Valentino Leva as Servas de Handmaid’s Tale Para a Passerelle

É comum nos desfiles de Pierpaolo Piccioli as modelos surgirem de cabeça tapada. Por: Margarida Brito Paes -- Imagens: © Imaxtree e D.R.

As linhas românticas e longas de Valentino, com vestidos compridos e decotes justos ao pescoço, fazem da marca uma das predilectas no mercado Árabe. Talvez por isso Pierpaolo Picciola recorra frequentemente a estas linhas e opte por tapar os cabelos das modelos em muitos dos seus desfiles. Lembramos que no seu último desfile de Alta Costura, a primeira proposta foi um vestido cor de rosa que se estendia da cabeça aos pés, deixando apenas de fora o rosto da modelo.

Desta vez, nas propostas de outono-inverno 2019/20, a Valentino esconde os cabelos das modelos com recurso a um chapéu. Tudo seria normal se este chapéu não se assemelhasse tanto com as wings usadas pelas servas de The Handmaid’s Tale. Para quem não conhece a série, passamos a explicar: as wings são um acessório de cabeça, uma espécie de toucas com pala, que é usado pelas servas de Hulu – escravas sexuais que têm como objetivo assegurar a descendência humana, durante um Governo extremista que tomou os EUA – quando vão à rua, as palas servem para que elas tenham a cara o mais escondida possível, e dificultar-lhes a visão, para que não olhem  para o mundo à sua volta, mas apenas para o caminho que estão a percorrer.

Estas wings são, portanto, um objeto de repressão feminina na série. São um acessório que não existe fora desta distopia, e que, como tal, não tem valor comercial. É isso que as torna diferentes dos lenços, que apesar de muitos considerarem também um objecto de repressão feminina, é um acessório usado por muitas mulheres no mundo e, como tal, tem efetivamente um objetivo comercial. É por isso estranho que Pierpaolo traga para a ribalta da moda chapéus que em tanto se assemelhem a este elemento da série The Handmaid’s Tale, sem nenhuma explicação sobre o assunto. Ainda assim, é possível que a semelhança seja uma mera coincidência e que as wings não tenham sido o ponto de partida para estes chapéus que toldam o olhar feminino.

As outras aparições das Wings de The Handmaid’s Tale na moda

Ainda que este acessório de cabeça tenha uma carga de repressão muito grande, conferida pelo contexto em que foi inventado, também pode ser visto como um símbolo de resistência, já que a protagonista da história se recusa a desistir dos seus direitos, mesmo depois de todos os esforços para a vergar. Foi esse carácter de resistência que Vera Wang usou para justificar o uso deste acessório na sua coleção de primavera-verão 2018. Na mesma estação também a Preen usou a resiliência de June, protagonista da série, como inspiração, e levou para a passerelle as wings.

Poderá Valentino estar a fazer o mesmo? Pode, mas é um erro não deixar clara a sua intenção. Quando os símbolos utilizados na moda são demasiado dúbios é sempre bom estar consciente de que a Moda nunca fala só de roupa, que é muito fácil ser mal interpretado. Estes chapéus correm o risco de o ser, porque apesar de se poder tratar apenas de um reinvenção dos chapéus de pesca, que tanto têm sido usados dentro e fora da passerelle, têm semelhanças indiscutíveis com as toucas das servas de Handmaid’s Tale, e foram criados por um designer que tapa frequentemente a cabeça das modelos.

Este ano já assistiu a várias polémicas no mundo da moda, relacionadas com a apropriação cultural e o racismo, e, no passado, algumas campanhas tiveram de ser retiradas do ar depois de serem acusadas de sexismo. Se vai acontecer alguma coisa aos chapéus da Valentino não sabemos, mas sabemos que a moda e a política andam de mãos coladas uma à outra.