando cantas, muitas vezes fazes­-me lembrar o documentário sobre a Amy winehouse, Amy. Ela cantava músicas que estavam intrinsecamente ligadas a momentos da sua vida, mas depois teve de continuar a cantá­las constantemente. Era como se estivesse a ser transportada de novo para essas situações. Tens algumas fronteiras, para não estares a reviver o passado em palco a toda a hora?

Vi o documentário Amy cerca de quatro vezes… E compreendo. Às vezes, não queres cantar sobre as coisas más de que falam as tuas canções. Mas também aprendi que sou boa a fingir que está tudo bem. A digressão do ano passado, por exemplo, foi demais para mim. Não era uma questão de não querer cantar, mas aconteceu tanta coisa num curto espaço de tempo, e tinha mesmo muito trabalho. Saía do palco e chorava entre os encores. Sentia‐me muito em baixo, mas depois tinha de voltar ao palco, sorrir e fingir que estava a viver um ótimo momento. Os meus fãs não estão necessariamente à espera que eu esteja feliz, mas como vinham ver‐me, sentia que precisava de lhes dar um concerto memorável.

Acho isso tão difícil! A tua vida vai mudando e tu pensas «isto é incrível», mas na verdade podes sentir-­te esmagada. Talvez na realidade não queiras ser o centro das atenções a toda a hora. Tudo parece tão maravilhoso, e é – é mesmo espetacular. Estás agradecida, mas também se torna muito difícil, e há dias em que acordas e preferias mil vezes car simplesmente em casa, no sofá, a ver televisão.

Foi uma grande curva de aprendizagem. Eu não sou um robot. O último ano foi muito intenso: os jornalistas sempre a fazerem as mesmas perguntas, as pessoas a dizerem‐me “tu és fantástica!”. E eu só queria um pouco de normalidade. Por isso, é que sinto que sou uma sortuda com a minha família e os meus amigos.

Quão importante é, para ti, teres pessoas estáveis à tua volta?

Precisas de ter pessoas honestas à tua volta, pessoas reais que têm os seus próprios problemas e querem falar contigo sobre si próprias e não sobre o que é que tu andas a fazer a toda a hora. Uma das coisas que me entristecem muito, nos períodos de muito trabalho, é não conseguir estar com os meus amigos e a minha família. No ano passado, não tive tempo nenhum. Assim que tinha uma semana livre, tentava adaptar‐me para estar com os meus amigos todos, mas acabava por cancelar por andar tão cansada. E sentia‐me pessimamente por cancelar. Tenho a sorte de eles serem todos muito compreensivos.

Para ti, o que é que significa ser a nova embaixadora de maquilhagem da dior? Sei que já falámos sobre o que significa crescer como mestiça – e como isso traz um sentido de responsa­ bilidade. o que esperas que as pessoas pensem ao ver­te como rosto de uma marca tão importante como a Dior?

Bem, é um novo rosto, mas também é um rosto natural. Quer dizer, eu uso maquilhagem, mas nunca faço nada à minha cara. Sempre fui assim. As jovens mixed race podem olhar para mim e dizer: «Ah, sou parecida com ela!»

Admiravas alguém dessa forma enquanto estavas a crescer?

Sarah‐Jane Crawford. Trabalhava na BBC Radio 1Xtra e é mixed race. Tem uns lábios lindos e usava batons de cores fortes.

Para ti, o que é que significa ser bonita em 2019?

Significa estares confortável na tua própria pele e saberes que o que te faz perfeita são as tuas imperfeições. Tens de perceber que tens defeitos e que isso não faz mal. Eles tornam‐te a pessoa que és.

Gostas de experimentar novos looks de beleza? Eu sinto­-me mais confortável quando me pareço comigo própria. Estou sempre a dizer aos maquilhadores: «Faz­-me parecer que estou de férias, mas um pouco transpirada porque vim de uma corrida…»

Adoro base! E adoro que a Dior também tenha cuidados de rosto nos seus produtos. Normalmente, só uso uma boa base e ponho um pouco de iluminador e bronzeador. Às vezes, uso blush e maquilho as sobrancelhas e os olhos. Gosto de me parecer comigo própria. Gosto de um efeito iluminado, quase um wet look, de brilhar e de parecer que estou fresca.

Algo que admiro imenso em ti é que podes usar um minivestido, sem ser com saltos altos. Ainda no outro dia fizeste isso no boiler room. Em vez de saltos altos, tinhas uns ténis. Há imensas raparigas que dizem: «Ah, não posso fazer isso, não me sinto confortável assim vestida.» Vais­-te sentin­do mais confortável à medida que vais ficando mais velha?

Sim, sem dúvida. Quando me mudei de Walsall para Londres, lembro‐me de que, uma vez, disse ao meu ma‐ nager que não usava saias nem calções curtos. As sessões fotográficas têm ajudado, porque eu faço muitas sessões com roupa de tamanho para modelos (muito pequeno), e esse não é o meu tamanho. Ter de lidar com roupa que não me serve ensinou‐me muitas coisas. Se tivesse 15 anos, teria ficado tão irritada! Mas deves usar aquilo com que te sentes confortável.

Já estive muitas vezes numa sessão fotográfica em que me perguntaram: «Será que consegues entrar nisto?» Sentes pressão para conseguir, por isso apertas­te e tentas vestir a peça. Nunca faria isso numa loja nem em casa! Se não serve, paciência. E lês os comentários maus que fazem sobre ti? Adoro quando as pessoas comentam que não gostam do meu look, fico mesmo feliz porque sinto que não estou a integrar­-me. Quer dizer que alcancei o meu objetivo.

Na verdade, não leio os comentários. Uma das coisas que costumavam acontecer era que, como eu não tenho uma barriga lisa, se usasse collants, notava‐se um pouco. As pessoas comentavam: «Ela parece grávida.» As pessoas pensam que, só porque tenho muitos seguidores, não vejo as coisas online. Treino intensamente no ginásio para depois alguém dizer: «Pareces grávida.» Por isso, não os leio. Quando conheci o Stormzy, ele disse‐me: «Se tu gostas, isso é o que interessa.»

Há alguém na esfera pública, neste momento, que admires?

Adoro o teu estilo. E adoro a Rihanna. E tu?

Gosto muito do estilo de alguns rapazes, gosto muito de como os homens se vestem. E também adoro a Rihanna. De vez em quando, tenho vontade de me vestir como ela, mas sou muito preguiçosa e acabo por vestir antes um fato de treino. Quais são os teus objetivos para este ano?

Este ano vai ser muito divertido. Tenho‐me sentido muito mais feliz comigo própria e com a minha energia. Vou dar concertos em alguns festivais de música na América Latina, mas também vou ter algum tempo livre, por isso vou aproveitar para explorar. Este ano quero ler muito mais. Só li um livro em 2018 e comecei a ler cerca de quatro. Como no ano passado estive muito ocupada, perdi um pouco a minha criatividade. Por isso, também quero voltar a ver bons filmes, para ter novas referências para as minhas músicas e para os meus videoclips. Gosto mesmo muito da nova música que lancei. Provavelmente, porque fala daquilo pelo qual estou a passar agora, como ser mais aberta. Estou a aprender mais sobre mim própria. Tenho tendência para pensar demasiado nas coisas e tenho lutas constantes com a minha própria mente. É bom poder escrever sobre isso.

Luto diariamente com as críticas na minha cabeça. Mas na verdade é ótimo, porque isso desafia­-me. E, às vezes, quando já fiz o melhor que podia, digo: «Calem­-se e deixem-­me viver!»

Consigo ser muito dura comigo própria, tal como tu. Sem isso, não seria quem sou. Todas as manhãs, forço‐me a tirar uma fotogra a, a fazer um vídeo ou a gravar algo. Mas se zer asneira num concerto, então o concerto inteiro está estragado e culpo‐me a mim própria. Costumava chorar muito, quando todas as portas estavam fechadas ou quando fazia algo mal. Ficava mesmo muito zangada. Agora estou focada em encontrar um equilíbrio entre ser demasiado dura comigo própria e saber quando é que é suficiente. E em olhar para aquilo que já fiz e sentir‐me orgulhosa.

 

Styling: Joanna Schlenzka; Cabelo: Zateesha Barbour; Costureira: Solveig Ferlet; Adereços: Sarah Gobourne;

Maquilhagem: Carol Lope Reid com produtos Dior; Unhas: Isabelle Bellamy com produtos Dior.

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de junho de 2019.