Como Alba Baptista Se Tornou Na Estrela de Uma Série Internacional

Falamos com a primeira atriz portuguesa a protagonizar uma série da Netflix. Por: Carolina Adães Pereira Imagens: © Gonçalo Claro - Cabelos e Maquilhagem: Tom Perdigão.

Desde que a quarentena acabou, Alba Baptista tem andado muito ocupada. Quando nos encontramos, precisamente uma semana antes da sua estreia num dos maiores palcos à escala mundial, a Netflix, a atriz luso-brasileira parece serena. «Por fora, eu, sem dúvida, tento desfragmentar um pouco a dimensão deste projeto e desta oportunidade, porque foi feito com verdade e com muita dedicação e não posso dizer que faria diferente», afirma a atriz. No entanto, «[sentir] pressão é inevitável e existe desde o dia em que fui escolhida. Isso vai estar sempre lá no fundo, no subconsciente», conclui.

E não é para menos. Provavelmente já ouviu falar de Alba. Se ainda não tinha ouvido antes de junho, com toda a certeza já sabe quem ela é por esta altura. A atriz de 23 anos (feitos no passado dia 10 de julho) já falou com todos os meios de comunicação portugueses nas últimas semanas e tudo devido à estreia da série Warrior Nun, inspirada na manga Warrior Nun Areala, publicada nos anos 90. Sem spoilers, revelamos que Alba interpreta a protagonista Ava Silva, uma jovem tetraplégica que, depois de morrer no orfanato, onde viveu praticamente toda a sua vida, ressuscita com superpoderes. Isto faz de Alba Baptista a primeira atriz com nacionalidade portuguesa a assumir o protagonismo de uma série inglesa da famosa plataforma de streaming.

A oportunidade surgiu em 2018, depois de um convite para marcar presença no festival de cinema internacional Subtitle, na Irlanda. «Durante uma semana, vemos muitos filmes e temos entrevistas com diretores de casting e produtores. Num desses dias, conheci uma diretora de casting que disse que achava que eu era perfeita para um papel. Fiz o casting lá e o resto é história». E a história é que, depois de Alba trazer também o prémio de Atriz Revelação dessa edição do festival, recebeu a confirmação que o papel era seu e mudou-se para Málaga para gravar a série.

Apesar deste ser o seu primeiro projeto internacional, a aventura por outros mercados não é uma novidade. «Em 2017, já estava a tentar internacionalizar, mas é muito difícil vencer e estava numa altura da minha vida onde ainda não tinha atingido a maturidade que sinto ser necessária para dar esse passo», constata a atriz. «Estou feliz por não ter acontecido nessa altura, por mais que lutasse e batesse com o pé no chão. O universo trabalha de maneira perfeita, mesmo com os nãos que recebemos. Faz tudo sentido».

Mas só faz sentido quando há trabalho, foco e rigor envolvidos e isso é mais do que visível no currículo versátil de Alba. Depois da curta Miami de Simão Cayatte, em 2014, a atriz tem andado muito ocupada entre telenovelas, séries de televisão e (principalmente) cinema, onde começou a sua carreira, aliás. Um começo um pouco atípico no panorama português. «Geralmente, não sei, os jovens atores em Portugal costumam ter a primeira oportunidade em televisão, nomeadamente em novelas porque é o meio mais aberto para acolher novas caras», partilha. «Tive a sorte de começar em cinema porque introduziu-me à indústria de uma maneira muito íntima e muito cautelosa».

Nota-se pelo brilho dos olhos que o cinema é um caso sério para Alba. «Sim, sem dúvida que cinema é sempre diferente», revela. Desta forma, não é de estranhar que a Sétima Arte seja uma constante para a atriz e o momento presente é prova disso mesmo: Alba participa em Patrick, o aplaudido filme de Gonçalo Waddington, que está em exibição nas salas de cinema, e está a gravar um filme francês, produzido por Paulo Branco, onde a luso-brasileira vai falar francês e português.

Alba Baptista

Sim, já contámos, três línguas diferentes em projetos distintos neste artigo, mas Alba sabe falar fluentemente cinco (mais alemão e espanhol, uma consequência de ser filha de uma tradutora de profissão e ter frequentado um colégio bilingue). Parece que tudo no percurso da atriz foi desenhado para que esta oportunidade chegasse, mas em poucos minutos ouvi referências à sorte e intervenções cósmicas como as responsáveis pelo seu sucesso, o que me intriga.

«Uma grande amiga minha disse-me: ‘Alba, tens que parar de dizer que foi sorte porque estás a dar uma imagem tua que não corresponde à realidade. Vi como tem sido o teu processo e perdeste muitas horas de sono e talvez anos de vida por isto’», conta-me com um sorriso no rosto. «Acho que é algo intermédio entre as duas coisas, entre a componente de acreditar que sim, que as coisas vão correr bem e, claro, a minha dedicação», afirma. «Mas se formos pensar sob um aspeto mais pragmático – por exemplo o ter sido convidada para o festival Subtitle que me deu oportunidade para fazer o casting – digo sempre que foi sorte ter tido um convite para este festival mas, na verdade, trabalhei muito para ter um currículo vasto que me permitiu fazer um vídeo com montagens dos meus filmes para participar. Por isso claro, pensando de uma maneira mais pragmática, sorte… O que é sorte? Mas eu gosto de ser um pouco mais aérea nesse aspeto e gosto de acreditar nos dois lados», conclui.

A verdade é que esta forma de estar na sua carreira parece estar a resultar, principalmente se tivermos em conta que é um dos recentes talentos a ser agenciado pela UTA, a mesma agência de atores como Frances Mcdormand e Harrison Ford, entre outros.

 

«Tive a sorte de começar em cinema porque introduziu-me à indústria de uma maneira muito íntima e muito cautelosa».

 

Nos últimos meses, se houve algo que nos garantiu distração foi precisamente o conteúdo televisivo, que aumentou imenso. Será que isto deixa Alba ansiosa? «Não, entusiasma-me. (…) Fico feliz que a nossa série saia nesta altura do ano. Vai para sempre ter uma conotação de série de verão para mim e eu gosto. Também vai ter a conotação do meu aniversário, que eu [também] gosto».

No momento que falamos, apenas o trailer estava disponível no Youtube, e Alba confessou-me que não sabia quantas visualizações tinha. Pergunto-lhe se quer saber. Com uma expressão tímida, quase embaraçada, encolhe ligeiramente os ombros. Interpretei o discreto movimento como um sinal para avançar: mais de 1,6 milhões. Primeiro o choque, depois a surpresa e, por fim, um sorriso enorme «WOW! Que bom, que maravilha! Não estava à espera. WOW! Olha, fico muito contente», diz. E se naquele instante só podíamos falar de suposições, ambições e sonhos, neste momento já podemos falar de resultados: a série estreou logo no primeiro lugar no top 10 da Netflix Portugal e também entrou nas tabelas de outros países, incluindo o Brasil. Os seguidores de Alba no Instagram quadruplicaram numa questão de dias e os pedidos por uma segunda temporada já se fazem ouvir, que «há probabilidade [de acontecer], sim», garante-nos a atriz.

Alba Baptista

Com o nosso tempo a chegar ao fim, recordo uma entrevista que Alba deu à ELLE em janeiro de 2018, na qual lhe perguntamos quais eram os próximos passos da sua carreira. A resposta foi de que gostava de fazer um grande projeto «no qual pudesse provar as qualidades que eu tenho ou que talvez nem saiba que tenho». Será que foi uma profecia para este momento que Alba está a viver agora? «Que engraçado! Adequa-se na perfeição a este projeto. Provei qualidades que eu acho que tenho e fui desenvolvendo com os anos – e que, neste caso, é o lado mais dramático, a componente mais séria de uma personagem. E também descobri algo que não sabia que tinha, que é a componente da comédia».

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de Agosto/Setembro 2020.