Chiara Ferragni Fala Sobre o Blogue, os Haters, a Moda e a Família

Sentámo-nos com a indiscutível rainha das redes sociais. Por: Virginie Dolata -- Imagens: © Riccardo Tinelli

Chiara Ferragni é alta, mais alta na vida real do que o nosso fotógrafo, Riccardo Tinelli, esperava. Ele partilha com ela esta ideia e aproveita para lhe perguntar se Fedez (o marido) não é ligeiramente mais baixo que ela. Ela ri-se e confirma: «Só ligeiramente».

Com uma beleza magnética, 1.78 m de altura e genuinamente italiana, Chiara nasceu em Cremona. A mãe, Marina di Guardo é escritora e o pai é dentista. As duas irmãs, Valentina (com quem trabalha) e Francesca são as suas “parceiras no crime”.

À sessão fotográfica, que aconteceu num apartamento incrível em Milão, escolhido especificamente para a ocasião, chegou acompanhada por membros fundamentais do esquadrão The Blonde Salad, como o seu fiel maquilhador Manuele Mameli, que começa a maquilhá-la depois de Chiara ir buscar um café.

Ainda que o seu clube de fãs tenha começado em Itália, rapidamente se globalizou. Apelidada frequentemente como a blogger mais influente do planeta, Chiara começou no Flickr (um site de partilha de fotografias), mas foi em 2009, encorajada pelo namorado da altura, Riccardo Pozzoli, que lançou o blogue, The Blonde Salad, que entretanto já se transformou num site de lifestyle, numa agência de talentos e numa loja online com várias coleções cápsula. Chiara também já tem entretanto a sua própria marca de sapatos, a The Chiara Ferragni Collection: todos os modelos são feitos em Itália e cosidos à mão. As vendas crescem todos os anos (tendo aumentado 235% entre junho de 2016 e julho 2017).

É bastante óbvio que Ferragni é bem mais do que um rosto bonito que usa e abusa das selfies, fotografa looks por diversão, e imortaliza as suas férias, marido e bebé de sonho no Instagram. O seu sucesso deve-se a uma estratégia e a um modelo de negócio tão cuidadosamente pensados, que se tornaram num caso de estudo em Havard.

Ela está ciente do sucesso e orgulhosa do caminho que percorreu até aqui. «Eu e o Fedez começámos sem nada. Por isso, sim, estamos orgulhosos de nós mesmos», confessa. E é a vestir quase nada, ou melhor, um conjunto de cuecas e soutien em renda preta da Intimissimi, que aparece no set para a primeira fotografia.

Sentes que abriste um caminho com o The Blonde Salad?

Na Europa acho que sim, porque muito poucos europeus tinham blogues nessa altura. Praticamente ninguém tinha um em Itália, por isso acho que fui mesmo uma das primeiras. Gradualmente tornou-se numa coisa que passei a fazer todos os dias e que se tornou parte da minha rotina, da mesma forma que se tornou uma rotina para os meus seguidores.

Durante todo este tempo da tua carreira como blogger, qual foi o momento mais memorável?

A minha primeira grande memória é da primeira vez que fui convidada para a passadeira vermelha de Cannes. Foi em 2010 e a minha carreira tinha acabado de começar. Aceitei o convite sem hesitar, e sem ter realmente ideia de quão massivo o evento ia ser. Levei um vestido Alberta Ferretti absolutamente incrível, todo em lantejoulas. O evento para o qual fui convidada era a estreia de um filme italiano e havia pessoas a gritar o meu nome. Isso foi totalmente inesperado e uma loucura. Nesse dia senti-me mesmo como uma princesa.

E o que é que dirias àqueles que te definem como exibicionista, por partilhares grande parte do teu dia a dia com os teus seguidores?

Concordo que, de certa forma, é exibicionismo. Mas também acho que de certa forma é inspirador, porque eu comecei do nada e criei o meu próprio império. Isso prova que se te dedicares realmente a uma coisa, podes criar o teu tipo de trabalho e acabares a fazer uma coisa que te faz feliz todos os dias.

E concordas que é um trabalho ligeiramente narcisista?

Claro, tirar selfies é definitivamente um bocado narcisista. Mas, para mim, no início, tinha mais a ver com interagir com as pessoas e ouvir os seus comentários, fossem eles positivos ou negativos. Desde que comecei o blogue, o meu objetivo foi sempre partilhar parte de mim com a minha comunidade e receber, em troca, alguma coisa da minha comunidade.

Como é que evitas os haters?

Escusado será dizer que o cyberbulling é um problema enorme. No início da minha carreira, imensas pessoas, com perfis falsos, deixaram comentários maldosos no meu blogue. É tudo um jogo para elas e tens de te manter forte. No final do dia, se te quiseres expor nas redes sociais, tens de perguntar a ti própria se te estás a divertir. E se a resposta for sim, então o meu conselho é para continuares e ignorares os haters, porque na verdade vão sempre existir haters, independentemente daquilo que fazes na vida. Infelizmente é muito mais fácil criticar do que ser simpático.

Falando agora especificamente de um tema: os direitos das mulheres. Consideras-te feminista?

Considero-me definitivamente feminista. Acho que as mulheres devem lutar pelo direito de serem o que quiserem. Tem tudo a ver com igualdade e com ter os mesmos direitos. Mulheres e homens deviam estar em pé de igualdade, mas ainda não é assim. As mentalidades precisam de mudar. Por exemplo, as pessoas ainda acham estranho que uma mulher se torne CEO. Mas o que é incrível é que agora se fala sobre isso, o que indica que a maré começou a mudar.

Voltemo-nos para a Moda. Lembras-te da tua primeira grande compra?

Sim! Comprei uma carteira Speedy, da Louis Vuitton. Tinha 18 anos na altura. Lembro-me de ter feito imensos trabalhos estranhos para poupar o dinheiro de que precisava. Depois quando ia finalmente comprá-la, a minha carteira foi roubada, então tive de começar a poupar outra vez. Mas valeu a pena. Eu queria mesmo aquela carteira!

«Acho que as mulheres

devem lutar

pelo direito de serem o

que quiserem.»

 

Falando do presente: o que é que nos podes dizer sobre a tua colaboração com a Intimissimi?

Sempre gostei da Intimissimi, cresci a sonhar com a marca e com as suas modelos incríveis. Acabámos por vir a colaborar durante uns anos, e eles eventualmente pediram-me para desenhar o guarda-roupa para o espetáculo Intimissimi On Ice e depois convidaram-me para ser o rosto da marca, lado a lado com a Gisele [Bündchen]. Disse que sim, claro, e tem sido incrível.

E planeias expandir a tua própria coleção de roupa?

Não quero necessariamente criar uma marca que ofereça o look total. Para mim uma coleção é mais sobre ter algumas peças que podem ser acrescentadas a um look.

Qual é o teu próximo desafio?

Quero continuar o meu percurso e ser uma boa CEO para a minha empresa. Quero continuar a trabalhar com marcas que adoro e continuar a ter a oportunidade de ser o rosto de algumas das minhas marcas preferidas.

Passando agora para o universo pessoal, como é que conheceste o Fedez?

Conhecemo-nos através de amigos em comum. Na altura tinha namorado e ele tinha namorada, mas, uns meses mais tarde, ambas as relações acabaram. Depois ele usou o meu nome numa música, que acabou por ser o maior hit de 2016 em Itália. Sempre que voltava de Los Angeles ouvia a música na rádio e um dia fiz um Snapchat de mim a cantá-la. Por causa disso ele enviou-me uma mensagem, e em setembro começámos a namorar.

O que é que dirias que cimenta uma relação de sucesso?

Ter orgulho no outro, na pessoa em si e no trabalho que faz. Tanto eu como o Fedez começámos do nada e criámos do zero tudo aquilo que temos hoje. Compreender as origens do outro, ajuda a sentires orgulho na pessoa e nas suas conquistas.

Foste mãe recentemente, como é que equilibras o trabalho e a família?

Acho que o mais importante é tirar tempo para mim sempre que volto a Itália, e organizar o meu tempo, para assegurar que sou produtiva todos os dias. É tudo uma questão de gestão de tempo e de organização.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de novembro de 2018.