Emma Roberts: «Se não fosse atriz, seria uma pessoa mais introvertida e triste»

A atriz é sobrinha de Julia Roberts, embaixadora da Tous e fundou um clube de leitura. Por:Claúdia Sáiz -- Fotos: Rafa Gallar -- Realização: Sylvia Montoliù

O seu magnetismo e o seu encanto fazem com que atraia a luz de forma natural. Revelamos o lado menos conhecido da atriz, uma apaixonada por letras, e a nova embaixadora global da Tous.

Emma Roberts (nascida em Nova Iorque, 1991) fala da sua paixão pelos livros, e da sua imaginação como sendo uma das principais razões que a levaram a querer ser atriz. O seu apelido (filha do ator Eric Roberts, candidato ao Óscar) e o sorriso que herdou da sua tia, a estrela de todas as estrelas, Julia Roberts, recordam a importância dos genes quando se quer tentar a sorte em Hollywood, mesmo que o seu talento garanta que merece ter sucesso por mérito próprio.

O pragmatismo e a autenticidade de Emma definiram sempre o ritmo da sua carreira. A audácia na representação, os ideais pouco convencionais e a força que dá a cada papel fizeram com que se transformasse numa atriz de culto, desde de April em Palo Alto, realizado pela sua amiga, Gia Coppola, até à série American Horror Story – atualmente a gravar a nona temporada –, passando pela sua próxima estreia, uma comédia romântica da Netflix chamada Holidate. A tudo isto Roberts junta agora mais um título: o de embaixadora global da Tous.

ELLE: Quando pensas na Tous, o que te vem à cabeça?

Emma Roberts: Ícones. Mulheres. Talento. Inspiração. E, primeiramente, família. Que a mãe Tous (Rosa Oriol) e o pai Tous (Salvador Tous) transformaram um pequeno negócio numa marca internacional, sem nunca se afastarem das suas raízes nem da ideia de clã, o que é extraordinário.

É uma marca a que associamos um rosto, não achas?

Completamente. Daí a proximidade que transmite. Ela conseguiu tornar-se relevante, e agora o seu rosto é feminino. É o rosto da Alba e da Rosa Tous, duas mulheres poderosas, empreendedoras, perspicazes e racionais, perfeitas para dar continuidade ao trabalho dos seus pais, e levá-lo mais longe.

As peças da Tous são mais do que uma simples jóia?

São um mix de alegria e sonho, transmitem sentimentos e despertam emoções. É suposto uma jóia ser isso tudo. Para mim é uma honra dar continuidade a este caminho iniciado por Jennifer Lopez, Kylie Minogue e Gwyneth Paltrow como embaixadoras da marca.

O que te transmite a campanha Stay Tender?

O Rei do Rock [risos]. Diria que não só te deixa animada e positiva, mas também te desafia a ser digna e forte. A praticar a vulnerabilidade. Não podes ser uma sem a outra. A coragem de uma pessoa mede-se a partir da sua capacidade de se mostrar vulnerável.

Começaste a tua vida profissional aos 9 anos, ao lado do Johnny Depp e da Penélope Cruz, em Profissão de Risco. Como foi a experiência?

Lembro-me de que a minha mãe não queria levar-me à audição. Insisti que era o meu sonho, fui e pensei que ia sentir pela primeira vez a rejeição. Mas não. Consegui o papel. E tenho uma fotografia com o Depp autografada: «Para a Emma, uma das pessoas mais impressionantes que já conheci. Adoro-te. Johnny.» Com 9 anos, eu nem sabia quem ele era, mas com 16 anos estava: «Ó meu Deus, é ele!»

Que memórias tens da tua infância?

Passei-a nos bastidores. Não estou a exagerar ao dizer que, de tanto estar fascinada com as pessoas que faziam filmes, escondia-me nos camarins sempre que a minha mãe ia buscar-me. Fazia muitas birras quando me punham a ver desenhos animados: eu queria era ver um filme com pessoas mesmo!

Dizem que em Hollywood se cresce mais depressa…

Não acho. Há que dar importância a cada coisa. Eu vejo-me igual ao que era, mas é verdade que se te dedicas à representação desde muito cedo, esperam de ti algo que já não é próprio da tua idade.

Qual foi o papel da tua mãe ao longo de todos estes anos?

É a minha guia, a minha tudo. Fez com que tivesse uma vida normal de adolescente, sem me esquecer de quem sou. Desde os meus 12 anos até aos 16, todos os verões ela mandava-me um mês para um campo de férias, no meio da Natureza com pessoas reais. Trocava os estúdios da Nickelodeon pelo Minnesota.

Construíste uma carreira que vai desde o cinema comercial e indie às séries de culto. Tens um plano definido ou é puro instinto?

Seria ingénuo ou pedante da minha parte dizer que tenho grande consciência das escolhas que faço. Este meio não funciona assim. As oportunidades são-te apresentadas e mostram-te um caminho: ou o agarras ou o perdes. O que eu tento é tomar a melhor das decisões, tanto no que faço como no que deixo de fazer.

Como lidas com o sucesso?

A fama é agradável. Quem é que não quer ter sucesso? Quem é que não quer ser influente? Mas há que ter cuidado: existe o risco de te subir à cabeça, de te inflar o ego e de te transformar numa pessoa irritante.

Se existe algo que define a tua carreira é a capacidade que tens de manter os pés assentes na terra.

Acho fundamental ser pragmática. Nunca és a única opção para um realizador. Jamais duvido de que há outras 45 atrizes idênticas, com a mesma idade, com o mesmo look, que aspiram ter o mesmo papel.

O que te dá tranquilidade?

Para mim, a melhor forma de me concentrar, de fazer o ruído desaparecer, de me desligar de tudo, é deixar o telemóvel em casa. Isso tranquiliza-me.

Protegermo-nos a nós próprias é essencial?

Há que o fazer. A pureza da tua visão é importante. E também é importante manteres essa liberdade para seres responsável pelos dos teus próprios erros.

O que significa para ti, o trabalho de atriz? É uma paixão, uma forma de terapia ou uma profissão como qualquer outra? Ou tudo isso junto?

É uma forma de expressão. Se não fosse atriz, seria uma pessoa mais introvertida e triste. É o meu escape.

Então como te descreverias?

Nesta fase da minha vida, sou uma pessoa mais tranquila. Procurei isso. Sinto que, com o tempo, tenho mais resistência. Suponho que seja maturidade… A vida está repleta de altos e baixos interiores. Mas não acredito que seja necessário uma pessoa torturar-se para ser ela mesma.

Consideras-te uma lutadora?

Sou perseverante e inquieta. Identifico-me com a cultura do esforço, com a filosofia de não baixar a guarda. A vida está a pôr-me à frente coisas maravilhosas, por isso estou sempre a estudar: sinto essa responsabilidade profissional.

Foi essa inquietude que te motivou a fundar a Belletrist, o teu clube de leitura, em 2017?

Talvez. A Karah Preiss – uma das minhas melhores amigas – e eu passamos anos a recomendar livros uma a outra. E, como as propostas acabavam por ser as nossas leituras de cabeceira, decidimos transmitir esse nosso prazer às pessoas através de um fórum onde se trocam ideias e descobertas. Então, fundámos o Belletrist.

Como escolhes os livros?

É um processo orgânico. Em cada mês propomos um título não por ser tendência, mas porque pode influenciar o leitor, porque pode contribuir para a algo na sua vida.

E o que pedes tu como leitora?

Pensarem que só lês porque não tens nada para fazer é um erro. Como leitora, procuro a autoridade: quando te fixas na primeira página, sabes logo se é um livro bom. A inteligência e a imaginação são chaves. Gosto de autores que tenham algo a dizer sobre o mundo. Estou a ler agora The Anatomy of Dreams, de Chloe Benjamin [Tira o seu exemplar, abre-o e mostra-me a primeira página, onde tem assente quando começou a lê-lo e em que país]. Aponta-o.

E já pensaste…

Em publicar um livro? [Termina a pergunta] Fazê-lo só porque sim não é uma razão. Escrevo relatos, mas só publicaria se algo estivesse a apertar-me tanto ao ponto de querer libertá-lo. Se isso acontecer, não me importaria de vender 10 ou 10 mil. Mas agora não é o caso.

Bom argumento.

Respeito demasiado a literatura para publicar um livro só para o ter, ou o vender, ou para ver o meu nome na capa.

Então, o que é para ti um livro?

Ler um romance é o mais perto de estar na cabeça de outra pessoa. O cinema e a televisão envolvem-te, claro, mas estás a ver uma representação. Num livro, tu estás na ação. Também a relação da literatura com a sétima arte mantém os livros no centro da cultura popular.

De que forma a literatura alimenta a tua carreira como atriz?

Mais do que possas imaginar. Reservo sempre uma estante com cinco livros inspirados nas personagens que vou interpretar. Por exemplo, durante as lmagens da série American Horror Story, lia quase a toda a hora a obra de Stephen King. Cheguei a estar obcecada com O Iluminado.

A criatividade é importante no teu dia a dia?

É a essência do que significa ser pessoa. As nossas vidas são um processo constante de decisão criativa e improvisação. É impossível prever o futuro; a única coisa que sabemos é que será necessário ter muita imaginação e perspicácia para mudarmos e enfrentarmos os desafios que se avizinham.

O que aprendeste nestes quase 20 anos de carreira?

Aprendi que é fundamental não querer fazer tudo perfeito da primeira vez. Tenta, e vê como te sais. Não pode faltar-te excitação e segurança. Com o tempo, acabas por aceitar que nem sempre vais agradar a todos. Se antes sentia isso em relação a alguma pessoa, eu abordava-a e dizia: «Senta-te aqui comigo e explica-me porquê.» Agora não.

Se não fosses atriz, a que te dedicarias?

Seria professora de adolescentes. O melhor professor que tive na vida ensinou-me que existem poucas coisas comparadas com a emoção intelectual de ver como aprende um aluno. Noto isso quando falo com a minha irmã mais nova. É um sentimento indescritível.

Porquê adolescentes?

É uma altura para descobrir quem és de verdade, um momento em que não se deveria penalizar ninguém por ser diferente. Pelo contrário. Estás a encontrar o teu lugar. E isso, para mim, é sinónimo de liberdade.

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE  de setembro de 2019.