Cindy Crawford: «Depois de Ser Mãe, Já Não Conseguia Treinar da Mesma Maneira»

A modelo esteve em Lisboa e é tão alta como parece. Por: Margarida Brito Paes -- Imagens: © D.R.

Cindy Crawford chegou e a Avenida da Liberdade parou para a ver. À porta da nova loja da Omega, juntaram-se vários fotografos e fãs para ver a mais antiga embaixadora da marca cortar a fita inaugural. Antes do momento solene esta verdadeira lenda da moda, teve uma conversa com vários jornalistas onde falou sobre o seu medo de envelhecer, cuidados de beleza, questões levantadas pelo feminismo em relação à moda e à privacidade dos modelos, mas também sobre as redes sociais e a diversidade cada vez maior na moda.

Primeiras impressões sobre a mulher com o sinal mais famoso do mundo?! É mesmo tão alta como parece, o sinal não se nota assim tanto e aparentemente adora cor de rosa (apareceu vestida integralmente nesta cor e com um batom a condizer, apesar de ser discreto).

A modelo que foi capa da Elle Portugal quatro vezes, e numa delas também chegou às leitoras através de uma cassete de exercício físico, está mais velha e não tem medo de confessar que a sua relação com a idade não é pacífica. «Fazer 50 anos não foi algo que desejasse. Mas depois aconteceu e pensei: ‘Ó, continuo a ser eu’. E a verdade é que as coisas mudam e tu notas isso. Não interessa quanto sumo verde bebas, quando exercício faças… Continuas a envelhecer! Por isso é que acho que é super importante trabalhar todos os outros aspetos da nossa vida: a filantropia, as relações, ter amigas com quem te possas rir da idade. Ter uma vida equilibrada é fundamental», confessa Cindy Crawford, agora com 53 anos.

Apesar desta relação complicada que a modelo acredita fazer parte da vida, porque envelhecer «não é fácil para ninguém», a mãe de Kaia Gerber continua a ter um corpo impressionante para idade. Qual é o segredo?!  (Estávamos com esperança que Cindy nos desvendasse um elixir secreto para a juventude, mas não foi isso que aconteceu). Tem mesmo tudo a ver com os genes – e quanto a isso não podemos fazer nada – e com os bons hábitos de vida – vamos encarar esta revelação com uma motivação extra para ir ao ginásio e comer bem. «A genética desempenha um papel muito importante. Até ao ano passado, tive as minhas duas avós comigo. Sou uma sortudaMas não há segredos, só tudo aquilo que já sabemos — não fumo, faço exercício físico regularmente desde os 20 anos, nem sempre durmo o suficiente mas faço os possíveis [para que isso aconteça], uso sempre protetor solar, tenho cuidado com a comida que ponho no meu corpo. São tudo coisas que já sabemos, mas temos de as fazer todos os dias. Além disso, é preciso respeitarmos o nosso corpo. Por exemplo, depois de ser mãe, já não conseguia treinar da mesma maneira. Estava tão cansada que não conseguia. É preciso compreender e respeitar a fase da vida em que estamos», contou.

Elle Portugal, junho de 1997.

Modelo aos 53 anos? A culpa é das redes sociais.

Aos 53 anos, Cindy Crawford continua a fazer capas de revista, a dar a cara por vários projetos e a lançar seus próprio produtos, como é o caso das máscaras de olhos que lançou em parceria com a Meaningful Beauty, em março de 2019. A culpa desta carreira que se estendeu muito além da idade em que geralmente as modelos começam a perder trabalhos, por volta dos 30 anos, deve-se, segundo Cindy, à enorme revolução provocada na indústria da moda pelas redes sociais.

«Uma das grandes vantagens das redes sociais é conseguirmos ser os nossos próprios publicistas. Estas plataformas dão-nos a oportunidade de nos apresentarmos aos outros da forma como nos vemos», explicou aos jornalistas. «Durante muito tempo tivemos apenas um padrão de beleza, hoje em dia as marcas estão cada vez mais abertas a vários padrões de beleza e por isso são cada vez mais diversas e representativas. A moda está, sim, mais inclusiva. Por causa das redes sociais, que mostram as mulheres reais, com diferentes tons de pele, diferentes corpos e várias idades, as mulheres começaram a dizer: ‘Então e nós?! Queremos ser representadas. Queremos roupa que nos fique bem, queremos uma base com o nosso tom’. Acho que uma grande parte dos consumidores são mulheres da minha idade. Elas querem ver-se representadas e não comprar um creme cuja imagem é uma miúda como a minha filha. Sejamos sinceros, aos 16 anos toda a gente tem a pele perfeita, a não ser que tenha borbulhas. Hoje existe um espaço para as jovens modelos, mas também para uma representatividade mais real. Até eu estou mais interessada em algo que comunique comigo através de uma mulher da minha idade. Ou mais velha, se ela tiver mais dez anos do que eu e estiver ótima, vou querer saber o que é que ela está a fazer porque está a resultar».

Esta diversidade na moda permite a Cindy Crawford continuar a sua carreira, e o melhor espelho disso é a sua conta de Instagram com 4 milhões de fãs. É no aparecimento e importância desta rede social que a top model dos anos 90 acredita residir a grande diferença entre ser modelo nos dias de hoje e no final do século passado. «Ser modelo é mais ou menos igual — ou estás a percorrer uma passarelle ou ficas em frente a uma câmara. A diferença são as redes sociais. Tu não podes estar fora delas se quiseres ser atriz ou modelo. As pessoas olham para as redes sociais. Podes conseguir ou não conseguir um trabalho em função das tuas redes sociais, do número de seguidores e do engagement que tens com eles».

O feminismo e a exposição do corpo

Numa altura em que tanto se fala da proteção da privacidade das modelos e em que o movimento #MeToo trouxe a lume tantos casos de modelos que viram o seu corpo exposto de um forma indesejada, era impossível não perguntar se Cindy alguma vez passou pela mesma experiência. «Honestamente, nunca tive uma má experiência. Talvez tenha tido apenas sorte, mas nunca tive uma má experiência com um fotógrafo, nem nos bastidores de um desfile. Hoje em dia há muito mais gente nos bastidores, muito mais pessoas querem gerar conteúdo, por causa das redes sociais. E, por isso, talvez esse espaço sagrado [os bastidores] tenha começado a ser violado por cada vez mais pessoas e que, desse modo, haja mais proteção para garantir privacidade. Mas sei que a Kaia também nunca teve uma má experiência».

«Já fiz catálogos e já fiz fotografias sensuais. Para mim, o importante foi sempre a forma como me sentia no estúdio, se estava ou não confortável com aquele fotógrafo, se estava confortável ou não com o que me pedia, e isso é diferente para todas as pessoas. E é por isso que ser modelo sempre foi empoderador para mim, porque sempre fui capaz de dizer ‘não’ a certas coisas. Discute-se muito se ser modelo é feminista ou é anti-feminista, mas sempre que uma mulher toma uma decisão por si mesma, isso vai ser empoderador», acrescentou Cindy Crawford.

Em Lisboa pela primeira vez, com a Omega há uma vida

«Estou casada com a Omega há mais tempo do que com o meu marido, e nunca tivemos uma discussão», é assim que Cindy Crawford gosta de explicar a sua relação de longa data com a marca. A modelo é a sua embaixadora mais antiga e em parceria com esta já fez inúmeras viagens, envolveu-se nos projetos solidários da insígnia e até ajudou a redesenhar um dos seus modelos mais icónicos, o Constellation.

«A primeira vez que trabalhei com a Omega era só para fazer uma fotografia. Mas, depois, convidaram-me para fazer um evento com eles. Mais tarde fui aos escritórios da Omega e aprendi muito sobre a arte de fazer relógios. Aprendi a respeitar esta marca que tem mais de 150 anos. Acho que foi um bom encontro». Um encontro que deu origem a uma parceria que dura até hoje. Foi esta relação de anos que trouxe Cindy pela primeira vez a Lisboa e bastam alguns dias para que o rosto da Omega se rendesse à cidade.

«Estou muito entusiasmada, já tinha ouvido falar tanto desta cidade. Cheguei na segunda-feira. Fui ao Panteão, ao Castelo de São Jorge, ao Mosteiro dos Jerónimos. Adorei a sensação de simplesmente andar pelas ruas. Acabei por prolongar a estadia mais um dia, porque quero ir a Cascais e a Sintra» disse a modelo, que ainda gabou o bom tempo lisboeta e confessou ter ficado rendida à gastronomia portuguesa. No entanto, conseguiu resistir a comer uma caixa inteira de Pastéis de Bélem, tendo ficado apenas pelo primeiro. No fundo, é esta a grande diferença que separa os comuns mortais de Cindy Crawford.

Veja na galeria, em cima, as imagens da supermodelo durante a sua visita a Lisboa.