Inês Castel-Branco:«Às Vezes a Nudez É Gratuita, As Atrizes Têm de Ter Cuidado»

A política, o feminismo e a obsessão pelo corpo perfeito, numa conversa desarmada com Inês Castel-Branco. por: Margarida Brito Paes -- Imagens: © D.R

Esta entrevista já decorria há um quarto de hora, quando uma senhora a interrompeu para dizer a Inês Castel-Branco que ela era ainda mais bonita ao vivo que na televisão. E é verdade. Os olhos são mais verdes, o cabelo loiro tem reflexos arruivados e a pele parece mais jovem, a voz é rouca, tal como ouvimos em casa, e o sorriso tímido, mas fácil. A Inês é daquelas pessoas que tem o coração ao pé da boca, e talvez por isso não goste de dar entrevistas, porque fala sem filtro, nem travão. Mas afinal é desta atitude ‘afoita’ perante a vida que se conseguem sempre as melhores conversas. 

Sentámo-nos para tomar o pequeno-almoço com a atriz, de 37 anos, e falar sobre o seu primeiro grande papel no cinema. Inês Castel-Branco dá o corpo, a voz e o olhar triste a Snu, com estreia marcada para dia 7 de março. O convite foi feito pela realizadora Patrícia Sequeira e a Inês fez «aquilo que um ator nunca deve fazer. Nem li o guião e disse logo que sim». E ainda bem que o fez porque esta será uma personagem que ficará certamente marcada na sua carreira. A conversa que começou por ser sobre esta mulher que mudou Portugal, passou para a política, para o feminismo e para a obsessão pelo corpo perfeito que hoje é tão comum.

O primeiro plano do filme é da Snu a pentear-se. Quanto tempo é que demoraste a aprender a fazer sozinha a banana perfeita?

Uma semana. Eu por acaso safo-me com cabelos e maquilhagens desde miúda. Quando me fazem alguma coisa, eu estou sempre a ver como fazem e depois imito e normalmente sai bem. Claro que na cena em que gravámos a banana, algumas que não correram tão bem, mas também muitas saíram perfeitinhas.

Foi importante para ti esse elemento estar muito presente no filme, por a Snu tinha essa imagem muito marcada? Ajudou-te a construir a personagem?

À medida que fui fazendo a pesquisa e vendo imagens dela, em fotografia, porque em vídeo não há muitas, fui construindo a personagem muito baseada nisso, na elegância dela. A banana acho que também tem muito a ver com o vento dos países nórdicos, que a fazia usar muitos apanhados para não andar despenteada. Também estudei muito o olhar dela que era muito triste e perdido.

Porque é que ela tinha esse olhar?

Basta conhecer a história dela para compreender. Esta mulher aterra em Portugal em plena ditadura, e faz o que faz, e apaixona-se por quem se apaixona, e tem de lutar contra tudo e contra todos. Foi um processo em que ela sofreu muito. Teve uma família destruída pelo meio, um filho em cada sítio, um país inteiro a tratá-la por sueca e amante. Isso não pode ter sido fácil para uma mulher com a inteligência e cultura que ela tinha.

O que é que as mulheres podem aprender com a força da Snu?

Acho que devemos aceitar o que somos e o que podemos fazer pelo mundo. E há pessoas que podem fazer mais do que outras. Ela desde miúda que dizia à mãe que tinha uma missão e que ia mudar o mundo, nem que fosse uma parte pequena do mundo. Ela sabia que ia deixar uma marca. Há uma frase no diário dela em que escreve: «vejo-me a escrever porque gosto de escrever, mas não quero ser crítica, porque acho que as pessoas têm de ser críticas da sua própria cabeça e quero usar o meu cérebro de mais maneiras. Provavelmente escrevo política…». Acho que ela sabia desde sempre que ia fazer alguma coisa. E isso não tem a ver com querer ser importante, mas sim com ter uma missão de mudar o mundo. Por muito que tenha sido frustrante chegar a Portugal, quando ela nem nunca tinha posto em causa a liberdade de expressão, isso também lhe deu uma maior noção da sua missão. Em Portugal ela podia mesmo deixar uma marca. Ela dizia: «dêem livros às pessoas, as pessoas só precisam de ler». Por isso é que ela abriu a editora. A Snu tinha a certeza que ao trazer a informação, depois chegaria a liberdade, nem que fosse a liberdade de pensamento. E assim deixou a sua marca, neste país pequenino e que nem sequer era o dela.

«Hoje em dia, não passa pela cabeça de ninguém falar sobre a vida privada de um político, a não ser que a mulher esteja doente ou que o político em causa bata na ex-mulher. De resto, não é do nosso interesse»

A Snu acreditava que a literatura podia mudar mentalidades. Tu como atriz achas que o cinema e a televisão também têm esse poder?

Acho que sim. Cada um para o seu público. O cinema não precisa de ter uma moral, pode ser só contar uma história. Já a novela, pelo público que assiste, deve ter uma mensagem. Nem que seja só falar sobre os temas fraturantes da nossa sociedade. Acho que hoje em dia, isso já acontece.

Também partilhas com a Snu esse sentido de missão de mudar o mundo?

Não. Acho que a única coisa que tenho em comum com a Snu é a curiosidade que ela tinha desde pequena. Eu nunca pensei em mudar o mundo, se calhar hoje até o mudo mais do que alguma vez achei. Eu sempre fui muito preocupada com as injustiças e com as pessoas que não têm os mesmo privilégios que eu. Sempre me preocupei muito com causas, com pessoas que não estão protegidas pelo Estado, umas vezes porque simplesmente não pode, outras simplesmente por uma questão de desorganização. Eu como sou e sempre fui previligida sempre tentei ajudar essas pessoas, mas é uma amostra muito pequena. A Snu pensava numa escala bastante maior.

Este filme é mesmo sobre uma história de amor, ou é um filme sobre um país e seu contexto político disfarçado de história de amor?

Eu acho que é uma história de amor, que só aconteceu daquela maneira porque existiu neste país e naquela época. Se fosse hoje a história não seria assim. Hoje em dia, não passa pela cabeça de ninguém falar sobre a vida privada de um político, a não ser que a mulher esteja doente ou que o político em causa bata na ex-mulher. De resto, não é do nosso interesse. Costumam dizem que atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher e eu acho que atrás de um grande político devia haver sempre uma história de amor. Porque sem isso são pessoas mais cinzentas. É bom haver esse lado na vida dos políticos se não… coitados… E é muito importante para as mudanças que querem fazer no país serem bem resolvidos e felizes. Nós temos um país muito especial para o bem e para o mau.

O que nos faz especiais?

Somos muito pessimistas, mas ao mesmo tempo somos românticos. É como ouvir um fado, aquela musica é muito triste mas ao mesmo tempo é muito romântica e muito bonita. De facto é mesmo a música que mais nos caracteriza, nós somos muito assim. É muito difícil sermos otimistas, eu tento contrariar isso, mas é o que vejo pelas pessoas que me procuram e me escrevem, parece que carregamos sempre um peso.

«Agora a política é muito sobre o poder, e isso para mim como eleitora é muito frustrante. Não vejo pessoas a tentar resolver as coisas, vejo pessoas a tentar derrubar quem está no poder

Apesar do filme ser um história de amor, é inegável que fala muito de política. Qual é a tua relação com a política?

Bem, acho que é a primeira vez que me fazem essa pergunta. Não sei como é que, até hoje, nunca ninguém se lembrou de me perguntar isso, e eu trabalho há 18 anos. Eu cresci numa família de direita e as pessoas com quem me dou são todas de esquerda. Eu sinto-me completamente no meio. Sinto-me centrista mas ao mesmo tempo liberal. Normalmente quando é altura de votar, voto sempre, faço sempre questão de votar. Mas fico sempre muito dividida, por isso acabo sempre por votar em pessoas. Mas confesso que nos últimos anos estou mais virada para a esquerda.

Achas que a nossa sociedade está a passar uma fase de mudança e que os próprios partidos estão mudados?

Acho que a famosa crise, e as crises que ainda virão por má gestão – de que  nós não temos a culpa, mas o que é certo é que nós é que levamos com tudo – fazem com que os anos pós-crise sejam sempre muito complicados. O que eu senti durante a pesquisa para este filme, e na minha pesquisa sobre o Sá Carneiro, é que naqueles tempos em que se estavam a formar partidos logo após a ditadura, quando se está a tentar fazer qualquer coisa pelo país, qualquer coisa de diferente,  a política era muito mais sobre o povo do que acerca do poder. E agora a política é muito sobre o poder, e isso para mim como eleitora é muito frustrante. Não vejo pessoas a tentar resolver as coisas, vejo pessoas a tentar derrubar quem está no poder. Isso é o que eu sinto desde a crise, ninguém consegue resultados assim. Parece tudo uma luta de poder em que os lesados somos nós.

Aconselhavas os políticos a ir ver este filme?

Eu aconselhava os políticos a ir ver o filme, como aconselhava qualquer outra pessoa a ir ver o filme. Porque é sempre bom ver um história de amor verdadeira e esta nós temos a certeza que aconteceu.

No filme fica bem clara a forma diferente como as mulheres viviam em Portugal e a forma como viviam as mulheres na Dinamarca ou na Suécia, que eram as referências da Snu. Achas que essas diferenças tão grandes e que duraram tanto tempo, são uma das razões para a sociedade portuguesa ser culturalmente machista?

Acho que sim. Teve muito a ver com o período da ditadura. Na altura em que a Snu chega a Portugal, uma mulher não podia sair do país sem autorização do marido, não podia levar calças para a escola. Coisas que à nossa geração, nem nos passa pela cabeça, mas mesmo assim ainda há muito machismo no nosso país. Aqueles comentários como o «ela põe-se a jeito porque usou minissaia» quando se fala de assédio sexual e violação, isso para mim está ao nível do ter de pedir autorização ao marido para sair do país. Como se pode mudar isto? Educando os nossos filhos rapazes para serem diferentes. Acho que é uma responsabilidade da geração atual. Quando ainda era casada e me perguntavam «ele ajuda-te?», esta frase dava-me uns nervos… «Como assim ele ajuda-me? Nós temos definidas tarefas, ajudamo-nos um ao outro!». Esta coisa de as mulheres terem um papel definido em relação às tarefas e os homens, se forem bons maridos, até ajudarem, não faz sentido nenhum. Está tudo errado nesta maneira de pensar. Nós temos de mudar isso, porque a nossa geração ainda faz muito isto. Temos de mudar isto por nós e pelos nossos filhos. É uma responsabilidade nossa.

Outra coisa que este filme tem de particular é que não existe uma única cena de sexo, percebe-se que existe tensão sexual mas não se vê nada. Achas que isso é importante e faz a diferença?

Acho lindo. Quando li o guião nem queria acreditar. Não havia sexo, nem nudez, nem violência. Há bastante violência psicológica, mas não física, no entanto está lá tudo. Na verdade não precisas de mostrar as atrizes nuas. Às vezes justifica-se, e o sexo faz parte do dia-a-dia  e não devemos ter medo de o assumir, mas também é verdade que é quase regra que no cinema haja uma cena de sexo. Aquela cena em que ela lê o poema e vai para casa até ao chuveiro é de uma sensualidade muito maior do que se ela estivesse nua. Às vezes não é preciso ser tão ilustrativo para se representar as mesmas sensações.

A ti, como atriz e mulher, teres de estar, à partida, predisposta para fazer uma cena de sexo é uma coisa que te incomoda?

Quando as cenas não são necessárias, sim. Já disse que «não» a um filme por causa disso. Incomoda-me bastante. Às vezes a nudez é gratuita, as atrizes têm de ter cuidado.

Hoje em dia é mais fácil dizer que não?

Para mim sim, mas eu já trabalho há muito tempo. Eu lembro-me de, na minha segunda novela, ter uma cena em que tinha de ser surpreendida no banho por um estranho e de fugir com a toalha enrolada, mergulhar numa piscina e ficar nua. Era uma cena cómica, e eu pedi para estar de soutien cai-cai e cuecas e o realizador tratou-me mal por lhe pedir isso. E eu acabei por fazer a cena, agarrei-me à toalha como se não houvesse amanhã, mas fiz a cena. Anos mais tarde surgiu-me um convite para fazer um filme em que tinha de fazer uma cena lésbica, e quando estava a ler o guião percebi que aquela proposta era eu entrar no filme só para ter uma cena de sexo lésbico. Para que é que é que eu havia de fazer aquilo? A personagem nem tinha conversa com mais ninguém no filme. Não aceitei e ainda bem. Acho que só é preciso dizer o primeiro «não» para perceberes que o podes dizer, perceberes que te sentes poderosa quando dizes «não» e que tens todo o direito a ter uma opinião. E às vezes o «não» não tem nada a ver com a nudez, pode ter a ver com o ator com quem vais trabalhar, com o realizador com quem não te dás bem, ou com a fase da tua vida, porque queres estar mais presente para os teus filhos. Às vezes, dizer que não dá-te muito poder interior, é bom.

«Nós, atrizes, quanto mais velhas ficamos, ou mais gordas ficamos, mais risco corremos de ficar sem trabalho, é verdade.»

Achas que, sobretudo na televisão, a exposição constante do corpo sexualizado é má para a imagem das mulheres?

Não. Acho que se isso fosse uma coisa exclusivamente feminina e não acontecesse com os homens também não era muito bom. Mas, hoje em dia, com as redes sociais, o que se nota é que uma grande parte das mulheres gosta de aparecer em lingerie e em biquini e vende isso. 80% do Instagram delas é meias nuas. Há um à vontade com a imagem muito maior e ainda bem, porque um corpo é um corpo e, se nós andamos na praia assim, temos que perceber que estar na praia ou numa fotografia é igual. Agora, acho que tudo tem muito mais a ver com a narrativa. «Porque é que ela aprece ali nua? Será que faz sentido ou é só porque é gira?». Acho que é mais por aí. As pessoas têm o direito de se mostrarem como quiserem. É isso que é a liberdade. Mas tem de ser uma coisa que querem e não que lhes é imposta porque estão a começar a carreira, porque são bonitas, porque são novas, acho que é por aí.

Hoje em dia como dizias a sexualização também é feita cada vez mais aos homens…

E os homens também estão constantemente em tronco nu nas suas redes sociais. Acho que vivemos uma era de obsessão pelo corpo. Está a começar a ser um bocadinho demais, mas é sempre assim, o ser humano leva sempre tudo um bocadinho ao extremo e depois baixa e o nível fica bom, é sempre assim. E descansa-me ser sempre assim, se não era assustador. Esta obsessão pelo corpo depois também se reflete na vontade de mostar o trabalho que tiveste para ter aquele corpo, e é um ciclo vicioso.

Também sentes essa pressão para ter o corpo perfeito?

Sinto, infelizmente sinto. Sempre pensei no meu corpo, desde miúda. Nunca tive uma relação ótima com ele. Não sei se por as minhas referências terem sido sempre top models, mas sempre tive uma relação difícil com o meu corpo, e uma auto-estima baixa. Depois, quando comecei a trabalhar, toda a gente me dizia que era muito bonita e isso melhorou. Também tinha a sorte de ser daquelas pessoas que comia tudo o que queria e não engordava. Toda a gente me dizia «espera até aos 30 para começar a engordar». Não foi aos 30 mas foi aos 35. Eu, hoje em dia, faço dieta e custa-me muito, porque eu adoro comer. Fiz um acordo comigo mesma e tenho um dia por semana em que como um bom brunch e um bom bife, mas o resto dos dias faço dieta.

Porque é que o fazes?

Porque me sinto bem magra e isso é uma coisa que se reflete em tudo: na forma como me visto, na forma como chego aos sítios. Mas espero que isso com a maturidade mude. Além disso, eu estou sempre a trabalhar com a minha imagem. E nós, atrizes, quanto mais velhas ficamos, ou mais gordas ficamos, mais risco corremos de ficar sem trabalho, é verdade.

Já sentes isso?

Não sinto que estou a correr o risco de ficar sem trabalho. Mas se eu dissesse: «Porque é que eu tenho de ser magra? Não há pessoas um bocadinho mais gordas no mundo? A minha capacidade de representação não muda por isso». Depois ia logo pensar «será que me vão renovar o contrato?», é que estão a aparecer cada vez miúdas mais novas, mais giras e boas atrizes. Por isso, tu tens de te manter ao nível de parecer mãe delas, aos olhos da estética televisiva, ou então corres mesmo o risco de perder o trabalho, sim. Se reparares há cada vez menos velhos nas novelas.

Tendo noção dessa realidade já pensaste num plano B para a tua vida?

Não. Eu já tive vários negócios: tive uma loja de roupa em segunda mão, tive uma empresa de festas para crianças, sou sócia de um restaurante. Eu tenho ideias, algumas já concretizei, outras não, mas isso não me preocupa porque sei que tenho capacidade para as concretizar. A mim preocupa-me é saber se vou ser feliz, porque tenho a sorte de fazer o que mais amo. Tenho a sorte de ir para o trabalho com um sorriso na cara e sair de lá com o mesmo sorriso, sejam 14 horas ao frio ou 5 horas à volta de uma mesa. Eu gosto mesmo do que faço e isso é ter muita sorte, porque nem toda a gente pode dizer o mesmo. Se algum dia não puder trabalhar como atriz, obviamente vou trabalhar, tenho dois braços e duas pernas, desde que tenha saúde é óbvio que vou trabalhar, mas ia ser infeliz.

Vitória Guerra também interpretou a Snu. Falaste com ela sobre a personagem?

Nós falámos bastante sobre a Snu. A Vitória tem um método mais introspetivo que eu. Eu falo imenso com toda a gente, quando estava a fazer a pesquisa não me calava, estava insuportável. A Vitória começou a gravar muito antes de mim e acabou mais cedo também. Lembro-me que quando fui a Estocolmo conhecer a casa onde a Snu cresceu, escrevi um texto sobre ela e enviei à Vitória. Por coincidência foi no dia antes de ela começar a filmar, e ela agradeceu e disse que se emocionou. Depois, durante as filmagens nunca falámos e agora, há pouco tempo, vi um bocado da série, não muito para não me influenciar, mas quis ver por amizade pela Vitória. E achei muito engraçado porque a Vitória faz da Snu muito jovem e a série acaba precisamente na altura em que começa o filme por isso é quase uma continuação. Ela faz de mim em mais nova e, se pegarmos nas duas e as juntarmos, é coerente. E acho ótimo que haja mais gente a dar luz à Snu, porque ela tem de ser mesmo mais conhecida.