Alicia Vikander: «Fomos Todos Criados Num Mundo Construído Com Preconceito»

Depois de uma pausa obrigatória, a atriz está de volta ao trabalho, mas nem tudo está igual. Por: ELLE Portugal Fotos: Hans Feurer - Styling: Hortense Manga - Texto: Hannah Nathanson

«Estou na garagem!», grita Alicia Vikander. A atriz pega no seu computador portátil para me mostrar o local onde está pelo Zoom. Está rodeada por pilares de cimento e uma iluminação industrial, pelo que posso deduzir, que seja uma garagem subterrânea algures em Paris. Rapidamente volto a ver o seu rosto delicado com o cabelo penteado para trás num apanhado de bailarina.

A garagem não é da atriz. É o set da produção fotográfica da ELLE, mas Vikander está perfeitamente feliz com a situação. Afinal, como a atriz nos conta, este é o seu primeiro dia de volta ao trabalho depois de vários meses de pausa.

Enquanto o coronavírus encerrava o mundo, Vikander ficou presa em França, onde estava para ir ao desfile da Louis Vuitton – marca da qual é embaixadora há cinco anos – na Semana da Moda de Paris. Com as fronteiras europeias a fechar rapidamente, Alicia escapou da capital para a sua casa de férias numa pequena vila na França rural, onde passou a maior parte do confinamento com seu marido, o ator Michael Fassbender.

As chamadas de Zoom que atendia lá, quer de trabalho quer para conversar com a família, tinham um fundo um pouco mais caseiro do que o que a emoldura agora, com uma estante de livros e uma janela voltada para o jardim. Pergunto-lhe se alguma vez houve algum risco de Fassbender passar pela janela sem suspeitar que ela estava em videoconferência. Não aconteceu até agora… «Mas é isso que pode acontecer quando estamos fechados em casa», diz a atriz a rir-se.

Por mais aconchegante que seja o ambiente em França, o seu entusiasmo por estar de volta ao trabalho é visível. «Estou mesmo muito animada», afirma. Porém, a atriz não está indiferente ao novo normal. «Aquilo que passámos nestes últimos meses… Dá para perceber como é diferente estar de volta ao que achávamos ser a “normalidade”».

Nos últimos 16 anos, a normalidade de Vikander tem sido relativa. Aos 15 anos, mudou-se de Gotemburgo – na costa oeste da Suécia, onde morava com a sua mãe, também atriz – para Estocolmo para ingressar na Royal Swedish Ballet School. Depois de três anos, Alicia tomou uma das decisões mais difíceis da sua vida: abandonar o ballet. «Foi uma decisão tão difícil que não conseguia estar num estúdio de dança… Durante um ano, tive de me afastar mesmo», relembra.

Mas atuar não era algo de que poderia desistir facilmente, e aos 20 anos conseguiu o papel principal no filme sueco Pure, que lhe valeu um prémio muito importante no seu país. Foi o primeiro de muitos que Vikander já conquistou e, desde então, a atriz tem trabalhado muito, fazendo pelo menos um filme por ano. Em 2015, Alicia participou em cinco grandes lançamentos, incluindo The Danish Girl, pelo qual ganhou o Óscar de Melhor Atriz Secundária. Por volta dessa época, a atriz conheceu Michael Fassbender, seu marido, no set de The Light Between Oceans, onde o ator irlandês foi arrebatado pela bravura de Alicia enquanto atriz. Vikander disse que ficou impressionada com a franqueza do ator, com a forma como ele lhe pedia conselhos para as cenas mais complicadas. O casal casou-se em outubro de 2017 numa cerimónia discreta em Ibiza e escolheu Lisboa para a sua residência oficial, «para fugir de Londres e das grandes cidades».

Pergunto-lhe se eles considerariam trabalhar juntos novamente. Alicia pensa um pouco antes de responder. «Adoraria trabalhar com ele um dia, mas somos bastante independentes, o que adoro e acho que é bom para qualquer relacionamento. Ambos escolhemos os papéis porque é o filme certo para nós, então teria que coincidir ser o mesmo para trabalharmos juntos novamente».Uma das coisas mais atraentes em Vikander é precisamente o processo de escolha de filmes ao longo da sua carreira, que foram muito mais artísticos do que à volta dos  super-heróis de Hollywood. Isto é, antes de herdar o papel de Lara Croft de Angelina Jolie no remake de 2018 de Tomb Raider.

«Debati-me muito com ansiedade e stress ao longo dos anos. O meu pai dizia-me sempre: “O corpo demora três semanas para perceber que tu paraste e estás prestes a relaxar”»

 

Este hiato forçado é, há vários anos, o período maior de tempo em que a atriz está mais do que um mês no mesmo sítio. Como alguém que é conhecida pela sua disciplina e dedicação –Joe Wright, que a dirigiu no seu primeiro grande papel em língua inglesa em Anna Karenina, apelidou-a de “perfeccionista implacável” – ter que parar de repente e apenas existir não foi fácil. «Faz parte da minha personalidade que, se tenho quatro dias de folga, quero usá-los para fazer algo, para explorar um novo país ou ver coisas. Quero usar e abusar do tempo e acho que, por vezes, talvez não seja a maneira mais saudável de viver », reconhece Alicia, acrescentando que o seu pai, psiquiatra de profissão, costuma-lhe dizer isso.

«Debati-me muito com ansiedade e stress ao longo dos anos. O meu pai dizia-me sempre: “Sabes, Alicia [ela pronuncia o nome com um forte sotaque sueco para imitar o pai], o corpo demora três semanas para perceber que tu paraste e estás prestes a relaxar”. Tenho ouvido várias vezes a voz dele a dizer-me isto nos últimos tempos [durante a quarentena]», partilha.

Só ao fim de cinco semanas na mesma casa é que a atriz conseguiu começar a «realmente gostar de estar comigo mesma… Foi lindo ter um dia em que estava entediada. Foi incrível». Será que Vikander vai levar um pouco desta calma recém-descoberta para a vida pós-covid? «Acho que não há problema em trabalhar muito, e depois tirar três ou quatro semanas por ano… Vou seguir a regra das três semanas do meu pai e tentar dedicar algum tempo a recarregar baterias para depois começar novamente» diz, como uma promessa a si mesma.

Agora, Alicia está preparar-se para o lançamento do seu próximo grande filme, The Glorias, uma história biográfica baseado no livro My Life on the Road, da feminista Gloria Steinem. Vikander é uma das quatro Glorias, o que explica o título – ao lado de Julianne Moore, que retrata os anos mais velhos do ativista, e duas estrelas em ascensão que retratam as jovens Glorias. Vikander interpreta os anos de formação da ativista, dos 20 aos 40 anos. A sua primeira cena é num comboio lotado na Índia, partilhando chai numa carruagem cheia de mulheres vestidads com sarees. Foi durante essas viagens que Steinem foi impactada pela compaixão das ativistas locais que íam às aldeias e conheciam de perto as batalhas das mulheres. Inspirada, Gloria voltou para Nova Iorque, onde cancelou o noivado e começou a sua carreira de jornalista, tendo mais tarde fundado a revista feminista Ms.

A interpretação de Vikander já está a ter buzz para os Óscares. Mas, além disso, é uma personagem que a atriz claramente admira – mais ainda depois das longas conversas que teve com outras mulheres sobre a vida de Gloria. «A primeira coisa que fiz quando li o livro foi ligar para a minha mãe e para as mães de alguns dos meus amigos para ouvir as suas memórias daquela época. Fiquei impressionada com a jornada que ela e mulheres como ela fizeram ao longo da história», afirma.

«Todos fomos criados, de forma inconsciente, num mundo construído com preconceito generalizado como base»

 

Parece que o sentimento foi mútuo. Quando pergunto a Steinem sobre Vikander interpretá-la em filme, a jornalista diz que o desempenho dela é extraordinário: «Apenas [a realizadora] Julie Taymor – um génio em todos os sentidos, incluindo na seleção do elenco – para entender que uma atriz sueca/europeia podia habitar em mim, uma americana do Ohio. Desde almoçar com o meu pai num restaurante tipicamente americano a viajar com mulheres num comboio pela Índia, a Alicia capturou emoções que não podem ser descritas… Ela inspira aquela qualidade mais rara e essencial: a confiança».

Desempenhar o papel de Steinem e poder conhecê-la desencadeou uma epifania pessoal em Vikander: «Cresci com uma mãe que me ensinou o que o feminismo é desde os meus cinco anos», diz. «Mas todos fomos criados, de forma inconsciente, num mundo construído com preconceito generalizado como base. Depois de ver o trabalho e a história da Gloria, sinto que estamos a ser novamente confrontados com o reconhecimento que tem sido um caminho muito difícil. Muito trabalho e reflexão foram colocados nesse percurso, ele não acontece por si só. O tempo ajuda, mas a evolução também se deve a algumas pessoas incríveis que foram aparecendo e que têm sido ousadas mesmo quando o mundo inteiro as tenta silenciar».

Vikander falou com Steinem sobre os seus medos de desafiar o status quo. Como mostra o filme, a ativista tinha pavor de falar em público no início. Essas conversas ajudaram Vikander a enfrentar alguns dos seus próprios medos. A atriz descreve os seus trinta anos como uma nova década, com mais conteúdo.«Comecei a ser um pouco mais gentil e simpática comigo mesma, finalmente», diz melancolicamente. «Quero fazer tantas coisas, quero progredir e quero ser inteligente e esperta e aprender sempre mais. Mas acho que quando estás na casa dos vinte é difícil, porque estás a tentar descobrir quem és».

Parte da epifania de Vikander foi perceber que é normal mudar de opinião.«Acho isso fundamental e foi algo que a Gloria me disse também». No ano passado, a atriz passou por um processo evolutivo inconsciente. «Foi tão interessante. Percebes que existe toda esta informação no teu cérebro que te foi ensinada e que está certo teres uma opinião. Achei que via o mundo de uma determinada forma e agora essa visão está a começar a mudar. Isso é algo que a Gloria me disse que era normal: haver diferentes versões de ti mesma porque estás em constante mutação».

«Tive muita sorte em sair do conservatório de ballet sem sofrer de nenhum transtorno alimentar. Não sei como, acho que foi por a minha mãe falar comigo sobre isso todos os dias»

 

O talento óbvio da atriz nem sempre foi sinónimo de confiança. Os anos (e as pessoas que encontrou) permitiram-lhe encontrar o seu espaço e ter coragem de falar. Embora Vikander afirme que nunca foi vítima de assédio sexual durante filmagens, a atriz lembra-se de outros ambientes desconfortáveis: «A maioria foram homens, mas mulheres também, que falaram sobre sexo no set de uma maneira que simplesmente não acho apropriada num ambiente de trabalho», diz. «Percebo bem o que pode correr mal nessas situações».

Alicia viu uma mudança notável desde o movimento #MeToo; entretanto, um projeto recente para a Netflix envolveu uma sessão de grupo de três horas com o elenco, onde falaram sobre limites – Vikander diz que é uma pessoa de abraços mas percebeu que nem toda a gente quer ser abraçada em filmagens – bem como estabelecer certas regras, incluindo dois colegas não poderem encontrar-se num quarto de hotel para discutir trabalho. Ela sentou-se ao lado de Riley Keough, sua colega de elenco e, quando saíram da sessão, conta que não conseguiam acreditar ao que tinham acabado de assistir. «Dissemos que se tivéssemos tido estas conversas aos 20 anos, as coisas teriam sido diferentes».

A ética e rigor do trabalho de Vikander são anteriores à sua chegada a Hollywood e o culpado é o ballet. A sua relação com esses anos de formação não é linear: sim, ganhou disciplina e ética de trabalho, mas também tanto ela como o seu corpo adolescente foram colocados sob muito stress. Os efeitos que tiveram na sua imagem corporal permanecem com Vikander: «Estar a usar um body durante sete horas por dia, seis dias por semana, à frente de um espelho em que te vês o tempo todo, com outras pessoas a falarem sobre o teu corpo à tua frente e de outras meninas e meninos… Crescer com isso não é saudável», reflete.«Tive muita sorte em sair do conservatório de ballet sem sofrer de nenhum transtorno alimentar. Não sei como, acho que foi por a minha mãe falar comigo sobre isso todos os dias», relembra. No entanto, depois de abandonar o ballet, o seu corpo mudou. Só anos mais tarde, durante a preparação intensa para o papel de Lara Croft, e que resultou no ganho de 5kg de músculo, é que a atriz realmente entendeu a importância da dieta e de ter uma rotina saudável para ficar forte. Este regime, em breve, poderá ter que ser retomado se as conversas sobre Tomb Raider 2 avançarem, o que ainda não se sabe neste clima de incerteza.

Pergunto-lhe se acredita no destino e nas coisas acontecerem por um motivo. Afinal, houve uma altura em que parecia improvável que Alicia seria capaz de fazer os filmes The Danish Girl e The Light Between Oceans devido a conflitos de agenda, que acabaram por ser resolvidos. Os dois filmes foram fundamentais para a sua vida: o primeiro deu-lhe um Óscar e o último apresentou-a ao marido. «Acho que as coisas vêm e vão. Joguei muito Yahtzee [o jogo de dados] durante a quarentena. É muito estranho quando jogas mil vezes e percebes que no final vão calhar sempre os mesmos números às duas pessoas. Mas, de alguma forma, ao longo dos dias, podes ter a maior das sortes e ganhar 14 vezes seguidas», diz a rir-se. «Às vezes, estás demasiado ocupada para perceberes que estás a ter um bom desempenho e podes ficar consumida com as coisas difíceis por que estás a passar… Acho que é assim na vida. Pode sempre calhar-te o jackpot!» afirma, abanando os braços de forma entusiasmada à frente do ecrã.

E neste tom de maré de sorte, a atriz sai da garagem e recomeça a trabalhar. Não há dúvida de que, para Vikander, estão outros jackpots na calha.