Carolina Carvalho: «Até ao Primeiro Dia de Rodagem, Estava em Pânico»

A atriz falou com a ELLE sobre o seu novo papel na série da SIC, A Generala. Por: Vítor Rodrigues Machado Imagens: Mariana Rocha - Instagram @OPTO

Uma das coisas mais difíceis da pandemia, quando estamos a fazer entrevistas, é a impossibilidade de estarmos cara a cara com as pessoas que falamos. Por isso, quando soube que teria a oportunidade de fazer esta entrevista à Carolina Carvalho sobre o seu novo papel n’A Generala, pedi que fosse por videochamada (continua a não ser incrível, mas melhor do que ser unicamente por áudio). A Carolina consentiu e, assim que atendeu a chamada (e após uma pequena troca de palavras para nos familiarizarmos), começamos a entrevista:

 

Vamos começar pelo princípio: quem é a Maria Luísa e quem é o Otávio?

A Maria Luísa é uma menina que nasce no Funchal e que sempre sentiu que de alguma forma não pertence ali e, n­­­aquela época (anos 50), no Funchal, o que acontecia é que a mulher tinha um papel na sociedade e o homem tinha outro. E aquilo não servia à Maria Luísa que era uma mulher com objetivos e com a ambição de conseguir ter um “emprego de homem”.

 

O que seria um bocado difícil…

Sim, e eles na altura começaram a aperceber-se… o Otávio (irmão dela) morre ainda pequeno e a mãe culpa a Maria Luísa por isso. Ela não era uma mulher que queira fazer as coisas que as mulheres faziam, não se conformava com o facto de ter de obedecer a certas regras e de só poder chegar a um certo patamar e que queria mais do que isso. Então ela percebe automaticamente que o facto de ser uma mulher, de ter o corpo de uma mulher, não a vai permitir chegar longe. Seja como for, ela é uma personagem que tu nunca odeias, por mais que ela faça coisas erradas e cada vez vai fazer mais. Parece que torces por ela. Acho que isso só acontece porque há aqui de facto uma motivação muito grande. Já o Otávio, a diferença é que é um homem que realmente consegue ter as mesmas oportunidades que os outros homens e portanto é um homem que vive sempre preso de alguma forma ao passado e acho que ele sentia a consciência de que tinha simulado um suicídio e se questionava de como estariam os pais (…) Mas ele tinha de cortar com isso para seguir para uma coisa nova. Acho que temos presente o primeiro trans que existiu, que na altura não foi utilizado dessa forma, porque nem se sabia o que era e, de repente, ela, sem saber o que era, sabia que aquele corpo não lhe pertencia, que se sentia melhor.

De facto, acho que desde o primeiro episódio se torna visível que a Maria Luísa não está bem ali, que há algo que a incomoda. De qualquer forma, queria saber como é que te surgiu então este papel?

Tinha acabado de fazer, não há muito tempo, o filme das Doce, tinha regressado para acabar a última temporada do Golpe de Sorte e surge-me o convite (por acaso eu nunca contei exatamente como é que isto aconteceu). Eu estava a gravar e, supostamente, com as datas de rodagem anunciadas, nunca iria poder fazer a série. Só que, entretanto, a minha agente contacta-me a dizer que havia um interesse em que eu fizesse parte da Generala. Mas, sinceramente, nunca achei que o meu nome estaria em cima da mesa para fazer o papel principal, porque acho que não é um casting nada óbvio, sabes, pensava que seria alguém muito andrógeno. Agora a ver, acho que, para o espectador, é muito mais real o facto de tu conseguires ver uma transformação e por isso é que também percebi perfeitamente o casting da Soraia.

Lembro-me perfeitamente do dia em que dizem “Carolina, mas é para fazeres o Otávio e a Maria Luísa” e eu “Não acredito”. Fiquei chocada, mas ao mesmo tempo fiquei muito contente porque, eu acho, que para a vida de um ator é daquelas oportunidades que só te aparece uma vez

 

E foi esta dualidade de personagens que te fez querer tanto fazer o Otávio e a Maria Luísa?

Foi. Sabia que era um trabalho de composição, mais do que ser um trabalho de trabalhar texto, intenções… É um trabalho em que o teu corpo muda e nós cá não temos muitas personagens com esse peso. Por exemplo, a voz, quando passa para o Otávio é uma coisa gradual. Portanto, o desafio principal foi mesmo como me anular, Carolina, a 100%.

 

 

O facto de ser uma personagem transgénero fez com que todo este processo fosse mais complexo?

Foi, foi muito complexo. Eu vou te dizer, até ao primeiro dia de rodagem, estava em pânico, porque achava que não tinha encontrado nada, que não sabia nada. Ainda por cima, porque comecei em Otávio, não em Maria Luísa… Acho que a versão cliché, se lhe quiseres chamar, seria pôr uma Maria Luísa super feminina e de repente fazeres um super homem e acho que o que tentei encontrar foi um Otávio que tinha características femininas. Até porque a voz dele, do verdadeiro, é uma voz feminina, só que anulou os agudos. Ele aprendeu a comportar-se como um homem, mas as características dele são de uma mulher.

 

Sim, até o rosto tinha traços mais “femininos”…

Tu notavas que era uma mulher. E então fui tentando fazer uma pessoa que era infeliz, porque acho que a Maria Luísa/Otávio era extremamente infeliz, uma pessoa super oprimida e super depressiva também por toda a relação com a mãe. Aliás, lembro-me que para uma das cenas, nomeadamente a cena que tenho com a Anabela Moreira, que foi uma das mais faladas, assisti a Anabela a passar texto com a Maria Luísa mais nova.

 

Essa cena é assustadora…

Foi arrepiante. E então eu peguei no telemóvel, pus a gravar e disse “epá isto vai me dar jeito”. Antes de gravarmos aquela cena, pus os fones e lembro-me de ter dito a toda a gente que precisava mesmo de estar sozinha e de incorporar bem as coisas. Então, fiquei a ouvir aquilo em loop. Isso deu-me um sentimento quase que como se tivesse ouvido aquilo a vida toda e, de repente, quando vou para a cena com ela, foi uma explosão de tudo.

Essa cena está incrível. Uma coisa que gostei particularmente dela é que não há aquela preocupação de estarem com um ar muito bonitinho. É real.

Esta personagem para mim foi um anular de tudo. Aliás, quando comecei os ensaios, há um dia que me estava a correr mal e lembro-me que fui ao guarda-roupa e disse à Mareli, que é chefe de caracterização, “Olha, quero cortar o cabelo”. E ela olhou para mim “como?”. “À rapazinho, quero cortar agora, para ir para o ensaio. Preciso agora”. Como estava lá a cabeleireira, cortou-me o cabelo. E isso foi uma coisa que fiz sem pensar. Depois, como tenho pestanas muito grandes, e isso dá me um olhar muito feminino, pedi para me cortaram as pestanas também. Estava irreconhecível, mas senti-me automaticamente diferente e mais acanhada. Em mim passou a haver uma despreocupação total do bonito e do estético. Mas isso também tem muito a ver com o Marco Medeiros, que era o nosso diretor de atores, e o Sérgio Graciano, o nosso realizador, que têm mesmo essa preocupação do real e do cru. Acho que esta série ganha muito por isso.

 

Pegando nesse gancho de teres cortado o cabelo e as pestanas, como é que te preparaste para encarnar a personagem?

Quando recebi este convite, que aceitei de imediato, fiz um leitura intensiva e um trabalho de pesquisa, falei com as autoras, tive a hipótese de falar com um transgénero também, para perceber aqui algumas coisas relativas a como se colocavam as ligaduras, o sentimento antes de fazeres a transformação… depois a autora enviou-me tudo o que já tinha saído da Maria Luísa pelo país, partes do julgamento, que na altura era exibido, e, portanto, fiz um grande trabalho de pesquisa. Depois disso, fizemos um trabalho com o Marco Medeiros, o nosso diretor de atores, que foi um trabalho muito de neutralizar o corpo e de tirar todos os vícios que naturalmente temos. Depois tive aulas de voz, para neutralizar o tom de voz, e de corpo. E, depois disso, eu, a Soraia e o Sérgio fizemos um trabalho 24h em conjunto…

 

Ia justamente perguntar isso, como é que vocês as duas fizeram isto? Porque tem que haver um fio condutor entre as duas.

Olha, isso foi a parte mais gira, porque eu e a Soraia, na prática, não temos nada a ver uma com a outra. Então, o Marco Medeiros e o Sérgio começaram a pedir para que em todos os ensaios imitássemos uma a outra e chegamos a um equilíbrio. Ainda por cima, eu e a Soraia na vida real somos o 8 e o 80: eu sou hiperativa, ela é calma, super zen. Depois, durante as rodagens e os ensaios, assistia à Soraia a fazer as cenas com outras pessoas e ela assistiaa às minhas.

 

No início da história, a personagem passa por momentos complicados. Isso fez com que te apaixonasses pela personagem desde o início…

Sim. O que faço é sempre defender muito a personagem, ou seja, tenho de arranjar os motivos para me envolver com ela. E se tu quiseres acreditar nisso, de facto, vês que ele não é uma pessoa má, ele é um sobrevivente. As circunstâncias levam a que ele se desenrascasse e a partir de certo ponto já não há como voltar atrás.

 

Sim, é um bocado aquela coisa de sermos parte educação que nos é dada e parte as das circunstâncias da vida…

Exactamente.

 

Achas que as pessoas se vão apaixonar por ele e ter esta relação de «eu gosto, mas não devia gostar»?

Acho que sim. Acho que tu sentes que deves não gostar, mas é inevitável quereres que vença na vida. E mais para a frente, quando ela vai conhecer uma mulher com quem vai casar… essa relação é…

Surreal, provavelmente…

Não dá para perceber. As autoras escreveram de forma a contar a realidade relatada por muitas pessoas próximas. Tive a sorte de conhecer uma pessoa que o conheceu e eles diziam que o truque ali era, por exemplo, ia à farmácia, então ele falava muito baixo e as pessoas não ouviam, era a Jacinta, a mulher, que falava por ele. Nós trabalhamos essa cumplicidade e a Jacinta é quase mais maluca que ele e isso é muito giro, e a Margarida Marinho fez isso de uma forma brilhante.

 

Agora focando noutro assunto: a tua carreira. Quando é que surge esta vontade de ser atriz?

Olha, surge desde muito nova. Tenho seis irmãos mais novos, isto é tudo uma escadinha. Ssempre organizei em casa as peças de teatro e era a atriz principal, a apresentadora, a contracena, era tudo. E, portanto, a vontade sempre esteve presente só que era muito boa aluna, portanto para os meus pais era certo que ia para medicina. Perto da altura de entrar na faculdade ganhei a fobia de ver sangue – que na altura fui ao psicólogo e ele explicou-me que era um mecanismo de defesa do cérebro. E pronto, inscrevi-me nessa altura num curso americano que era com o John Frey no teatro do bairro e comecei a ir às escondidas. Depois entrei na Licenciatura de Comunicação e, no útlimo ano, fiz a minha primeira novela.

 

E neste espaço de tempo tens feito muita coisa. Sentes que cada personagem te ensina alguma coisa?

Completamente

 

Então o que é que esta personagem, o Octávio, te trouxe?

Ensinou-me duas coisas: a primeira é que nada é impossível e que não há ninguém, nenhuma entidade, não há nada que te possa dizer o que tu podes ou não podes fazer. E depois ensinou-me a necessidade do companheirismo no amor, que foi algo que percebi na relação com a Jacinta. É aquela coisa de teres ao teu lado uma pessoa com quem tu não tens filtros, tu contas tudo, e são companheiros de guerra.

 

Vocês começaram a gravar logo após este período da pandemia começar. Foi difícil para ti?

Olha, o período do isolamento obrigatório fez-me a parar, que era uma coisa que já não fazia há muitos anos. No início, foi muito atrofiante porque tenho um ritmo… durmo cinco horas por dia. Estou sempre a trabalhar, seja porque estou a gravar ou a decorar texto, ou estou na minha marca de roupa, ou isto ou aquilo… mas sou viciada em estar sempre assim. Imagina, de repente, dizerem “agora ficas em casa”. Os primeiros dias foram um bocadinho assustadores e depois comecei a ler mais, ver filmes, acho que foi o que toda a gente fez… mas tentei cultivar-me um bocadinho mais e, portanto, passei bem. O gravar pós-pandemia, repara, venho para casa de estar a gravar o filme das Doce, com beijinhos, abraços, coreografias, concertos, rock and roll… a seguir, aparece máscara, gel a toda a hora, distanciamento, não há toques, testes, foi muito confuso.

 

Então e neste momento estás a gravar a nova novela?

Neste momento, estou a gravar a nova novela, o nome provisório é A Serra, e eu sou a antagonista.

 

E após isto, quais são os teus planos/sonhos para o futuro? 

Vou-te dizer, normalmente, antes do ano terminar, faço sempre uma lista que é «Para o ano tenho de fazer isto». E tudo o que tinha posto na lista do ano passado aconteceu. Portanto, não podia estar mais contente. Mas sou um bocadinho ambiciosa. A nível de futuro, gostava muito da internacionalização. Já tenho agentes lá fora e, portanto, a seguir a terminar esta novela quero mesmo dedicar-me a isso, sabes? Acho que é importante e acho que é a altura de fazer isso.

 

Então e para terminar vamos falar da tua marca. Como estão a correr as coisas com a Oakwear?

Olha, eu vou-te dizer, a minha marca surge há muito pouco tempo. Já queria ter uma marca há imenso tempo, mas com a minha vida era impossível. E, de repente, durante a pandemia, foi uma das ideias que tive. Queria fazer uma coisa que não fosse de venda em massa. Então comecei com uns lenços que são reutilizáveis e dão para fazer tudo, podes fazer uma mala, podes fazer um top, podes fazer um cinto… Depois da segunda coleção foram uns blusões pintados à mão com frases com as quais me identifico, com franjas. E, agora, a terceira coleção lancei no meu dia de anos e está a ser um sucesso, porque já está praticamente a esgotar. E portanto, para uma coisa que não esperava muito, está a correr muito bem e por isso estou muito contente.

 

Fotos: Mariana Rocha

Styling: Diogo Raposo Pires

Make-up & Hair: Raquel Peres

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