Entrevista: Catarina Furtado

A propósito de um artigo da ELLE de Abril (sobre o Novo Feminismo) falámos, em exclusivo, com Catarina Furtado. Fotos: © D.R.

Na ELLE de abril que chega às bancas já esta sexta-feira, dia 06 de março, refletimos sobre um dos mais importantes conceitos da atualidade: o Novo Feminismo.

O movimento que continua tão premente como presente, tem em mulheres como Catarina Furtado, Rita Ferro Rodrigues e Iva Domingues, as duas últimas fundadoras da plataforma Maria Capaz, algumas das suas maiores protagonistas. Foi com elas e também com Jéssica Athayde, Mariana Monteiro e a professora universitária Isabel Henriques de Jesus que falámos para este artigo que se debruça sobre as novas questões e os novos contornos do feminismo.

Antecipando esse texto, do qual dedicamos todas as palavras nele inscritas às mulheres, publicamos, agora, uma entrevista exclusiva com Catarina Furtado. Apresentadora, Embaixadora da Boa-Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População e fundadora da Associação Corações com Coroa, Catarina Furtado não deixa ninguém indiferente e sobretudo não é indiferente.  Extraordinariamente inteligente, incisiva, profundamente bonita, feminista, mãe, feminina, inspiradora, mulher, apaixonada e absolutamente bem-sucedida, faltam palavras para a definir (pelo menos, de forma sintética e em poucas linhas).

A entrevista exclusiva é para ler, em baixo.   

 

ELLE: A primeira pergunta é quase obrigatória: Qual é para si a definição de feminismo? 

Catarina Furtado: Um movimento  social, académico e político que para além de promover e defender activamente  a igualdade  de direitos e oportunidades entre homens e mulheres, desenvolve ainda uma consciência de que é necessário ser coerente e denunciar, fazer cair obstáculos, incluindo trâmites legais, económicos e até culturais que no quotidiano, directa e indirectamente, perpetuam ou mascaram as discriminações de que são alvo as mulheres de todas as idades e regiões.

O que  interessa sublinhar é que o “ismo” de feminismo representa uma coragem imensa que vem de lá longe, de mulheres que se revoltaram contra a humilhação perante o “sexo forte”. Conquistas que hoje temos como garantidas (direito ao voto, a sair do país sem autorização dos maridos, passar cheques, decidir sobre o nosso corpo, ter acesso a todos os cursos, profissões,  a inclusão da violência de género na agenda política, etc..) mas que em muitas partes do mundo ainda não são uma realidade. E no nosso país, há ainda um caminho a desbravar, por mulheres e homens, para que, de facto se possa dizer que o feminismo foi um movimento necessário mas que faz parte do passado. Chegará esse dia? Todos os que querem o melhor para os outros não serão feministas ? Homens e mulheres? As mulheres hoje, em Portugal, fazem verdadeiros milagres ( e com que consequências?) para conciliarem as profissões, os papéis de mães, fadas do lar, companheiras. Trabalham duplicadamente, recebem 15% a menos que os homens nos mesmos empregos e ainda só ocupam 13% dos lugares de chefia nas empresas. E quem decide são os homens. Por isso o convite também tem de ser deixado aos homens: pensem nisto com outro olhar e permitam que o equilíbrio se instale! Não esquecer: o  feminismo assenta nos principios da universalidade dos Direitos Humanos.

 

ELLE: Parece haver um novo movimento ao redor do feminismo. Com personalidades a destacarem-se (ex. Emma Watson) e novas plataformas de discussão no  espaço público (ex. Maria Capaz). Como é que vê este movimento? E, sobretudo, porque é que ainda é relevante?

Catarina Furtado: O feminismo tem sido, desde o séc.XIX um movimento muito plural, com várias correntes de pensamento e ação que acompanham os desafios da humanidade: do direito ao voto, o direito a frequentar a escola e a universidade, passando pelo direito à contracepção, o direito a escolher com quem casar ou constituir família, ao trabalho igual / salário igual, até ao direito à participação e à eleição. De facto existe uma variedade de factores que  justificam e acompanham as diferentes feministas. Em Portugal, até pelo contexto da democracia e maior escolaridade das mulheres, há hoje em nós uma maior percepção e consciência de que ainda nos é negada a igualdade de oportunidades, por legislação ou ausência dela, por estereótipos  sócio-culturais por opções até económicas; por isso também hoje agimos mais e promovemos plataformas de diálogo onde sejamos lidas e ouvidas porque conhecemos os nossos direitos. Ao mesmo tempo, acredito que também existe uma maior responsabilidade e solidariedade para com essas meninas, raparigas e mulheres que aqui, em Portugal e no outro lado do mundo continuam a ser vitimas, até mortais, de padrões e normas que as encarceram em cenários que não desejam e recusam. E são aos milhares as que não conhecem as alternativas, nem conhecem os seus/nossos direitos enquantos mulheres. O spot da Associação Corações com Coroa ( ONGD que fundei há três anos com a Ana Torres e a Ana Magalhães) diz e mostra exactamente isto «conheci os direitos que os outros tinham sobre mim». 

Enquanto existirem modelos, organizações e manifestações de poder que, aos seus vários níveis, penalizarem as pessoas que são mulheres “esta luta, esta missão” é relevante. E não é uma questão de “irmandade”, é sim um requisito de direitos e cidadania global. Violência nas relações afectivas; assédio sexual, até no local de trabalho; rapto e escravatura sexual, sem voz reconhecida ou desvalorizada nos tribunais; parlamentos, governos e empresas que não respeitam a igualdade de género nos seus cargos de decisão e ao mais alto nível; casamentos infantis forçados ou arranjados; mutilação genital feminina; campanhas que estigmatizam o papel e imagem das mulheres; entraves aos direitos, à educação e saúde sexual e reprodutiva. O feminismo tem estas e outras causas de direitos humanos,  por isso mesmo é relevante e muito saudável que numa democracia europeia como a portuguesa, existam novas abordagens, rostos e espaços de discussão. Onde se desconstruam e construam ideias, soluções, alternativas das mulheres, para as mulheres e pelas mulheres. Sem a eterna ligação à família e à maternidade, às vezes é preciso alguma coragem e desprendimento da imagem para que a cidadania também aqui seja exercida.

 

ELLE: Quem são as feministas do século XXI?

Catarina Furtado: Não vou nomear ninguém porque seria injusto para as não nomeadas, mas se olharmos para a imprensa, para as redes sociais, academia, organizações não governamentais e até para o Parlamento, facilmente identificamos em Portugal alguns dos nomes e rostos do feminismo. Não é possível defender a Igualdade, os Direitos das Mulheres, o fim de todas as formas de violência, discriminação e exploração sobre meninas e mulheres sem se ser convictamente feminista, e isso pode acontecer mesmo de saltos altos e roupa de autor, para alguns o lipstick feminism.

Posso dizer que algumas das mulheres mais inspiradoras que conheci e com quem aprendo todos os dias são de vários países e de vários contextos. Como a Toraya Obaid, ex-directora Executiva do UNFPA; a Ana Vicente, escritora e historiadora; a Maria de Lurdes Pintasilgo; poetisas e artistas; tantas mulheres anónimas com quem me cruzo no trabalho que faço no terreno; e as voluntárias da Corações com Coroa que me desafiam todos os dias a ser melhor e a saber mais para apoiar quem nos procura. 

 

ELLE: A Catarina é, desde sempre, uma das personalidades que mais intervém nesta àrea. Desde o seu papel como Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) até à sua Associação, como é que vê o seu papel enquanto feminista?

Catarina Furtado:  Tem sido uma constante aprendizagem e de alguma forma, um teste aos meus limites, conhecimentos e até preconceitos. O meu papel também é o de utilizar os meios que tenho, as oportunidades e as iniciativas que surgem (outras que organizo) para  promover e amplificar as vozes, os movimentos, as soluções, as solidariedades responsáveis não caritativas e as alternativas em prol dos Direitos Humanos das meninas, raparigas e mulheres. A descentralização do meu eu enquanto figura pública permite-me encontrar a verdadeira missão e consequência da minha profissão. É o que irei deixar verdadeiramente quando partir, para quem fica, para quem se lembrar de mim e para os meus filhos: passar por esta vida não ao lado dos outros mas do lado dos outros e sobretudo a diferença que faz estar atento e comprometido com quem mais sofre: inevitavelmente as crianças (as meninas), as jovens e as mulheres.

 

ELLE: Qual é a mensagem que as mulheres, mas também os homens, devem reter em relação ao feminismo?

Catarina Furtado:  Para sermos iguais, em respeito pela nossa diversidade, precisamos não só de ver direitos reconhecidos mas também de  ter direitos efectivos. O feminismo não é um assunto de mulheres, é um assunto de política e intervenção cívica por uma cultura de direitos humanos onde todas as pessoas tenham as mesmas oportunidades. E isso significa que as mulheres podem ser chefes de estado e presidentes de empresas cotadas em bolsa, mas também que os homens podem ter a oportunidade de serem pais a tempo inteiro ou ainda de reclamarem o seu direito à conciliação entre a vida pessoal, familiar e profissional.

  

Leia o artigo O Novo Feminismo na ELLE de Abril, que chega às bancas sexta-feira, dia 06 de março.