Gisele Bündchen:«Crescer numa família numerosa ensina-te a trabalhar em equipa»

Gisele fala sobre o seu compromisso com a natureza e com a família. Por: Susana Blásquez -- Fotografias: Nino Muñoz

Ao longo dos anos, foram escritas palavras infinitas sobre Gisele Bündchen. Agora, chegou a vez de a supermodelo se apresentar ao mundo, em discurso direto, com o seu livro Lições – O Meu Caminho para uma Vida com Sentido.

Existem muitos tipos de modelos na indústria da moda e depois existe Gise (como os seus familiares e amigos carinhosamente a tratam), numa “liga” só sua. Difícil de catalogar – e, principalmente, de estereotipar –, já se escreveram rios de tinta sobre Gisele Caroline Bündchen (Horizontina, Brasil, 1980). Sem embargos, a sua vida continua a fascinar-nos porque, além de ir acumulando títulos e recordes a nível profissional (a mulher mais bonita do mundo, a supermodelo número 1 do planeta, a que protagonizou mais capas de revistas de moda internacionais, a modelo mais bem remunerada…), esta brasileira rompeu todas as normas e os ideais estabelecidos, graças à sua integridade, à sua generosidade e a uma forma de entender a vida que a torna única.

Um exemplo perfeito disto tudo? Não hesitou nem um segundo em arranjar algum tempo na sua agenda apertadíssima para conversar connosco quando lhe dissemos que gostaríamos de falar sobre o seu novo livro, Lições – O Meu Caminho para uma Vida com Sentido (ed. Lua de Papel) e o seu compromisso com o planeta Terra, o qual adquiriu estatuto prioritário na sua vida e no qual gasta muito tempo, energia e recursos a um nível diário.

gisele bundchen

ELLE: Como é que a Gisele Bündchen cuida do planeta?

Gisele Bundchen: Em 2004, quando regressava de uma viagem à Amazónia, fiquei muito impressionada com o impacto negativo que a desflorestação e os resíduos tóxicos estavam a ter nas vidas das comunidades indígenas. A partir daí, comecei a aprender mais sobre o tema e a utilizar a minha influência e os meus recursos para que se falasse de diferentes causas sociais e ambientais. Sem um planeta saudável, a Humanidade não consegue sobreviver. Porque a Natureza e a Humanidade estão interligadas. Se estivermos a falar do futuro, considero ser crucial a tomada de decisões conscientes para começarmos a reverter os danos que já infligimos ao nosso planeta. E para que, assim, possamos não só desfrutar das maravilhas que a Natureza nos proporciona, mas também as gerações futuras possam continuar a prosperar.

ELLE: O acesso à água, um recurso básico e muito necessário, foi algo que sempre a preocupou. Conte-nos um pouco mais sobre o seu projeto Água Limpa.

G.B.: O projeto Água Limpa (projetoagualimpa.org.br) nasceu pelo desejo de deixar uma marca positiva na região onde nasci. A minha família e eu não só o criámos como também o financiámos. Durante cinco anos, plantámos mais de 40 mil árvores nas margens dos rios e cuidámos delas durante o seu crescimento. Estou contente por ter conseguido proporcionar um impacto positivo e por ter aprendido tanto durante este processo. Isso inspirou-me a continuar a fazer ainda mais.

«Crescer numa família numerosa ensina-te a trabalhar em equipa e a criar vínculos muito fortes entre todos. Isto é transferido para as minhas amizades e relações familiares.»

ELLE: Tem um foco muito grande na proteção das florestas, na Natureza e nos animais e na importância de cuidar do meio ambiente para poder desfrutar de um mundo melhor. Como é que educa os seus filhos neste sentido?

G.B.: Acredito que o melhor exemplo é aquele que praticas. A importância de tomar as decisões corretas de forma a salvaguardar o planeta Terra é algo de que falamos frequentemente em casa. Como mãe, sempre quis que os meus filhos pudessem experimentar a mesma felicidade e o sentimento de conexão com a Natureza que eu tive na minha infância. É fundamental que as crianças aprendam a respeitá-la, a cuidá-la e a honrá-la. É ela que mantém toda a forma de vida.

ELLE: Lançou agora um novo livro, Lições – O Meu Caminho para uma Vida com Sentido. Fale-nos um pouco sobre ele.

G.B.: Este livro é uma carta aberta sobre as minhas experiências de vida, os desafios que enfrentei e as lições que aprendi e que me ajudaram a viver a vida com mais sentido. E tudo com a esperança de que sejam úteis a quem puder estar a viver experiências similares. O livro esteve mais de 30 semanas como best-seller no Brasil [e já é um best-seller pelo The New York Times]. Fico muito contente por receber este tipo de feedback positivo e ver como algo que idealizei ajudou e serviu de inspiração a tanta gente.

ELLE: O que é que a levou a escrever um livro em que expõe as suas memórias e experiências?

G.B: Alguns amigos me perguntaram se podia escrever notas motivacionais,inspiracionais e que transmitissem força a amigos que estavam a passar por momentos menos bons. Ao partilhar como superei certos desafios pessoais, ficava muito contente por saber que tinha ajudado e inspirado outras pessoas. Enquanto fazia a minha meditação matinal, comecei a perceber que talvez fosse interessante partilhar as minhas experiências – quase como se de uma carta aberta se tratasse – com mais gente e, desta forma, ajudar um número maior de pessoas.

ELLE: Se tivesse de selecionar uma só lição para partilhar com os seus fãs, qual seria?

G.B.: Sempre vivi a minha vida muito focada em manter relações de qualidade, principalmente com a minha família. As minhas
origens baseiam-se em amor e confiança. Crescer numa família numerosa ensina-te a trabalhar em equipa e a criar vínculos muito fortes entre todos. Isto é transferido para as minhas amizades e relações familiares. Acredito que quando nos amamos, quando amamos os outros e o mundo que nos rodeia, vivemos uma vida plena. O amor é a chave.

ELLE: Com este livro, está não só a ajudar outras pessoas com a sua experiência, mas também vai doar todos os lucros para financiar projetos de solidariedade através da Luz Foundation. Conte-nos um pouco mais sobre esta iniciativa.

G.B: A minha única intenção é a de partilhar tudo o que aprendi e que me ajudou, com a esperança de que ajude outras pessoas, e doar os lucros do livro para nanciar projetos sociais e ambientais em que acredito.

ELLE: A sua presença nas redes sociais revela um sentimento de gratidão em relação às coisas boas que lhe acontecem. Quão importante é sermos agradecidos e conscientes da sorte que temos?

G.B: A primeira coisa que faço todas as manhãs, mesmo antes de me levantar da cama, é inspirar profundamente e dar graças por todas as coisas presentes na minha vida. Ser agradecida é o que me faz feliz. É o alcançar um estado de gratidão em que te sentes melhor porque aprecias cada coisa, por mais pequena que seja.

gisele bundchen

ELLE: As mulheres estão muito presentes na sua família. Como foi crescer com cinco irmãs? Como é a vossa relação?

G.B.: Sinto-me profundamente afortunada por ter crescido numa família com seis mulheres maravilhosas, como são a minha mãe e as minhas cinco irmãs. Somos todas muito diferentes e, como diz o nosso pai, sabemos complementar-nos e ajudar-nos. Juntas somos incríveis, não há nada no mundo que não fizesse por elas e vice-versa.

ELLE: Não é engraçado que no início da sua carreira lhe dissessem que nunca seria capa de revista porque os seus olhos eram «demasiado pequenos e o nariz, demasiado grande»?

G.B.: A adolescência costuma ser um período de questionamentos. É um momento de autodescoberta. As críticas que recebi pelo meu aspeto físico fizeram-me assumir-me como pessoa e tornaram-me mais forte porque, em vez de me fixar nas coisas que não podia mudar, fiz tudo o que estava ao meu alcance para ser uma supermodelo. Aprendi os segredos da iluminação e dos ângulos da câmara, como vestir a roupa… Quando penso nisso, acho que as críticas foram uma bênção, porque me motivaram a procurar outras qualidades dentro de mim e fizeram com que não tomasse nada como garantido.

ELLE: A sua chegada ao mundo da moda aconteceu em simultâneo com o conceito de beleza sexy, que veio substituir o de modelos extremamente magras. Que recordações tem dos seus primeiros passos nesta profissão?

G.B.: Recordo-me de sentir que não me encaixava, que era muito maria-rapaz, magra mas musculada e com a pele bronzeada. Nas provas, a roupa não estava feita para mulheres com a minha estrutura corporal.

ELLE: No livro revela que, um dia, decidiu mudar os seus hábitos e o seu estilo de vida. Como é que se cuida?

G.B.: Acredito que o segredo está em manter um equilíbrio. Por isso, prefiro alimentos ricos em nutrientes que deem ao meu corpo energia e vitalidade. Geralmente, mantenho uma dieta à base de vegetais; gosto muito de comer fruta e legumes da minha horta, mas não sou muito rigorosa. Há dias em que como uma boa pizza. O truque está na moderação.

ELLE: O que pode revelar sobre a sua rotina de exercício físico? Vai ao ginásio, faz ioga, meditação, aulas de dança…

G.B.: Sou muito ativa e gosto muito de desporto. Duas vezes por semana faço o TB12 [o método desenvolvido por Tom Brady, marido de Gisele], que inclui exercícios de resistência com bandas e exercícios de flexibilidade. Também gosto de equitação, de dançar, esquiar, nadar, fazer surf, caminhar pelo campo e outras atividades. Depende da época do ano e da parte do mundo onde estou.

ELLE: O que faz quando precisa de parar e desconectar? Qual é a sua receita contra o stress?

G.B.: A Natureza é o meu templo e representa um lugar do coração. Andar descalça e sentir a terra por baixo dos meus pés, sentar-me debaixo de uma árvore a meditar e a ouvir o som dos pássaros ou simplesmente passar o tempo ao ar livre: todas estas alternativas são absolutamente mágicas.

Realização: Inmaculada Jiménez. Assistente de styling: Martha Revelo. Maquilhagem: Virginia Young/Statement Artists. Cabelo: David von Cannon/Starworks Artists. Manicure: Kim Truong/Star Touch Agency. Agradecimentos: Vendetta e booking.com

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE  de agosto de 2019.