Emilia Clarke Fala Sobre «A Guerra dos Tronos», A Família e Ser Uma Celebridade

Com o fim da série, a Mãe dos Dragões parte agora à conquista do grande ecrã. Por: Patrick Williams -- Imagens: © Carter Smith

Tem um sorriso radiante e uma enorme tendência para ataques de riso. É assim Emilia Clarke, 32 anos, atualmente uma das estrelas mais brilhantes de Hollywood. Ao longo dos sete anos em que participou n’A Guerra dos Tronos, a atriz britânica foi conquistando a fama mundial com o seu papel de Daenerys Targaryen, rainha altiva de longos cabelos cinzentos, Mãe dos Dragões e Protetora do Reino. Um papel que deixou para trás este verão, quando chegou ao fim das filmagens da oitava e última temporada, com estreia marcada para abril de 2019. A série marcou-a para sempre: «Estávamos todos a chorar durante as filmagens». E nós também choramos.

A atriz, hoje famosa no mundo inteiro, foi escolhida para entrar em Han Solo: Uma História de Star Wars, um spin-off da saga Star Wars (previsto chegar a Portugal em maio de 2019) e continua a multiplicar projetos cinematográficos de prestígio. Sem contar com o novo papel como rosto do perfume The Only One da marca Dolce & Gabbana. Quando falamos com Emilia Clarke, é fácil perceber que ela tem qualquer coisa de especial. É o exemplo perfeito do que é ser uma estrela em 2019. Fomos conhecê-la melhor.

Celebridade 2.0

Se é daquelas pessoas que nunca viu um episódio de Guerra dos Tronos, o nome Emilia Clarke pode não lhe dizer nada. Mas se, pelo contrário, faz parte dos (imensos) fãs da série, para si esta atriz é uma verdadeira musa. É aqui que reside o paradoxo de Emilia. Na época do triunfo das séries de televisão, a sua fama – criada a partir de um só papel! – ultrapassa mesmo a de algumas atrizes que já fizeram vários filmes… Por esta razão, criou um laço muito forte com o seu público, que a foi vendo evoluir ao longo dos anos.

«Há um paralelo entre mim e a Daenerys», explica. «A minha personagem ganhou importância com o tempo, tornou-se mais forte e poderosa ao longo das temporadas e eu, simultaneamente, fui ganhando confiança em mim própria como mulher e atriz. E a série foi tendo cada vez mais sucesso. Como não ficar marcada para a vida com um papel destes?». Quando uma série desta dimensão termina, é difícil para o público e para os atores não sentirem uma certa tristeza. «Dizer adeus à Guerra dos Tronos não foi fácil. É uma experiência existencial, como quando saímos de casa dos pais para iniciarmos a nossa vida. Ficamos contentes por irmos viver novas aventuras, mas ao mesmo tempo sentimos o coração partido por tudo aquilo que deixamos para trás. Tinha 24 anos quando comecei a interpretar este papel. Foi algo muito importante na minha vida de jovem adulta».

De bem na sua pele

Tal como algumas atrizes da sua geração, Emilia é um exemplo de equilíbrio. Não há saídas até de manhã, nem excessos de qualquer tipo. Crescida e educada no campo, no interior de Inglaterra (a uma hora de Londres), a atriz foi sempre muito próxima dos seus pais – um engenheiro de som que trabalhava num teatro e uma mulher de negócios que dirige uma fundação para vítimas de acidentes cerebrais. Emilia Clarke faz parte daquele tipo de pessoas que adoram os pais (sim, isto existe!).

«Quando acabou a Guerra dos Tronos fiz uma tatuagem no pulso com três dragões, para nunca me esquecer de quanto devo a esta série. Mas também porque me faz lembrar o meu irmão, a minha mãe e o meu pai. Perdi o meu pai há dois anos, por isso esta tatuagem é ainda mais importante para mim. Foi muito difícil. Quero que a minha família esteja sempre comigo».

Com bases assim tão sólidas, não foi difícil para a jovem atriz enfrentar o sucesso. Nem deixar que ele lhe subisse à cabeça. Munida do bom senso próprio dos millennials, Emilia Clarke podia escrever um livro de desenvolvimento pessoal de tal forma que emana maturidade. «Tentei não prestar muita atenção ao sucesso. Sei que o mundo do cinema muda muito rapidamente, é muito instável. O que as pessoas gostam hoje podem já não gostar amanhã… Nunca quis pôr-me numa situação em que poderia ser afetada por um decréscimo de notoriedade. Se as coisas correrem bem, ótimo. Se correrem mal, não é grave».

A rainha da proximidade

Ao contrário da sua personagem de rainha austera e majestosa, Emilia está sempre a rir. No Instagram ou nos talk-shows, não esconde que gosta de brincar consigo própria e que é bem-disposta. «Gosto muito de me divertir», confessa. «Na verdade, tento sempre tirar o melhor partido de cada situação. Um dia, um amigo meu que é ator tinha de ir fazer a promoção de um filme, mas estava estafado e não lhe apetecia nada ir. Consegui pô-lo tão bem-disposto que ele acabou por encontrar a força para ir… Acredito mesmo que é preciso sabermos rir das coisas, quaisquer que sejam as circunstâncias. Torna tudo muito mais fácil de suportar».

Com uma grande serenidade, nunca se preocupou com o facto de não a reconhecerem na rua. Aliás, sem a cabeleira prateada e os trajes medievais d’A Guerra dos Tronos, não é fácil adivinhar no dia-a-dia que é ela que incarna Daenerys Targaryen. «Dá-me imenso jeito», acrescenta. «Claro que gosto de saber que as pessoas gostam do meu trabalho na série. Mas, ao mesmo tempo, é sempre estranho quando pessoas que não conhecemos nos abordam. Felizmente, tenho um pequeno grupo de amigos e uma família que me fazem voltar a pôr os pés na terra imediatamente se eu começar a ficar com manias. Dizem-me coisas do estilo: ‘Porque é que esta pessoa está a falar contigo? Ah, esqueci-me, tu és famosa…’».

Atriz formada (saiu do prestigiado Drama Centre London), jovem ávida de leituras e novos conhecimentos (tem uma locução e vocabulário muitíssimo refinados), exerce a sua profissão como uma arte à qual consagra toda a sua energia. Ao ponto de, por vezes, se esquecer da vida amorosa…. Esteve solteira durante muito tempo, mas recentemente, no final de Outubro, confirmou através do Instagram que vivia uma história de amor com o realizador Charlie McDowell, de 35 anos. Será que a rainha encontrou o seu rei?

A arte de ser sofisticada

Na campanha do perfume The Only One da marca Dolce & Gabbana, usa um pequeno vestido preto que lhe assenta como uma luva. «Adoro esta imagem à Sophia Loren, de uma mulher forte, simples e bela. Este ambiente de dolce vita fala a todas as mulheres. É fácil identi carmo-nos com esta feminilidade e este à vontade consigo própria. Não po- deria sonhar com nada melhor do que vestir a pele de uma bela italiana que canta numa trattoria». Até porque cantar é uma das outras paixões de Emilia – herdada do pai – e a atriz pondera mesmo gravar algumas canções um dia destes.

Sem medo de falar

Em 2014, Emilia Clarke negociou arduamente com os produtores d’A Guerra dos Tronos até conseguir ter uma remuneração igual à dos seus parceiros masculinos. Uma questão lógica de paridade para uma mulher empenhada, nomeadamente no movimento Times’Up, que luta contra o assédio sexual em Hollywood. Isto explica a forma como quer gerir a sua carreira. «Adoro ser atriz. É a minha vida toda. Mas no futuro quero investir mais na produção, estar onde as grandes decisões são tomadas. Nesta profissão, o ideal é iniciarmos os projetos artísticos nos quais queremos participar. É a melhor forma de nos realizarmos plenamente».

Com o papel de Daenerys Targaryen, rainha legítima afastada do trono que se liberta das suas correntes e lidera uma armada de oprimidos, Emilia Clarke passou a ser vista como um ícone feminista e uma figura do empoderamento. Para além disso, na vida real, não hesita em criticar o Brexit, em apoiar as enfermeiras inglesas ou em preocupar-se com a crise que o sistema de saúde britânico atravessa.

Não é cansativo, ser um modelo a seguir? «Não, porque ter um palco para nos exprimirmos é fantástico e isto pode incitar outras mulheres a falarem. Claro que existe uma certa pressão. Mas se as pessoas forem honestas consigo próprias e com os outros, se falarem sobre as suas fragilidades, as suas dificuldades, é mais fácil serem ouvidas. Sempre estive convencida que os meus problemas são exatamente os mesmos das outras pessoas…». Aqui está uma rainha que sabe como é importante estar bem perto dos seus súbditos.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de março de 2019.