Priyanka Chopra: «Sou muito má no que toca a falhar. Sou uma má perdedora.»

A conversa com Hasan Minhaj que todos queríamos ser moscas para ouvir. Por: Hasan Minhaj -- Imagens: ©Mark Seliger

O nome de Priyanka não lhe deve ser estranho. Afinal, foi coroada Miss Mundo em 2000, quando representou o seu país natal, a Índia; foi protagonista da série Quantico, da americana ABC; e em 2018, teve um casamento de conto de fadas com Nick Jonas. Mas esse não é o foco. Chopra sentou­‑se com Hasan Minhaj, o comediante do The Daily Show, para falar sobre o significado (e os desafios) de se ser indiano em Hollywood.

HASAN MINHAJ: Como consegues desligar ao fim de um longo dia?

PRIYANKA CHOPRA: Tenho um ritual: lavo o meu dia da pele quando volto para casa, literalmente. Primeiro, desmaquilho­‑me. Depois, tomo banho, ouço música e usufruo de um momento só para mim. Às vezes bebo um copo de vinho também.

Vês televisão?

Adoro televisão!

Sentes aquela ansiedade quando estás na Netflix ou na HBO, e ficas tipo: “O que vou ver?” E sentes­‑te divida?

Sim. Não sabes bem o que queres ver. É mesmo desanimador quando começas a ver algo e depois percebes que não presta. Então, de repente, meia hora depois, ainda não escolheste. Mas eu tenho uma solução: os amigos e a família vêem televisão, por isso pergunto-lhes sobre trailers ou algo que tenham visto e recomendem e assim decido à partida os programas em que quero investir o meu tempo ou não.

Qual é a tua solução para quando os teus amigos dizem: “A temporada um e dois são um pouco calmas, mas a temporada três é ótima”. Não é bem a minha cena.

Não consigo assumir o compromisso e despender o meu tempo e a minha energia. Sou muito crítica sobre a televisão que consumo, o que explica o facto de agora fazer televisão. Penso que sou um pouco snob por não inventar desculpas. Se não gosto do episódio piloto, não avanço.

Gostaste do piloto de Quantico?

Claro que sim, adorei o episódio piloto. Uma personagem destemida como a Alex e os restantes atores com personagens fortes e muito bem escritas. A diversidade, a cultura… Tudo é interessante.

Tiveste que ir a uma audição, certo?

Sim. Foi uma das minhas primeiras audições depois de fazer 50 filmes. Foi muito engraçado. A parte mais assustadora é que o papel era para uma mulher americana. Eu não sou americana­‑indiana. Eu sou 100% indiana. Tentar convencer os americanos todos os domingos de que sou Alex Parish, filha de um caucasiano e de uma indiana, e que sou americana, e que vou salvar o país… Esse foi meu maior desafio.

Eu sei… Admiro-os muito, vocês, atores à séria, e o trabalho que fazem.

É tão difícil, Hasan. Nem estou a brincar. Fiz filmes em indiano marathi e punjabi, e isso também foi difícil. As minhas línguas maternas são hindi e inglês. Para convencer os espetadores de que falo marathi ou punjabi é difícil. Lembro­‑me de que quando comecei Quantico houve toda uma conversa sobre “será que devemos mudar o nome de Alex para uma opção indiana?” A série não foi escrita para uma mulher indiana. Mas, de repente, eu estava a ser considera para esse papel. Lembro­‑me de dizer ao Josh (Joshua Safran, produtor) que o meu trabalho, como atriz, é de convencê­‑lo de que posso ser Alex Parish. E se ele tivesse que mudar o nome e ajustá­‑lo a mim e à minha fisionomia, então não valia a pena. Quer dizer, eu sou mais do que a minha etnia, mais do que as minhas origens. Sou atriz e preciso de ter essa versatilidade.

Isso é tão gangster. Eu mudaria o nome.

Mas sabes, é isso que acontece connosco, enquanto sul­‑asiáticos. Somos arrastados para a categoria do “podemos ser como”. Quanto mais colocamos as pessoas numa caixa, mais estamos a generalizar e a estereotipar… Isto é algo tão pessoal para mim. Sinto que vemos atores de etnias diferentes, sejam eles negros, caucasianos, do Sudeste Asiático, e por vezes [eles] e achamos que eles se “safam” a interpretar personagens americanas, ninguém os questiona. Porque é que nós somos questionados? Porque é que eu tenho que explicar que os meus pais emigraram da Índia há 50 anos e é esse o motivo de eu existir aqui? Americanos com origem na Ásia Meridional de terceira ou quarta geração não deveriam precisar de explicar a sua existência no seu país, ou até mesmo os de primeira ou segunda geração, que são tão americanos [como qualquer outra pessoa]. A Alex é essa personagem; A Priyanka não é. Eu sou totalmente indiana.

Sabes aquela sensação de ter tetos de vidro, com todas as expectativas que são colocadas em nós… Já senti isso ­– é por isso que queria muito que o filme Pantera Negra tivesse um bom desempenho na bilheteira. Porque se corresse da mesma forma que o Lanterna Verde, sem nenhum desrespeito a Ryan Reynolds, mas se fosse assim … Estava tudo acabado. Não havia outra oportunidade para fazermos outro filme assim. Se não funcionar, eles não nos dão outra oportunidade. Alguma vez sentiste isto? Há muita pressão na América, especialmente para pessoas de cor.

Não sei se sinto que eles não nos dariam outra oportunidade porque não me vejo como um messias. Sou apenas uma miúda ambiciosa e motivada, e quero ver a minha carreira a evoluir da melhor forma possível. E na minha caminhada, se conseguir inspirar pessoas, ótimo. Mas sim, sei, não há muita gente que tenha tido a oportunidade que nós tivemos. Vi o piloto [de Quantico] enquanto estava a ser transmitido em Nova York. Estava com tanto medo e pensei: se as pessoas me odeiam ou não criarem uma ligação comigo, vou decepcionar quem acreditou que eu podia ser essa pessoa, que conseguia fazer aquele papel. Senti muito essa pressão.

Somos só nós, performers, que nos sentimos assim? Que se estragarmos isto, não vamos ter outra oportunidade? Ou é algo geral para as pessoas que não são caucasianas?

Acho que quando a conversa envolve pessoas de cor, e quando se trata de mulheres, sempre nos disseram: “A melhor vai ficar com o homem”, ou “A melhor vai conseguir o emprego” e “Não há que chegue para todas”. Acontece a mesma coisa no mundo do entretenimento nos Estados Unidos. Dizem­‑nos que só um de nós vai ficar com o papel na série ou caso contrário, serão muitos indianos… Será um programa de indianos. Percebes? Acho que é por isso que nós sentimos a pressão. Não somos normais na cultura pop. Ainda. E a minha luta é normalizar a nossa presença, olharem para mim e não falarem comigo como… Não dizer “Namasté”, ou “Fui à Índia há cinco anos”.

Conheces os teus limites ou pensas que, enquanto atriz, não tens limites? Acho essa faceta da representação incrível.

Tens que trabalhar. Não há almoços grátis neste mundo. A minha preparação é extremamente sólida. Faço workshops, trabalho com os meus diretores e argumentistas. A personagem torna­‑se a minha melhor amiga. Tenho que a conhecer tão bem… Em Quantico, os argumentistas, realizadores, pessoas da equipa vinham ter comigo e perguntavam: “O que achas da Alex estar a beber nesta cena?” ou “O que estás a pensar?”porque eu é que a conheço. Entre aquilo que lês no papel e vês na televisão está o meu trabalho. A tradução do papel para a vida real é o que me paga o ordenado chorudo que recebo e isso é uma responsabilidade tremenda porque as pessoas assistem e levo isso muito a sério. Muito mesmo.

É por isso que és uma estrela de cinema. Na minha experiência limitada no mundo da representação, é fantástico ver alguém que saiba exatamente o que tem que fazer ­– que conheça todas as possibilidades, alternativas e pontos centrais de uma cena.

É preciso ter experiência. Quando comecei, ensaiava cada cena lendo as falas e dizia a mim mesma: “Okay, é aqui que me vou virar” ou “É aqui que vou ficar chateada”. Mas quando chego ao set de filmagem, tudo acaba por ser mecânico porque já me preparei antes. Com o tempo, descobri que o que sinto de forma orgânica e no momento quando estou no set é quando me transformo na minha personagem.

Ainda ficas deslumbrada quando conheces uma celebridade?

Com atores, não. Mas com músicos sim.

Tipo o Bono ou alguém do género.

O meu aniversário, quando fiz 30 anos, foi realizado na casa do Bono. Foi um momento espetacular. Para mim, o estilo de vida de um rock star é sinónimo de rebeldia, música, criatividade, arte ­– e tudo o que está associado a isso. Ser capaz de tocar música, escrever, ler… Para mim, música é algo tão próximo de Deus. Tem o poder de mudar os teus pensamentos, mudar a tua mente, influenciar as tuas emoções. É tão poderoso. Por isso, quando vejo músicos a fazer aquilo que fazem, no palco ou no estúdio, fico fascinada. Quando estava na minha própria jornada musical, penso que parte do motivo daquilo que fiz foi para poder ter a oportunidade de estar no estúdio com alguns dos artistas mais incríveis do mundo: will.i.am, Pitbull, Pharrell [Williams] e Red One. Eu recebia convites para ir à cerimónia dos Grammy e aos Billboard Music Awards. Saía com o Wiz Khalifa. Foi inacreditável! São momentos como estes, em que não fico deslumbrada, mas enamorada. Tive uma espécie de momento nos Golden Globes com a Meryl Streep. Ela foi tão doce. Aprecio os atores e admiro o trabalho deles porque sei o que é preciso. Mas com músicos, fico fascinada!

Sim, é incrível. Estava no carro hoje e ouvi a música What’s Going On de Marvin Gaye. É tão estranho que esta música passa nas rádios há gerações e, mesmo assim, continua super atual.

Quer dizer, consegues imaginar? É algo que está a outro nível.

Nem todos os filmes permanecem válidos, especialmente comédia ­ – por causa da questão temporal. Há certas coisas que viste quando eras criança, e às vezes pergunto-me: será que os meus filhos vão achar que isto é fixe ou será que vão dizer: “O meu pai era muito foleiro”. Mas a música é mesmo poderosa.

Transcende gerações, fronteiras e idiomas. Há músicas que podem ter o poder de unir o mundo.

Pensas em voltar à música?

Quer dizer, amo música. Vou fazer isto de forma intermitente. Mas nunca vai ser só um capítulo. É demasiado importante para mim. É um processo de aprendizagem, porque não fiz isto de uma forma super profissional. Aprendi enquanto estava a fazer, enquanto produzia, tal como com os filmes. Quando comecei a fazer filmes, não sabia nada sobre esta indústria. Afinal, o meu sonho era ser engenheira aeronáutica. Aprendi a trabalhar na área. E isso não é assim tão difícil de fazer. Quer dizer, é difícil, mas se te focares, consegues. A música vai fazer parte da minha vida para sempre. Vou continuar a experimentar e a fazer coisas. Adoraria explorar novos projetos musicais. Aliás, estou muito dedicada à produção neste momento, tanto nos Estados Unidos como na Índia; projetos para televisão ou filmes regionais. Para mim, a música é parte integrante de todo este universo.

O que ainda te assusta a nível artístico?

O fracasso. Odeio o fracasso. É o meu maior inimigo. Sou muito má no que toca a falhar. Sou uma má perdedora. Sou daquelas pessoas que faz birras. Vou para o meu quarto, sento­‑me no meu cobertor e como pizza. Sou esse tipo de perdedora. Perder qualquer coisa assusta­‑me ­– a minha família, os meus amigos, os meus entes queridos, o meu trabalho. Todos estes cenários assustam­‑me. E os fantasmas também.

Esta é uma questão egoísta Priyanka, mas 2018 foi um ano de muitas mudanças para mim, a nível profissional e pessoal e prevejo que vai ficar ainda mais intenso. Sei que provavelmente já passaste por um momento igual ao longo da tua carreira. Que conselho de amiga poderias partilhar comigo?

Está ciente de que o lugar em que estás é uma oportunidade. Representas pessoas que se parecem contigo (e comigo) por todo todo o mundo, que querem impactar a indútria do entretenimento a um nível global, independentemente da forma como o fazem. Nós temos essa oportunidade. Então, o que te vou dizer é o seguinte: está ciente do quão abençoados somos e quão gratos devemos ser por fazermos o que fazemos. Como sul­‑asiáticos, ainda não temos um lugar à mesa. Ainda temos que empurrar a porta. Estamos à porta a dizer “Ei, estamos aqui”. E pessoas como tu estão a ajudar a que isso mude. Estás a dar oportunidade às pessoas que se parecem contigo e comigo de dizerem: “Há alguém como eu na televisão”. E isso é algo tão poderoso. Está ciente disto e assimila a responsabilidade que o acompanha. Aproveita o processo de estares onde estás e sê fiel à arte.

Isso foi ótimo. Deverias concorrer à presidência.

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de fevereiro de 2019