Ester Expósito: «Temos que Ter Tolerância Zero a Todo o Tipo de Machismo»

A jovem atriz que já se tornou um sucesso em todo o mundo conversou com a ELLE sobre o seu percurso. Por: ELLE Portugal Imagens: Rafa Gallar / Styling: Bárbara Garralda

Uma jovem linda que dança reggaeton e representa. Uma jovem linda de 20 anos que tira selfies e dança. Muito telemóvel. Muitas stories. E 25 milhões de seguidores. É isto que muitas pessoas pensam quando olham para ela. Mas, na vida, quase sempre, temos que ultrapassar os preconceitos e, no caso de Ester, isso ainda se sente mais. Depois de conversar com ela, é possível perceber que é muito inteligente, que tem um discurso claro e uma grande dose de talento. Tem as ideias muito claras e mantém os amigos de sempre. Depois de arrasar com o seu carisma na série Élite, entra também em Alguém Tem De Morrer, da Netflix (onde conheceu o seu atual namorado, Alejandro Speitzer), realizada por Manolo Caro. Em dezembro chegou às salas de cinema espanholas com a comédia Mamá ou Papá, com Paco León e Miren Ibarguren. O vídeo onde aparece a dançar, que publicou durante o confinamento, tem 81 milhões de visualizações. «Um exagero, um exagero», diz baixinho. É toda a população da Espanha a multiplicar. É um facto: o seu nome é um trending topic constante. Até pode achar que Ester Expósito é um produto das redes sociais, mas não é só isso. A atriz espanhola é responsável pelo seu próprio sucesso. Um viva à rainha da geração Z.

Manolo Caro (realizador da série La Casa de Las Flores, também da Netflix) acredita que o segredo do teu êxito é compreenderes muito bem o momento em que vives.

Deixando a Covid-19 de parte, este é um momento de mudança, com o grande impacto das redes sociais. Foi importante preparar-me e prevenir o boom que me avisaram ser possível acontecer com Élite. Entender que vou ter momentos altos e outros baixos; que não serei querida por todos em todos os momentos. Por vezes pode ser difícil, mas estou numa situação privilegiada, a realizar o meu sonho. É uma profissão muito difícil e estou ciente de que devo valorizar o que consegui. Não me posso deixar levar por um dia mau.

As críticas afetam-te?

Todos temos que criar uma carapaça para que elas não nos magoem. No início, não existiram assim tantas críticas porque eu era novidade. Mas depois de alguns anos há quem se canse de te ver em todo o lado. Eu percebi isso no meu vídeo de dança (aquele com 81 milhões de visualizações). Foi uma brincadeira, mas tornou-se viral…Quando vi que era um trending topic no Twitter, não gostei. Não gosto de estar no centro das atenções. Sou discreta. A verdade é que a esmagadora maioria das pessoas me acarinhou muito e seria injusto fixar-me nas três que me escreveram algo mau. Então, relativizo. Dificilmente me afetam.

Achas que a tua geração sabe utilizar as redes sociais melhor que as outras?

Aproveitamos mais, embora também sejamos muito dependentes, porque não conhecemos a vida sem internet. E estamos sob maior pressão, especialmente as mulheres. Se antes essa pressão já existia, agora é maior. É verdade que nos permitem ter voz e defender as nossas causas, mas pode ser um lugar perigoso para as mais jovens. Elas observam corpos que não são reais o dia todo, o que pode ter um impacto negativo nas sua própria imagem. Não estou todos os dias como nas fotos que publico. Não sou assim tão glamorosa. Mas tirar uma fotografia minha a acabar de sair da cama e publicá-la não funciona para mim. Não nos podemos esquecer que isto é uma montra, é entretenimento.

Que batalhas vocês, centennials, têm pendentes?

Precisamos de lutar por muitas coisas. Por exemplo, pelo feminismo. Não podemos dizer que as coisas não mudaram: há uns anos a mulher não podia votar e outras mil coisas. Avançámos, mas ainda temos muito por fazer. Claro que há a violência e os maus tratos, mas também estou a falar sobre o facto das mulheres serem postas em causa em absolutamente tudo. Temos que ter tolerância zero em relação a todo o tipo de machismo, ainda que micro. Até eu por vezes não me sinto à vontade para me expressar em determinados círculos. Estamos condicionadas, agimos de forma machista no nosso próprio meio, sem perceber. Muitas pessoas acham que é algo muito específico, como: “Este homem matou a namorada”. Mas o machismo é algo muito mais subtil e permeia a sociedade toda.

Identificas-te com a Cayetana, a tua personagem na série Alguém Tem De Morrer?

Não muito. Com a Carla (a personagem de Élite) tinha coisas em comum: ser muito racional, não ceder a impulsos, analisar constantemente tudo… Algumas pessoas não conseguem evitar estar continuamente a analisar tudo o que acontece. Às vezes é muito cansativo. Mas hey, é uma forma de ser. Mas sim, tinha coisas em comum com ela. Já a Cayetana não pensa nas consequências das suas ações. Só se concentra no que lhe apetece. Vai contra tudo e todos, até a morte, sem pestanejar e sem considerar se o que ela faz é certo ou errado. E nunca pensa nos outros. É verdade que o momento que a série retrata (1950) foi difícil, com uma sociedade muito machista, mas ela é uma menina mimada de boas famílias. Falta-lhe empatia. A sua família não lhe ensinou a pôr-se na pele das outras pessoas. Ela conhece um rapaz de quem gosta mais do que de Gabino (que é quem tinham pensado para ela) e não tem meias medidas. Atrevo-me a dizer que não há nada de mim nela. Mas não posso negar que foi bom interpretar um personagem tão distante da minha realidade.

Não tens medo de fazer o papel de má da fita? Ou a Cayetana é apenas imprudente?

Ser má é um conceito um pouco preto e branco. Ela é fruto de uma classe social com características políticas específicas e que naquela época não viam nada além dos seus próprios narizes. Acho que o que a Cayetana faz não é por burrice: ela sabe que vai estragar tudo, mas não liga. Ela sabe que é daquelas que ganham sempre, que pertence à classe social que nunca perde. Ela não mede as suas ações porque se sente apoiada.

E isso continua a acontecer?

Sim, existe uma classe social que não sei se tem as coisas mais facilitadas, mas que está numa posição privilegiada. Cada um tem o direito de se colocar no lugar que quiser ou de ficar onde a família o colocou, mas todos temos uma responsabilidade como seres humanos: não deixar as outras pessoas de lado. Não ser como Cayetana, que só pensa em si mesma; ela não se importa com o sofrimento dos outros nem com o que pode acontecer. Acredito que, onde quer que estejas, deves assumir as tuas responsabilidades e ajudar os outros o melhor que puderes. Não sei se é exatamente uma classe social, um círculo… Mas, quando se tem esses privilégios, tem-se a obrigação de ser responsável, de estar mais do lado de quem não os tem e de contribuir para não turvar os ânimos ou gerar mais ódio social do que o que já existe em Espanha, um ódio que sempre existiu.

Os jovens entendem isso?

Cada um vota e pensa o que quer, mas quando as coisas vão contra os Direitos Humanos, acho muito egoísta e irresponsável. Se moras num país onde há um sistema de saúde pública e educação, onde tens segurança e mais oportunidades, é impensável que não te responsabilizes ou tornes as coisas mais difíceis para quem não tem isso. Estou a pensar, por exemplo, nos refugiados. Ninguém entra num barco à deriva no mar, a menos que tenha que fugir do inferno. Há que regular estas coisas? Claro que sim, mas parece-se que esta é uma questão de humanidade. Quero acreditar que as novas gerações são mais empáticas, mas não sei.

A elite, enquanto herança, ainda existe?

Claro, e a discriminação, a desigualdade… Há muita gente que vive de forma confortável que prefere que nada mude porque quer manter os seus privilégios intactos. Mas gosto de pensar que as coisas vão mudar.

Sentes-te mais privilegiada agora?

Bem, sempre tive sorte. Não tive uma infância difícil. Amor não me faltou. Não passei por dificuldades. Não sinto que pertenço a uma elite, continuo a ser a mesma pessoa. Tenho sucesso? Sim, mas ainda considero que faço parte do mesmo grupo de pessoas, que não é definido pelo padrão de vida, mas sim pelas ações que se têm para com os outros e pelas causas que nos movem e que valorizamos. Por exemplo, acredito que não somos nada diferentes dos refugiados. Nascer aqui é apenas uma questão de sorte.

Como viveste o ano de 2020?

Foi um ano muito difícil. Preocupa-me muito a situação das famílias sem recursos, que não vão ter como se sustentar. E sinto um desamparo enorme porque não sei como vamos sair desta situação. Não me refiro apenas ao vírus, mas aos efeitos desta crise também. Para além disso, estamos todos cansados. Queremos voltar à nossa vida normal, mas não podemos. Também estou saturada, exausta… E eu sou muito sortuda por estar no momento em que estou a nível profissional e estou muito entusiasmada por já estarmos a voltar a filmar. Fico feliz pelas pessoas irem ao cinema e ao teatro, por não se esquecerem da cultura. Estou a escolher muito bem cada passo que dou. Quero pensar na minha carreira a longo prazo e acho que para isso é preciso avaliar bem tudo. Especialmente se tiveres a sorte de poder escolher.

Um dos teu projetos mais recentes, Mamá o Papá, é uma comédia. Estás confortável nesta área?

A verdade é que sim. É um filme de humor sobre um casal que se vai separar e nenhum dos dois quer a guarda dos filhos, apesar de os amarem muito: o pai teve uma oferta de trabalho fora do país e a mãe quer fazer voluntariado. O meu papel é pequeno, mas fiquei muito entusiasmada por trabalhar com o Dani (De la Orden, o realizador), com quem já trabalhei em Élite e a quem não consigo dizer não, e também com o Paco (León). É uma comédia engraçada, o que é bom para este momento.

Ernesto Alterio e Carmen Maura, dois dos teus colegas de elenco na série Alguém Tem de Morrer, dizem que és reservada. Concordas com isso?

Acho difícil abrir-me, mesmo com aqueles que me estão mais próximos. Esforço-me para ser gentil com quem acabo de conhecer, com toda a equipa e com os meus colegas. Tento sempro ser educada e bem-disposta. Mas não vou contar a minha vida. Faço questão de ser simpática, tal como gosto que sejam comigo. Só isso. Foi assim que me educaram.

Os teus pais?

Sim, sempre me ensinaram o respeito e a cortesia… Ser simpática não custa nada. Sou introvertida e posso parecer fria, mas tento ser agradável.

O que os teus amigos diriam sobre ti?

Os meus amigos são mais em qualidade do que em quantidade e são os mesmos há muitos anos. Não sei o que diriam, mas gostam muito de mim e estão felizes com todas as coisas boas que estão a acontecer comigo, por estar a conseguir realizar os meus sonhos. Deves perguntar-lhes a eles.

Sinto que és duas pessoas: uma é a do Instagram e a outra é esta Ester. Saber que 26 milhões de pessoas estão à espera que publiques uma fotografia é intimidante?

Sim, sinto a pressão, embora isso não signifique que não valorize todo o carinho que recebo todos os dias de todos. E, quando posso, lembro-lhes que são importantes, que sei que eles estão lá. É uma responsabilidade minha agradecer-lhes… As pessoas não estão à espera das minhas fotos, estão a viver as suas vidas. Mas é verdade que basta eu fazer um click… Tento não me focar disso.