Emily Ratajkowski Fala Sobre Feminismo, a Família e as Redes Sociais

O rosto da nova fragrância da Paco Rabanne tem uma voz e não tem medo de falar por todas as mulheres. Por: Carolina Adães Pereira -- Imagem: © cortesia Paco Rabanne

«Hoje fui presa por protestar contra a nomeação de Brett Kavanaugh para Juiz do Supremo Tribunal, um homem que foi acusado de abusos sexuais por várias mulheres», escreveu Emily Ratajkowski no dia 4 de outubro de 2018 num post no Instagram. «Homens que magoam mulheres não podem ser colocados em posições de poder. (…) Exijo um governo que reconheça, respeite e apoie as mulheres tal como faz com os homens», conclui.

Sete dias antes, entrevistava Emily em Paris na apresentação da nova fragrância da Paco Rabanne, Pure XS for Her, da qual é a imagem. Quando vi, primeiro as Stories e depois a publicação de Emily, não fiquei surpreendida. Primeiro, o meio de publicação: o Instagram. A modelo tem presença assídua nesta rede social e utiliza-a para partilhar as notícias sobre si com os seus fãs (aqui já são mais de 20 milhões), como o seu casamento relâmpago no início do ano. Segundo, a sua presença num protesto. Apesar de dizer que não é expert em matéria de feminismo, nem fingir ser, Emily tem uma voz e não pretende ficar calada. E terceiro, Ratajkowski não estava sozinha; estava com um «ser humano fantástico», a atriz Amy Schumer.

Sua amiga pessoal, é Amy que Emily refere como o exemplo perfeito da máquina de rótulos de Hollywood, que atua mais sobre as mulheres. «A forma como as pessoas pensam nela como se ela fosse apenas engraçada e gorda é péssimo. Até porque ela é atraente – ou pelo menos eu acho que é –, é inteligente e bastante séria até», diz. «Ela tem ideias muito relevantes e interessantes. Sim, são engracadas, porque fazem rir e chocam as pessoas quando as ouvem por ela ser tão direta na forma como as diz, mas ela tem tanto potencial».

Não é difícil perceber o fascínio do mundo com Emily. Os homens adoram-na (se me servirem de exemplo as múltiplas mensagens de amigos heterossexuais quando souberam que a tinha conhecido) e as mulheres gostam da forma descomplicada com que defende os seus ideais de igualdade sem ter qualquer pudor em expor a sua sensualidade pelo caminho.

O teu nome é um dos que inevitavelmente se menciona quando se fala de celebridades e feminismo. Qual é a tua própria interpretação do feminismo?

Para mim, é liberdade de escolha para as mulheres serem quem querem ser. É respeito pelas opções que as mulheres fazem.

Como te sentes quando te referem como feminista?

Às vezes é esmagador porque não sou académica, não sou intelectual nem nunca tentei fazer-me passar por tal. Mas penso que podes aprender muito através da cultura pop e eu faço parte dessa cultura neste momento. Faz parte de quem sou e da minha profissão e seria completamente louco perder a oportunidade de falar sobre estes assuntos. Apesar de não querer apresentar-me como uma especialista na matéria, é importante para mim apresentar as minhas ideias sobre este tema.

Por não seres uma académica desta área, achas que te retraíste nas tuas afirmações porque tens receio dos teus comentários serem alvo de atenção extra?

Bem… Sim, mas cresci numa casa onde era lançado um tema ao jantar e toda a gente o discutia até ao limite para depois voltar à ideia inicial. O meu avô sempre disse à minha mãe: «Nós não falamos sobre pessoas; nós falamos sobre ideias». Atenção, adoro falar sobre pessoas também, mas sou da opinião de que quando te é dada uma plataforma, é uma perda enorme não falar sobre ideias. E não finjo ter todas as respostas, mas penso que iniciar a conversa é o mais importante.

Tens dúvidas, por isso fazes as questões.

Certo. Eu cresci nessa mesa de jantar, onde falas e fazes todas as perguntas. De certa forma, vejo esta situação como se todos estivéssemos à mesa de jantar da minha casa.

Focando na tua família, falas abertamente sobre a importância da tua mãe na construção da tua autoconfiança.

Sim, sem dúvida. A minha mãe foi criada numa família onde, apesar de ela ser uma mulher linda, sempre lhe disseram para ela ultrapassar isso e ser inteligente, bem sucedida.

Ela é professora universitária, certo?

Sim. É professora de literatura inglesa. Obcecada pela carreira académica, está a escrever um livro neste momento. Está sempre a testar os seus limites e a tentar ser a pessoa mais inteligente da sala. É isso que é importante para ela. Mas acho que depois de ter uma filha, ela começou a reparar na forma como as pessoas me tratavam, porque o meu corpo se desenvolveu quando eu era ainda muito nova. E penso que uma parte dela que esteve adormecida toda a vida dela se sentiu zangada e protetora de mim. Tipo: «Porque é que a minha filha não se deve sentir bem com ela própria? Sim, ela é inteligente e vai fazer coisas muito boas, mas, ao mesmo tempo, ela não tem de se sentir envergonhada por ser como é», percebes? Acho que ela não esperava que as coisas tomassem estas proporções, mas teve um impacto real em mim.

A tua mãe segue-te no Instagram?

Sim.

O que é que ela acha das tuas fotografias?

Ela adora-as. Os meus pais ainda me vêem como a bebé deles… As pessoas perguntam-me sempre «E o teu pai, o que é que ele diz?» e ele nem regista que pode haver algo mais sexual. É mais do género: «Olha a minha filha!». Eles vêem fotografias dos paparazzi e ligam-me para dizer «Filha, estés com um ar cansado. Tens-te alimentado bem?» Se sabem que estou feliz, ótimo. É só isso que eles querem saber.

Tens imensos seguidores no Instagram. Isto cria-te algum tipo de pressão até na produção de conteúdo?

É estranho porque uma parte de mim pensa que se me preocupar com isso, vou enlouquecer. E, também, o meu conteúdo vai deixar de ser tão honesto porque vou estar preocupada se as pessoas gostam ou não. Por vezes, publicas fotos que sabes que vão ser populares, mas deve ir pelo conceito geral. Penso que é um equilíbrio. Sim, sinto a presão, mas também tento relembrar-me que se ceder a essas pressões, perco o elemento de diversão e de autenticidade.

Lês os comentários?

Não. E acredito que ninguém devia ler os comentários. Gosto imenso que agora os comentários dos meus amigos que sigo no Instagram apareçam em primeiro lugar. Assim, consigo ver o que os meus amigos escrevem e estou sempre feliz. Às vezes também vejo outros comentários, tipo os da Kim Kardashian, e começo a fazer scroll e vejo mais dois e desisto. Tipo: «Não, não consigo». É importante ter a perfeita noção de que as pessoas se escondem atrás de computadores. A maior parte das vezes, elas nem querem saber de mim. Não sou bem eu que as estou a irritar. Por outro lado, também acho importante perceberes que até as coisas simpáticas que dizem sobre ti não são para levar a sério.

Por causa do ego?

Também, mas principalmente porque se começas a importar-te em demasia com as coisas boas, também o vais fazer com as coisas negativas. É uma questão de tudo ou nada. Por exemplo: quando eu e o meu marido começámos a namorar ele dizia-me: «És linda e tu sabes», e eu respondia «Não percebes que, para mim, tu dizeres-me isso a mim, é a única coisa que interessa; mais ninguém me consegue provocar esse sentimento. Para ti pode ser engraçado, mas para mim tu és a única pessoa que me interessa que diga isso na vida real». Os outros não me conhecem, por isso não quero saber. Agradeço, mas não.

As pessoas começam a reconhecer-te como atriz. Com a moda e as redes sociais, qual é o rumo que queres que a tua carreira tome?

Durante muito tempo, a minha ideia era: «Estou a trabalhar, ótimo» e agora estou mais do género «Okay, o que quero fazer? Qual o meu próximo passo? Qual o projeto que quero fazer parte de?». Vamos ver isto numa perspetiva mais global, tentar perceber como fazer acontecer os projetos que quero fazer em vez de ficar à espera por uma chamada com a proposta.

Agora és tu que tomas a iniciativa.

Exacto. É esse potencial que me está a entusiasmar agora e eu tenho tanta sorte em trabalhar com pessoas tão fantásticas em projetos igualmente fantásticos. Mas, em última instância, quero controlar mais a narrativa.