Anabela Moreira: «Portugal está abandonado. Portugal não existe.»

A atriz falou com a ELLE sobre o seu mais recente filme, sobre ser gémea, sobre cinema e sobre Portugal. Por: Margarida Brito Paes -- Imagens: Leonor Fonseca, © D.R

Anabela Moreira e Margarida Moreira, sim são duas, e sim são as duas atrizes, e provavelmente, como quase toda a gente, já as confundiu num dado momento da vida. A Anabela fez Fátima, Sangue do Meu Sangue, Mal Nascida, Bem-vindos a Beirais, Riscos, etc.  A Margarida fez : Morangos com Açúcar, A Teia, O Bairro, Conta-me como foi, etc. Situada?

Agora que ja sabe quem é quem, temos outra coisa a esclarecer: estas gémeas entram as duas no filme Diamantino. Exatamente aquelas loucas que fazem tudo igual, sendo um verdadeiro espelho humano, não são uma mágica de computador, mas sim a arte destas duas atrizes. A ELLE esteve à conversa com Anabela Moreira, mas também falámos, e muito, da Margarida. Ficámos a saber mais sobre este filme hilariante, mas também conversámos sobre o cinema português e sobre a ‘fatalidade’ de ser a personificação da expressão ‘cara de uma , focinho da outra’. E não se preocupe que fizemos a #onemillionquestion sobre o que as distingue.

ELLE: Neste Filme contracenas com a tua irmã gémia. É diferente estar em cena com ela?

É. Eu comecei por trabalhar com a minha irmã em teatro, depois no primeiro projeto televisivo também fizemos de gémeas. É uma pessoa que tu conheces desde sempre, com quem partilhaste o útero e portanto existe uma dinâmica que não consegues reproduzir com mais ninguém. Eu posso estar virada de costas para ela que consigo intuir o caminho para onde ela está ir. Na antestreia, estava a falar com o Gabriel e estávamos a recordar o casting, onde entrámos logo em sintonia com o que ele estava a pedir e as personagens apareceram como estão no filme logo ali. Houve ali um fenómeno qualquer que só foi possível porque somos gémeas, estamos a fazer espelho uma da outra. Eu não conseguiria fazer isso com nenhum outro ator, nem ela o conseguiria fazer com outra pessoa. E isso não tem explicação. Neste filme como fazíamos de gémeas e trabalhámos em reflexo, como se fossemos um monstro de duas cabeças, isto só poderia ser possível com uma gémea. Além disso nós começámos a trabalhar num registo de comédia, e portanto essa linguagem é natural para nós.

Como é que passaste desse registo cómico para os papéis mais dramáticos que têm pautado uma parte importante da tua carreira?

Foi algo que aconteceu quando fiz a ACT, no último dia de aulas fui logo estagiar para um filme do João Canijo, para uma casa de alterne. Foi uma experiência que não correu bem, não estava preparada para fazer aquele filme. Foi logo o meu primeiro trabalho e o João Canijo é um realizador que procura que sejamos responsáveis pela criação dos nossos personagens e os filmes dele levaram a minha carreira um bocadinho para o lado dramático. Mas fiz outras coisas pequeninas em comédia. Mas o que teve mais visibilidade foram os papéis mais dramáticos, e é normal, como o nosso meio é pequeno, que nos associem a determinado registo. Depois do Sangue do Meu Sangue recebi centenas de propostas para filmes muito pesados que eu recusei.

Porquê?

Porque me ofereciam mulheres que iam ser violentadas, histórias de abuso e violência. E esse era um sítio para onde não queria ir logo a seguir ao Sangue do Meu Sangue. As pessoas viram aquele filme e houve muita gente que quando tinha uma personagem naquele registo, de uma mulher que ia ser maltratada, entraram em contacto comigo. O filme já tinha sido tão intenso, trabalhei nele dois anos, e esse era o último sítio para onde queria ir.

O processo de trabalho do João Canijo é muito  imersivo, os atores acabam por viver muito a realidade das personagens que vão interpretar. Esse é um processo importante para ti, ou é algo que só fazes com o João?

Raramente temos oportunidade de trabalhar daquela maneira. Por muito motivos, umas vezes porque os papéis nos são entregues sem possibilidade sequer de te reunires com os outros atores. O João incentiva isso e promove isso. Tu ires para um sítio viver aquele que será o ambiente do personagem é perfeito embora possa ser contraproducente. Eu senti isso sobretudo no Fátima. Aquilo em qe acredito é que não existem métodos corretos. Não há nenhuma formula perfeita para tu chegares às coisas. Aquilo que o João pretende quando inicia um projeto tem exigido de mim essa imersão, mas nem sempre é possível. Não é possível fazer um processo imersivo para todas as personagens, há coisas que são muito complicadas de trabalhar mas esse é o teu trabalho enquanto ator.  Por exemplo, este filme do Gabriel foi o oposto. Ele deu-nos uma cena no casting e fomos por aquele caminho, depois tivemos duas semanas para ensaiar e pudemos alterar algumas coisas no texto. São métodos diferentes com objetivos diferentes.

Porque razão foi rescrito o guião? 

Porque o Gabriel e o Daniel são dois criativos e respeitam tanto os atores enquanto artistas, que acreditam que a entrada de outros pode elevar o projeto para outro sítio. E quando o Carloto (que faz de Diamantino) decidiu trazer o sotaque açoriano, obrigatoriamente tivemos de rescrever as falas. Eu e a minha irmã fomos à procura na internet de tudo o que existia de registos do sotaque açoriano — que nem existe, nós é que associamos o sotaque de São Miguel aos açores. Também não tivemos nenhuma preocupação com o registo naturalista do sotaque, andámos mais à procura de expressões açorianas.

Que palavras aprenderam?

Muitas das palavras estão no filme, mas agora não me recordo. Nós tinhamos uma lista enorme, sobretudo de ofensas para o nosso irmão. Há uma cena em que andámos a correr atrás de um porco e aí acho que utilizámos as palavras quase todas e ninguém da equipa sabia que estávamos para ali a dizer. Depois a cena até se alongou, porque é muito difícil tu saberes o que vai acontecer quando estás a contracenar com um porco, e por isso dissemos a lista inteira.

Achas que os atores são melhores atores quando têm essa liberdade para participar nos projetos ou depende dos projetos?

Depende muito, não há fórmulas corretas. Há coisas que são muitos intuitivas,  há personagens que já trazes às costas, que já existem, que vêm contigo deste sempre, e portanto é mais tranquilo.

Foi o caso destas gémeas?

Sim. Aquelas duas loucas já existiam. Nós somos pérfidas. A verdade é que toda a nossa vida, por sermos gémeas, despertámos uma grande curiosidade nas pessoas. As pessoas queriam saber o que isso representava. Lembro-me de ser criança e ouvir muitas vezes ‘vocês’, mesmo quando se referiam a algo que não tinha sido eu a fazer, ouvir sempre o ‘vocês’. E por muito que eu me quisesse descolar e ser um indivíduo único, muitas vezes era absorvida pelo comportamento do outro gémeo e englobado num saco. Apesar disso ter alguns benefícios, nem sempre foi simples. O que nós fizemos neste filme foi transformar-nos nesse vocês. Andarmos vestidas de igual, ter o mesmo cabelo, andar com passo igual. Acredito que há imensas gémeas que tiram proveito disso, mas eu e a minha irmã sempre fomos as gémeas que queríamos a nossa individualidade.

Lembras-te do momento em que percebeste que ser gémea não era uma coisa assim tão comum?

Não, mas lembro-me que no colégio a certa altura acharam que nós devíamos estar separadas em turmas diferentes. Não sei qual era a ideia deles, depois arrependeram-se e voltaram a juntar-nos. Foi como se fossemos ali alvo de uma experiência estranha. Quando fomos separadas lembro-me de que esperávamos pelo recreio para finalmente irmos a correr uma para a outra. Acho que foi aí que tive consciência que percebi que não era igual às outras meninas. Elas tinham tido a experiência de estarem sozinhas e eu não.

Ainda te custa essa separação da tua irmã?

Não. A minha irmã sempre foi mais independente de mim que eu, e lembro-me de ela me torturar um bocadinho com isso. Talvez porque acha graça à minha reação. Lembro-me de ela, em muitas ocasiões, dizer que se ia embora, mas acho que ela fazia de propósito. Sempre teve essa maior necessidade de se individualizar. Eu lembro-me que adorava quando me pediam para nos pormos lado a lado para ver a diferenças, ela odiava.

Quais são as diferenças?

Temos muitas, acho que cada vez temos mais. A vida vai moldando muito o rosto e o corpo. A genética tem um componente importante mas a vida também. Ainda me choco muito quando as pessoas dizem que somos iguais. Porque eu vejo muitas diferenças.

Que diferenças é que vês?

Temos o olhar diferente, o rosto diferente, um corpo diferente. Claro que depois, olho para ela quando ela está a mexer as mãos e fico horrorizada porque parecem mesmo as minhas. Neste filme aconteceu a minha irmã estar a ver uma cena específica em que ela não sabe qual de nós é. Isso é estranho.

Não faziam aquela brincadeira de trocar para confundir as pessoas?

Não. Lembro-me perfeitamente que numa altura em que tinha um dos meus primeiros namoricos, houve um dia em que trocámos de casaco por acaso. E eu lembro-me de estar a caminhar na direção dele e ele afastou-se de mim e sorriu para a minha irmã e eu não gostei. Nunca achámos graça a isso.

Achas que tu e a tua irmã foram levadas a desenvolver mais a personalidade e o intelecto, porque o vosso aspecto físico não era suficiente para se distinguirem?

Sim, mas eu tive sempre ao longo da vida uma experiência estranhíssima. As pessoas estavam sempre a confundir-me com alguém e achar que me conheciam. Eu costumava brincar a dizer que devia ter 100 gémeas no mundo. Uma vez o revisor no comboio para Cascais veio ter comigo para me perguntar como estava a minha família. Portanto, não era só uma vaga ideia de que eu era parecida com alguém. Ao longo da vida isto sempre aconteceu. Eu comecei a acreditar que o meu rosto era muito comum.

Como que se lida com isso?

Já nasceste com um rosto igual ao teu, por isso haver mais dez ou vinte iguais, não te causa nenhuma estranheza. Quando comecei a trabalhar, antes da minha imã, e as pessoas a abordavam porque achavam que era eu, ela afastava o rosto por ser mais tímida. E as pessoas começaram a achar que eu era muito mal criada, e muito mal pessoa, porque era falsa. Porque nuns dias falava muito bem e nos outros ignorava-as. Tive de pedir à minha irmã para dizer logo que não era eu.

«Eu lembro-me de andar com a Margarida em Cannes, e as pessoas virem ter connosco a dizer que nos adoravam. Isso nunca me aconteceu em Lisboa. Acho que podia fazer mil filmes, que nunca ninguém viria atrás de mim.»

Este filme ganhou um prémio em Cannes, como foi essa experiência?

Eu comecei a perceber que alguma coisa se estava a passar e Cannes por causa do burburinho e da forma como estávamos a ser tratados a seguir ao primeiro visionamento. Eu lembro-me de andar com a Margarida em Cannes, e as pessoas virem ter connosco a dizer que nos adoravam. Isso nunca me aconteceu em Lisboa. Acho que podia fazer mil filmes, que nunca ninguém viria atrás de mim. E começámos a perceber pela forma como as pessoas falavam do filme e se envolviam com a história. A festa que fizemos em Cannes era a mais concorrida daquele ano, havia pessoas a tentar furar a festa, toda a gente queria estar na festa do Diamantino. E começas a perceber que alguma coisa se está a passar. Já estive em muitos festivais e este filme teve a capacidade de empolgar as pessoas de forma diferente.

Porque é que achas que isso aconteceu?

Este filme, se as pessoas estiverem predispostas a entrar na viagem, porque não é um filme onde se entre logo, tem a capacidade de as apaixonar e colocar um sorriso no rosto, do início ao fim. O Diamantino fala de muitas coisas, mas há uma coisa  muito bonita que é abordada no filme. Este jogador, o Diamantino, é especial porque é ingénuo e bom, ele está em campo e não está a rivalizar com ninguém, está a jogar contra cãezinhos fofinhos cor de rosa, por isso ele consegue fazer coisas extraordinárias com a bola, porque está num mundo de fantasia. Quando um dia estamos em alto mar, no iate dele e vê os refugiados percebe que afinal o mundo não é o que ele pensa, ele perde a concentração. E no primeiro jogo que tem a seguir, não consegue ver os cãezinhos e falha. E não há nada de mais simples nesta ideia. O filme tem outras coisas, mas esta ideia coloca-te num sítio. O Carloto é brilhante na forma como te convence desta pureza, e por isso é um filme que só se pode ver com um grande sorriso no rosto. O filme é um sátira. Uma comédia muito inteligente, que mistura muita coisa, mas ela está toda fundamentada sobre este pilar que é o Diamantino, que todos criticam ou adoram de forma despropositada, e que se equipara à figura do Cristiano Ronaldo, como um Deus, alguém que pode alterar alguma coisa, quando na verdade ele é só um miúdo a fazer o melhor que sabe.

diamantino

Achas que esse sorriso no rosto é conseguido apenas pela inocência do Diamantino ou também porque o filme é uma crítica social muito evidente e próxima das pessoas?

Acho que sim. Mas o filme faz um contraponto da crítica. Tens uma pessoa que está no grau zero do que está a acontecer à sua volta e que é tão gritante. E tu sentes uma compaixão verdadeira por ele. Há uma cena em que ele tem uma mesa enorme que dava para 50 pessoas e ele está absolutamente sozinho a beber um copo de leite, e o único amigo que tem é o Piruças que é um gatinho bebé. E o diálogo que tem com esse gato é comovente. É um filme onde tudo é brilhante e gritante. É um filme que facilmente podia cair para o lado do absurdo, está sempre no limite, muito facilmente se podia ter tornado a coisa mais pirosa, absurda e estúpida de sempre. E isso é brilhante. Por isso é que deixou toda a gente apaixonada.

E o público português vai perceber?

Vai, só tem que dar uma oportunidade ao filme. Comprar o bilhete e entrar na sala, que às vezes é a parte mais complicada. Na anteestreia houve quem dissesse que era a comédia mais hilariante que alguma vez viram, e não estavam a falar de cinema português apenas.

Como achas que o cinema português é visto fora de portas?

Fora de portas nós somos considerados grandes criadores. O cinema português é tido em grande conta nos festivais do mundo inteiro, do mundo inteiro. Eu tive essa primeira noção quando comecei a viajar, já estive em muitos festivais, e há filmes que nós cá nem consideramos muito e lá fora estão na boca de todos eles. Isso é muito positivo. Nós produzimos tão pouco cinema, como não temos público que pague a produção de filmes, porque é impossível que com o público que temos isso seja feito, não podemos produzir muito, e é muito bom que exista um público tão grande lá fora. Nos grandes festivais há sempre pelo menos um filme português. Nós, por diferentes razões, estamos em todos os festivais do mundo e as pessoas gostam muito do nosso cinema.

«Portugal está abandonado. Portugal não existe. As pessoas que pagam os mesmo impostos que eu, e que vivem em Portugal, estão completamente abandonadas, elas não têm teatro, não têm cinema, não têm exposições, não tem transportes públicos, não têm hospitais».

Apesar de já se ver mais cinema português no país ainda existe preconceito. O que é preciso para levar as pessoas a irem mais ao cinema ver produções nacionais?

Sabes, são coisas diferentes. O cinema tornou-se num hábito meramente, ou quase sempre, de entretenimento. E eu não digo que o cinema não possa ser isso, porque acho que há espaço para tudo. Falo sobretudo do cinema americano que ganhou muito terreno e de facto são filmes com outra capacidade. Eu na minha opinião, acho que o cinema americano tem demasiado dinheiro, ou seja, há muita coisa que eles exageram. Eu às vezes estou a ver filmes americanos e penso ‘não lhes fazia mal nenhum terem menos dinheiro’.  São cinemas diferentes, mas que habituaram as pessoas a um registo.  E o cinema português, alguns dos filmes, nunca vão poder competir com esses. Não é o caso do Diamantino.

Achas que é porque o cinema português ser considerado demasiado pesado? As pessoas querem filmes para se distraírem ou para pensar?

Eu vivi estes últimos anos a viajar por Portugal porque tive o privilégio de fazer três documentários — um sobre trás-os-montes, outro sobre as beiras e outro sobre o Minho. E se calhar as pessoas não têm consciência disto, sobretudo nos grandes centros, mas Portugal está abandonado. Portugal não existe. As pessoas que pagam os mesmo impostos que eu, e que vivem em Portugal, estão completamente abandonadas, elas não têm teatro, não têm cinema, não têm exposições, não têm transportes públicos, não têm hospitais, nem centro de saúde. A única companhia que têm é a televisão. E a vida delas é tão triste, não existe nenhum estímulo artístico. Eu às vezes olhava para uma determinada mulher triste, com o rosto marcado, sem alguns dentes, e pensava ‘quem teria sido esta mulher se tivesse nascido na Suécia, Dinamarca, Canadá ou França’. Portanto não podes esperar que as pessoas se interessem por muito mais.

«É perfeitamente aceitável que as pessoa estão a lutar para se manterem à tona, questionarem o investimento que é feito na arte, ou que é feito em coisas que vão para além da sobrevivência».

Como se pode resolver esse abandono, pelo menos, o cultural e artístico?

É uma bola de neve. Quando tu não educas, as crianças na escola, a perceberem que o Estado não é uma coisa exterior a ti, quando não é ensinado às crianças que os impostos têm uma função e que os deves realizar, o que deve esperar do outro lado, como o mecanismo funciona, cresces a achar que tudo isto é uma coisa que não controlas. Portugal sofre de um excesso de sentimento de impotência, ‘eles roubam, mas não podemos fazer nada sobre isso’. Mas não é verdade. A culpa é essencialmente deste estado de inércia, do qual eu faço parte, não estou a criticar ninguém. Recordo-me que na primeira manifestação a que fui, eu ia com pessoas muito interessantes, mas todas elas estavam a rir. E a última a que fui, eu estava a cantar, juntamente com um grupo grande de pessoas, ‘o povo unido já mais será vencido’ e ninguém acreditava no que estava a cantar.  É muito fácil culpar os outros da nossas desgraças, nós enquanto povo, sem nos apercebermos entrámos nesse esquema. Mas a verdade é que a responsabilidade é de todos nós. É ridículo, tu nunca tiveste tantas estradas para chegar a tanto lado e tens os sítios mais desertificados. Quem é que pode gastar duzentos euros em viagem só num fim de semana.

A primeira vez que fiz uma viagem à Europa fui a Barcelona, ia para um terrinha que era a três horas de distância. Aterrei fui até aos comboio e perguntei quanto era o bilhete e a senhora disse ‘trezz’, e eu pensei ‘Treze? isto é super barato!’, perguntei outra vez e ela levantou três dedos como se eu fosse burra. Eram três euros! Sabes o que aconteceu?! Eu fui para a tal terra e sempre que podia ia a Barcelona. Isto é um país verdadeiramente rico, que não isola as pessoas. Portanto qualquer pessoa, estivesse onde estivesse, podia viajar até ao centro. Quando oiço falar em coisas tão anormais como porem as pessoas a pagar um balúrdio para entrar em Lisboa porque querem proibir os carros, só penso ‘resolvam as coisas com inteligência olhando para o que acontece noutros países’. Eu estive agora na Suécia e não há carros na cidade, mas eu não tenho que esperar mais que alguns minutos por um autocarro. Isto é uma bola de neve. As pessoas que podem resolver os assuntos às vezes pensam de forma tão intuitiva e não começam pela base. Olhando para os problemas de fundo. Há tantos exemplos do que correu bem noutros países, que podíamos olhar em vez de tentar resolver as coisas em cima do joelho.

Em Portugal é perfeitamente aceitável que as pessoas estão a lutar para se manterem á tona, questionarem o investimento que é feito na arte, ou que é feito em coisas que vão para além da sobrevivência. A arte é essencial para as pessoas pensarem, a arte é essencial para tu melhorares e cresceres. Os povos mais desenvolvidos, que nos deixaram um legado, sabiam isso, e foi essa arte que chegou até aos dias de hoje.

Achas que se a arte estivesse mais acessível nesses recantos do país, e se fosse mais lecionada nas escolas, achas que o povo seria mais reivindicativo e se conseguiria mudar mais as coisas?

Acho que sim. A arte tem esse caráter. Traz-te liberdade, não te focas apenas em sobreviver. Não estás a fazer alguma coisa apenas porque precisas de sobreviver. Através da arte consegues não atingir só a liberdade mas o auto conhecimento. Se todos fossemos mais auto conscientes, a sociedade também mais consciente. Volto ao exemplo da Suécia, a partir dos 6 anos todos os pais recebem em casa cursos de arte para os filhos, e os pais só pagam trinta euros por ano, para que os filhos possam estudar arte. Acredito que as coisas deviam começar em criança. Mas a verdade é que Portugal está abandonado, e se eu fosse político, rei, ou alguém que tivesse responsabilidade perante um povo, teria muita vergonha do estado em que o meu país está.

Fotografia: Leonor Fonseca
Styling: Mara Oliveira
Make Up: Inês Cristo