Fomos Conhecer a Casa de Joana Vasconcelos e a Sua Vista Incrível Para o Tejo

A casa da artista é uma extensão do seu atelier e das suas obras. Por: ELLE Portugal Por: Cristina Giménez - Imagem: Pablo Sarabia

Joana Vasconcelos viaja constantemente para cumprir compromissos profissionais com galerias de arte e museus de todo o mundo. As suas obras já estiveram expostas em várias instituições de arte, tais como o Guggenheim de Bilbau e o Palácio de Versalhes.

Nesta casa, construída em Lisboa nos finais dos anos 70, frente ao  Tejo, encontrou um lugar onde todos os dias pode olhar para o infinito. A moradia caracteriza-se pela sua horizontalidade e as linhas contemporâneas abraçam o exterior, convidando-o a entrar em todas as divisões. A casa, em contínua transformação, é uma extensão do atelier da artista e funciona como um laboratório onde Joana Vasconcelos “experimenta” as suas obras antes de as apresentar ao mundo.

 

O que é que a cativou nesta casa?

Sobretudo o seu carácter meditativo, dado pelo horizonte, aqui a vista não tem limites. Estamos mesmo em frente à foz do Tejo, num ponto em que a cidade desaparece. Foi aqui que se fez parte da história de Portugal, foi de onde partiu a armada portuguesa para descobrir o mundo. Em linha reta chega-se a Manhattan, ou seja, pode-se ir para o outro lado do mundo… A estética portuguesa tem muito a ver com a ideia de viagem. Uma exposição é uma viagem, comandada pela imaginação. Viajo muito em trabalho e quando estou em casa sinto que é o meu porto: saio daqui com as minhas obras e chego a novos destinos, que são os portos da cultura. Os museus e as galerias são pontos de encontro com outras culturas e também locais de intercâmbio, de aprendizagem.

E no que respeita ao jardim, que características lhe chamaram mais à atenção?

Esta moradia tem algo de casa de férias, por isso a presença da natureza é fundamental. Este era já um jardim terminado quando comprei a casa há mais de cinco anos. Muitas árvores e plantas já cá estavam, como é o caso das laranjeiras e dos limoeiros. Estes citrinos fazem parte da tradição portuguesa, são símbolos de sorte, poder e riqueza. Por outro lado, ter um jardim também foi muito importante para o meu trabalho. Pude ampliar a minha obra. Desde que vivo nesta casa, faço mais obras para o exterior. Muitas esculturas que faço, instalo-as temporariamente no jardim, o que permite ver como se relacionam com o que as rodeia, como se comportam com o vento, com a chuva, com o sol…

Considera-se uma pessoa caseira?

Interesso-me muito pelo território doméstico, muitas das minhas obras são inspiradas em objetos de uso caseiro. O que faço é a sua recontextualização numa outra dimensão. Foi em casa que aprendi coisas sobre a minha obra que me permitem evoluir criativamente.

O que mais gosta na decoração?

O design de interiores é uma disciplina na qual se tem de relacionar muitas coisas. O trabalho dos artistas e dos comissários, por outro lado, baseia-se em estabelecer uma relação entre as obras e o que as rodeia. E não é apenas uma relação física ou estética, mas também uma relação conceptual, que procura criar um discurso. Essa é a diferença entre o comissário, o artista e o decorador.

Segue um estilo de decoração definido?

Esta casa muda continuamente. Gosto de viver com as minhas obras durante um tempo, pois permite-me desfrutar do meu trabalho num ambiente que não é público. Este jogo entre o público e o privado está sempre presente. O privado é a minha casa e o público é a minha vida nos museus. O espaço privado dá mais profundidade ao meu trabalho porque me permite relacionar com as obras em momentos diferentes do dia. Posso vê-las sob várias luzes, em vários contextos, em festas, com muita gente, com pouca… E é interessante ouvir os comentários das pessoas que nos visitam. Resultado? Uma decoração dinâmica.

Qual é a metodologia que usa no design de interiores da sua casa (se é que usa alguma)?

Não difere muito da que uso numa exposição. Em ambos os casos, há um discurso entre volumes e como estes se relacionam entre eles. Numa exposição, a obra partilha o espaço com outras e com a arquitetura que as rodeia. Já em casa, tem de conviver com objetos, móveis, cores, têxteis… Por fim, nos dois casos, há uma composição de volumes e cores. Esta casa serve de laboratório de experiências. É uma extensão do atelier mas numa escala mais íntima. A relação com o mobiliário é muito particular. Por exemplo, uma cama é um volume horizontal muito grande, que compete com qualquer coisa que se instale junto a ela, comportando-se de um modo muito diferente de uma cadeira, uma cómoda ou uma mesa.

Qual é a sua divisão preferida?

A verdade é que depende muito do momento. Gosto do meu quarto, é como uma sala. Mas também gosto muito do exterior, e de um pequeno pátio ao lado da cozinha… Há várias opções, não poderia escolher apenas uma. O importante para mim é que não me sinto restringida.

Trabalha em casa?

No meu quarto, tenho uma mesa de trabalho com vista para o rio. Gosto de desenhar ali tranquilamente com uma vista incrível para o horizonte.

Quais são os seus materiais favoritos?

Está sempre presente a natureza, os materiais orgânicos, os têxteis, a cerâmica… todos estes são elementos essenciais na minha obra. Confesso que com a cerâmica tenho uma relação especial. Através da cerâmica portuguesa, podemos desenhar um percurso pela história do país e apreciar as várias correntes estéticas e acontecimentos que marcaram, década a década, a cronologia nacional.

Que período da arte lhe interessa mais?

Todos, mas um dos que mais influencia a minha obra é o barroco.Inspiro-me muito nos materiais dessa época: a madeira, as talhas douradas, a cerâmica. É uma das minhas grandes referências, se bem que depois o utilize de uma forma contemporânea, trazendo a tradição para a atualidade.

Como se organiza no seu dia a dia?

Pratiquei karaté dos 8 aos 28 anos (cheguei a ser profissional) e isso deu-me um sentido de organização, de trabalho de equipa e de perseverança. Para uma competição, há muita preparação prévia, tal como acontece com uma exposição. Ensinou-me a manter um ritmo, o foco até chegar a um resultado. O que é essencial porque no mundo da arte há muita competitividade.