Claudia Schiffer Fala Sobre a Vida Enquanto Supermodelo e os Novos Projetos

A propósito dos seus 30 anos de carreira, sentámo-nos com a supermodelo. Imagens: © Ellen Von Unwerth -- Styling: Jeanne Le Bault

«Quando Claudia apareceu no mundo da moda, foi como o nascer do sol: e o sol ainda brilha », recorda Karl Lagerfeld. E quando alguém a conhece, geralmente, a primeira impressão é basicamente “wow”. Lembro-me de estar nos bastidores da Chanel, nos anos 90, e de a ver surgir, no meio do caos habitual, quase como uma aparição divina. Literalmente, não conseguia parar de olhar para ela. Hoje, a aura de 1.80m está à minha frente. E eu não estou desiludida. São nove da da manhã, em Londres, estamos no Spring Studio e Claudia chegou mesmo a horas.

Com o cabelo ainda húmido e sem maquilhagem, Schiffer veste uma camisola curta, com riscas vermelhas e beges, e uns jeans com as bainhas desfiadas – uma combinação que realça a eterna sensualidade das suas curvas e o inacreditável (estreito) tamanho da sua cintura. Os quarentas ficam-lhe bem.

Entretanto Ellen Von Unwerth, a fotógrafa, entra pela porta. O entusiasmo é real: beijam-se, abraçam-se, riem-se e posam para selfies, como duas adolescentes eufóricas por se reencontrarem. A última sessão fotográfica na qual trabalharam juntas também foi para a ELLE: há mais de 10 anos, numa edição especial que assinalou os 20 anos de Schiffer na indústria da Moda. Hoje estamos aqui para assinalar os seus 30 anos de carreira.

Como é que tudo começou?

Dançando ao som de You Spin Me Round, numa discoteca em Dusseldorf. Foi quando um scouter [Michael Levaton] me encontrou. Do nada, perguntou- me se queria ser modelo. Eu pensei que ele estava a gozar e perguntei-lhe se estava a falar da minha melhor amiga, que, na minha opinião, era melhor candidata. No espaço de poucas semanas dei por mim em Paris! E eu nem sequer tinha planeado ir sair naquela noite, por isso, passados 30 anos olho para trás e consigo perceber o quão importante foi aquele momento. Às vezes ainda me belisco, para ter a certeza que não estou a sonhar.

Lembra-se do primeiro encontro com a diretora de casting, Odile Sarron, na Elle Francesa?

Tinha ouvido dizer que a Odile estava a transformar jovens modelos em estrelas na indústria da moda, por isso estava particularmente entusiasmada. Mas também estava nervosa por a ir conhecer pela primeira vez, tinha ouvido tanta coisa sobre ela. Tive sorte e a partir do dia seguinte fui contratada, sem parar, para uma série de produções para diferentes revistas Elle: numa semana, viajei das Seychelles para a Noruega, passando ainda pelo México. E não parou por aí.

A sua primeira campanha foi para a Guess. E tem uma história incrível. Pode partilhá-la connosco?

Quando cheguei a Paris, uma das minhas primeiras sessões fotográficas foi nas ruas de Paris, com a minha própria roupa e com a Ellen, que na altura também estava a começar a sua carreira, a fotografar. A Guess viu estas fotografias e no dia seguinte eu e a Ellen assinámos um contrato de vários anos [sete] com a marca. Depois da primeira campanha da Guess sair, estava, um dia de manhã, ainda com olhos de sono, a sair do elevador, do meu apartamento em Nova Iorque, e alguém me abordou e perguntou: “É a rapariga da Guess?”.

Como é ser “a” Claudia Schiffer? Viver sob o escrutínio da fama é um desafio?

Eu não me vejo dessa forma. A minha família mantém-me com os pés bem assentes na terra e eu tenho a sorte de ter amigos desligados deste universo. No entanto, quando há uma grande sessão fotográfica eles gozam com a situação e pedem-me para fazer a minha melhor pose.

É difícil manter o entusiasmo pela moda, depois de uma carreira tão longa?

De todo. É uma indústria que está constantemente a mudar e a evoluir e onde há uma enorme variedade de pessoas talentosas e criativas com quem trabalhar. E além disso, eu já estou numa fase da minha carreira em que posso ser mais seletiva e assumir também vários papéis criativos.

Os desfiles dos anos 90 eram muito teatrais. Qual é que foi o seu desfile preferido dessa época?

Adorei trabalhar com o Gianni Versace, que ajudou a redefinir o formato dos desfiles de moda. Como a moda, a música e a arte começaram a convergir, o impacto dos seus desfiles sentiu-se para lá da indústria. Éramos capazes de desfilar, ao som de uma música maravilhosa do Prince, com centenas de fotógrafos ao redor da passerelle, só para o ver [ao Prince] sentado na primeira fila. Além disso, o meu desfile preferido vai ser sempre o da Chanel, porque foi a primeira vez que pisei uma passerelle. O Karl [Lagerfeld] estava basicamente a olhar por mim, porque eu estava super nervosa. Trabalhar com o Karl foi sempre um sonho e, escusado será dizer, sempre tive o maior orgulho em participar nos seus desfiles e em usar as peças que criava.

Lembra-se de algum momento dramático nos bastidores?

Quando havia muitos paparazzi, os guarda-costas tinham de nos escoltar para fora e para dentro da sala de desfiles, mas, mesmo assim, alguns conseguiam entrar nos bastidores, o que era uma loucura. Lembro-me de voltar aos bastidores, depois de um desfile, e descobrir que a minha roupa interior tinha sido roubada, por isso, a partir daí, tinha sempre um segurança a guardar a minha roupa interior!

Para que criador desfilaria agora?

Já não faço desfiles. Claro que desfilei para a Donatella [Versace] com algumas das outras supermodelos, mas isso foi uma ocasião especial, foi um tributo ao Gianni e para apoiar a Donatella. Em termos de criadores mais jovens, há muitos, mas, certamente, que o Oliver [Rousteing, diretor criativo da Balmain] é o primeiro que me vem à cabeça. Tem imenso talento, mas também combina ambição e profissionalismo com uma sinceridade incrível.

E como foi o reencontro com a Naomi, a Cindy e a Carla para o desfile da Versace, no ano passado?

Em primeiro lugar, estávamos lá para relembrar o Gianni e apoiar a Donatella, mas, quanto à nossa relação, é sempre como um reencontro de colegas de liceu. Há uma ligação entre nós por termos experienciado tantas coisas juntas.

 

«A minha energia vem de um amor genuíno pelo que faço.»

 

Como é que a sua abordagem à moda mudou, depois de 30 anos na indústria?

Acho que a minha abordagem a nível pessoal é quase a mesma, mas o ritmo foi aumentado. O crescimento das redes sociais teve, obviamente, um efeito tremendo e empoderador, permintindo-nos ter uma relação direta com os nossos fãs.

Ficou surpreendida pelo movimento #MeToo? Alguma vez se sentiu desconfortável na sua carreira?

Numa indústria em que sabemos que estes problemas existem, sempre fui resiliente e tive sorte. Mas lembro-me bem de ser jovem e vulnerável. No entanto, tive sorte e não tenho uma história negativa para contar. Acho que a maioria destas causas, como o movimento #MeToo, e as redes sociais no geral, tiveram um impacto positivo na transparência e na liberdade de expressão.

Fora do trabalho, compra Moda de forma consciente?

Tenho uma noção muito clara daquilo que é o meu estilo. Sei o que me fica bem, por isso há uma série de peças para as quais gravito naturalmente. Também continuo atenta aos desfiles e gosto de experimentar coisas novas, se fizerem sentido para mim. É muito instintivo e guardei tanta coisa ao longo destes anos todos de carreira, que muitas vezes vou buscar coisas ao meu “arquivo”.

Pode falar-nos dos vários projetos que tem desenvolvido nos últimos tempos?

O ano passado celebrei o meu 30º aniversário de carreira com uma série de projetos, incluindo o lançamento de um livro, editado pela Rizzoli, com os momentos mais memoráveis da minha vida profissional. Também fui a produtora executiva de um filme do meu marido, Kingsman: O Círculo Dourado. Entretanto estou a lançar três coleções de edição limitada.
A primeira é uma linha de sapatos com o incrível Edgardo Osorio da Aquazzura, que inclui desde botas de cano alto em padrão leopardo a uns botins em lurex prateado. É uma linha com peças para usar do dia à noite. Tenho também a minha coleção de maquilhagem, para o outono-inverno. E, por fim, vou apresentar mais uma coleção da minha linha de collants, a Claudia Schiffer Legs.

Como é que foi criar a coleção de maquilhagem?

A minha abordagem tem sempre uma linha de raciocínio semelhante: tem importância para mim? A marca com quem vou trabalhar é a melhor na sua área? Consigo criar um produto que eu use e goste? A somar a isto, nesta coleção pude aplicar todos os truques de beleza que aprendi, ao longo de 30 anos, com os melhores profissionais da área. Depois, tendo em consideração aqueles dias em que só queremos uma pele com um brilho saudável e aqueles em que só o glamour absoluto é suficiente, criei quatro looks icónicos e intemporais, assim como os produtos essenciais para os conseguir concretizar facilmente.

Parece incansável. De onde vem toda essa energia?

A minha energia vem de um amor genuíno pelo que faço. A minha carreira como modelo abriu-me portas para um universo de criatividade e permitiu-me conhecer os melhores dos melhores, nos mais diversos campos artísticos. Sinto-me muito abençoada por poder, neste ponto da minha carreira, escolher o que quero fazer a seguir. E sempre tive o cuidado de não achar que estava tudo garantido.

De que lado gosta mais: de ser modelo ou designer?

Gosto de ambos e, por vezes, para alguns projetos, como foi o caso da minha parceria com a Aquazzura, estou nos dois lados. Acima de tudo, gosto de trabalhar em projetos que me permitam ser criativa e fomentar relações autênticas.

É casada há 15 anos (com o realizador de cinema inglês Matthew Vaughn). Do seu ponto de vista, qual é o segredo para uma relação duradoura?

Casar com a tua alma gémea e o teu melhor amigo.

Como é o seu dia a dia?

Em constante movimento, que é como eu gosto. Encontrar o equilíbrio perfeito entre o trabalho e a família tem tudo a ver com planeamento.

Tem três filhos, um rapaz e duas raparigas. Está a educá-los de forma diferente?

Não. Exatamente da mesma maneira. Ainda são pequenos, mas o meu objetivo é que sejam saudáveis e felizes. Profissionalmente, espero que encontrem uma carreira que os apaixone e lhes traga felicidade.

Para terminar, nestes 30 anos, qual foi a maior loucura que lhe aconteceu?

Algumas situações que vivi foram uma verdadeira loucura, tipo beber chá com a Princesa Diana e com a Rainha, ou receber cartas de amor do Prince.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de outubro de 2018.