Charlize Theron Fala Sobre a Maternidade, a Desigualdade e o Último Filme

Chelsea Handler conversou abertamente com a atriz. Por: Chelsea Handler -- Imagens: © Mario Sorrenti

Há muito de superação no filme Tully, a segunda parceria de Charlize Theron com o realizador Jason Reitman e a argumentista Diablo Cody depois de Young Adult (2011). Neste filme, Theron é Marlo, uma mãe de duas crianças, que está grávida, sobrecarregada e muito cansada. O seu momento de mudança: o nascimento do terceiro filho. Enquanto mergulha nas profundezas de uma depressão, Marlo enfrenta alguns adversários muito comuns: um parceiro ausente, uma filha com má atitude e um filho com necessidades especiais (e um sistema de ensino que não ajuda). Mais: fundos limitados para pagar creches e um corpo em versão pós-parto – pesado e desajeitado – que parece já não lhe pertencer. O alívio chega na forma de Tully, uma enfermeira noturna, “oferecida” a Marlo pelo seu irmão.

Theron, que adotou os seus dois filhos – Jackson (Jacks), de seis anos, e August (Augie), de dois anos – engordou 15 quilos para este papel. E desde a Aileen Wuornos de Monster, que lhe valeu um Óscar, que a atriz não estava tão irreconhecível.

Numa entrevista por telefone com a sua amiga Chelsea Handler, que tão mediaticamente escolheu “o outro lado“– também conhecido como a opção de não ter filhos – Theron partilha tudo o que está a incomodá-la.

Vamos começar por falar de Tully. Ganhaste muito peso para este filme. Também o fizeste para Monster, mas agora és mais velha e desta vez foi diferente. Foi uma experiência emocional…

Sim. Gravei o Monster quando tinha 27 anos e a única coisa que fiz foi parar de petiscar e lanchar durante três semanas e voltei ao meu peso normal. Desta vez foi muito difícil. Não parava de comer! E eu adoro hidratos! Estava a ingerir muito açúcar. Tudo isso mexeu comigo. Tive uma depressão pela primeira vez na minha vida enquanto fazia este filme. Senti mesmo que estava numa nuvem negra. Voltar ao meu normal foi muito difícil.

Vi-te nos prémios amFAR. Estavas com um vestido e um casaco e disseste-me: “Tenho de te mostrar o meu corpo na casa de banho”. E eu disse que não. Mas depois fomos e mostraste-me as tuas coxas, costas e barriga e eu não conseguia acreditar no que estava debaixo do vestido. Estavas completamente diferente. Muitas atrizes não fariam isso, mas faz parte do ofício. Gostava que mais pessoas fossem assim.

Nunca percebi as pessoas que não querem fazer as transformações. Isto, para mim, é essencial para eu conseguir fazer o meu trabalho. Tens a possibilidade de visitar um novo corpo. Não estou a dizer que é corajoso, mas não consigo imaginar interpretar esta personagem sem ter ganho aquele peso todo. O cansaço, a forma como te sentes com o teu corpo, a forma como o teu rosto muda… Tudo. As tuas mãos, dedos, o tamanho que calças.

Os teus pés aumentaram?

Meu Deus, os meu pés estavam tão gordos. Durante as filmagens andava sempre de UGGs.

Adoro o que tu e a Diablo fazem juntas. Young Adult e Tully são mesmo o oposto de glamour do cinema, o que cria uma empatia imediata porque tu és uma supermodelo – não queremos falar de quão bonita tu és, isso é chato – mas é bom ver uma mulher linda ser tão real.

Se analisares o meu percurso, a maior parte do meu trabalho é mais na vertente do realismo do que em coisas de glamour. Foi sobre isso que quis construir a minha carreira e o motivo pelo qual lutei tanto para não interpretar apenas a namorada ingénua. É estranho para mim que as pessoas ainda digam “Que surpresa boa!”, só me apetece responder que não, já não é surpresa. Depois de 25 anos, tenho sido consistente a explorar personagens com substância. De vez em quando, faço coisas malucas tipo Atomic Blonde, mas isso já é raro.

As pessoas têm uma visão limitada do talento de uma pessoa quando é muito bonita… Este filme é sobre a maternidade. Tens o Jacks e a Auggie, que adotaste. Há alguma parte de ti que sente que perdeu algo por não ter tido filhos biológicos?

Quando comecei o primeiro processo de adoção, a minha mãe mostrou-me uma carta que escrevi quando era pequena. Nela perguntava se podíamos ir a um orfanato. Na África do Sul, existem orfanatos em todo o lado e eu queria um irmão ou uma irmã. A adoção é um assunto muito pessoal para mim – há pessoas que adoro e que têm um excelente coração que me dizem que não se sentem capazes de criar uma criança como se fosse delas. Respeito isso. Mas, para mim – e acredito que não estou sozinha em relação a isto – nunca encontrei qualquer diferença entre criar um filho adotado e um filho biológico. Não sinto que esteja a perder algo. Esta sempre foi a minha primeira opção, mesmo quando estava numa relação.

«Quando descobri que o Jackson tinha nascido,

só pensava que queria tanto esta criança que os meus seios começaram a doer.»

 

O que aprendeste sobre ti enquanto mãe?

Perspetiva. É tudo mais claro, agora. Pensar ter um filho quando tinha 20 anos era a ideia mais assustadora de sempre. Quando cheguei aos 30 percebi que estava preparada. Mas, depois, há um momento em que pensas: “Espero que quando chegar a altura certa, ainda queira tanto ter filhos como quero agora”. Tenho dias maus. Cometo erros. Mas passado seis anos com eles, não há um único dia da minha vida em que me arrependa de ter feito o que fiz.

E tens a tua mãe, Gerda, para dividir a educação dos teus lhos contigo, o que é incrível.

Sabia que tinha que ter a minha mãe comigo para conseguir fazer isto na condição de mãe solteira. Não reconhecer a importância dela neste processo de co-parentalidade seria uma injustiça. Tenho tanta sorte por a ter. Iria sentir-me muito sozinha se não tivesse uma parceira neste processo.

Em relação ao teu comentário sobre os 20 anos, como é que descreverias os teus 20 anos versus os teus 30 e 40?

Os meus 20 foram tudo o que queria que fossem. Tinha uma pessoa ao meu lado. Ele era um aventureiro e eu era uma aventureira. Íamos durante cinco semanas para um país apenas com uma mochila e não nos preocupávamos com nada. Depois, quando acabei essa relação, senti um desejo muito grande de ser mãe. Já não precisava de toda aquela agitação. Mas o processo de adoção foi um desafio muito grande a nível emocional. Existiram muitas situações complicadas: conheces uma criança, crias uma ligação, ficas com esperanças e depois nada. Nunca gostei tanto de uma idade como gosto dos meus 40 anos. Fazem-se sentir que encontrei a cama com o tamanho perfeito, a caneca com o tamanho perfeito…

«Quero que eles saibam quem são e que tenham

muito orgulho disso.»

 

O colchão perfeito. É esse o teu presente de aniversário, não tens que agradecer. Vamos falar sobre a fase do pós-parto: lembro-me de me dizeres quando estavas à espera do Jacks que até sentias os seios doridos.

Sim. Estive tanto tempo à espera que, quando descobri que o Jackson tinha nascido, só pensava que queria tanto esta criança que os meus seios começaram a doer. Não tive depressão pós-parto nem nada do género, foram só as minhas mamas. É o poder da mente. Quando a maternidade ocupa muito espaço na tua cabeça, o cérebro diz-te que o teu corpo está a viver coisas novas. A minha amiga Ashlee foi uma grande inspiração para conseguirmos fazer o Tully. Ela é uma das minhas maiores amigas e eu assisti à luta dela com uma depressão pós-parto. Lembro-me que houve uma altura em que ela dizia: “Não sei como é suposto estar a sentir-me neste momento. Não me sinto eu própria”. É complicado veres uma amiga a passar por isto.

Há uma série de emoções pelas quais as mulheres passam.

Completamente. E a gravidez tem muito a ver com isso, algo que nunca experimentei. Não passei por um parto de 30 horas. Nunca passei por essas mudanças físicas tão dramáticas. Por isso, claro que para mim foi tranquilo acordar de duas em duas horas. Mas a gravidez é pesada para uma mulher. Há mulheres que adoram e outras que detestam. Já está na altura de reconhecer que a depressão pós-parto existe e não cabe na caixa das maravilhas da maternidade. No ínicio, queria fazer tudo sozinha e não pedi ajuda tantas vezes quanto devia. Sentia que se não conseguisse fazer tudo talvez não fosse uma boa mãe. Na segunda vez, percebi que era eu mais feliz e os meus filhos também eram mais felizes se eu tivesse mais apoio.

Estás a criar duas crianças negras. Obviamente, sendo da África do Sul, tens muito conhecimento sobre a desigualdade racial. O que achas sobre o movimento Black Lives Matter e o estado atual dos Estados Unidos?

Ter crescido na África do Sul durante o apartheid fez-me muito consciente sobre estes temas relacionados com a igualdade e os direitos humanos. Sim, os meus dois filhos são negros. Nem sei como falar sobre o último ano… O racismo está muito mais vivo do que as pessoas pensavam. Não podemos mais negar esse facto. Temos de falar. Há lugares neste país [EUA] onde, se eu tivesse que gravar um filme, não aceitaria o papel. Neste momento, não viajaria com os meus filhos para algumas partes da América, e isso é muito problemático. Muitas vezes, olho para os meus filhos e penso: «Se isto continuar, posso ter que ir embora [dos EUA]». A última coisa que quero é que os meus filhos se sintam inseguros.

É uma conversa difícil de se ter com eles.

Ainda não estamos nessa fase, mas já falámos. Quero que eles saibam quem são e que tenham muito orgulho disso. Quando os trouxe para casa, jurei a mim própria que iria ajudá-los a construir um sentido forte de confiança. Eles precisam de conhecer as suas origens e de terem orgulho delas. Mas eles também vão ter que saber que há pessoas que olham para eles de forma diferente do que olham para mim e que essa disparidade é muito injusta. Se puder fazer algo para mudar isso, claro que faço.

«O facto de Hollywood ter tido sempre homens à frente

é algo que temos que mudar»

 

Há um diálogo no filme onde Tully diz a Marlo: “As mulheres curam-se”. À qual Marlo responde “Não, não nos curamos. Podemos parecer melhores, mas se vires com atenção, estamos cobertas de corretor». O que é que sentes em relação a isso? Achas mesmo que as mulheres não se curam?

Rio-me sempre. É uma expressão muito típica da Diablo. Não sei se nos curamos, se apenas lidamos com a situação, ou se ficamos mais espertas. Só acho que esse diálogo é muito engraçada, porque consegues imaginar alguma de nós sem qualquer tipo de corrector? Figurativa e literalmente, claro. Nós vivemos tanto… Não sei se alguma vez estamos curadas. O que achas?

Acho que os homens magoam-se de uma maneira diferente das mulheres. Aguentamos mais, mas também sentimos muito mais. Vamos falar sobre Hollywood. Trabalhas com imensas mulheres. Como vês a tua participação em iniciativas que tentam criar mais oportunidades para as mulheres?

O facto do nosso mundo ter tido sempre homens à frente é algo que temos que mudar. Como produtora, não estou focada apenas nos realizadores, mas em equipas inteiras; escritores, editores, compositores, etc. Levo essa responsabilidade muito a sério. Já fiz um filme em que não havia uma única mulher no departamento de som! Temos que contratar de forma inteligente. Mas não quero que pareça que eu acho que estamos a fazer um grande favor às mulheres. Não encaro isto como uma missão. Existem mulheres por aí que são incrivelmente talentosas. E eu contrato-as porque elas são as melhores naquilo que fazem.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de fevereiro de 2018.