‘Deixa-me Ir Ao Teu Caixote do Lixo’ Disse Valentim Quaresma e Fez-se Magia

O primeiro dia de desfiles da ModaLisboa ficou marcado pela arte de reciclar de Valentim Quaresma. Por: Margaida Brito Paes -- Imagens: ModaLisboa

Do velho fez-se novo na coleção de Valentim Quaresma que utilizou para a criação das peças de joalharia materiais que já existiam. Se algum dia este designer lhe pedir para ir ao seu caixote do lixo, não estranhe e anime-se porque ele sabe do que fala, e já tem provas dadas de que normalmente o toque de Midas não lhe falha, quando falamos de criar joias.

«Fiz muitas coisas recicladas e com aproveitamento de materiais. Eu procuro matéria prima na Feira da Ladra, na Internet, em algumas coisas que me dão, às vezes no lixo, onde também encontro coisas interessantes», contou sem pudores o designer à Elle, depois do desfile.

Estes materiais que pouco ou nada valiam sem a intervenção artística de Valentim, transformaram-se em acessórios de cabeça, colares e coletes que parecem armaduras, com uma estética geométrica que parece, propositadamente, ter sido arrancada do futuro. No entanto, o designer deixa um aviso com um sorriso matreiro, não nos devemos deixar enganar por esta aparência avant-garde porque «as peças são todas muito fáceis de usar. As peças de cabeça, por exemplo, são apenas pulseiras, tem tudo a ver com o styling».

O regresso ao futuro

O sorriso de raposa velha e a noção de futuro de Valentim, vêm curiosamente do mesmo lugar, ou melhor da mesma pessoa: o Valentim Quaresma quando ainda nem tinha barba. «Esta coleção começou com um pensamento que eu tinha aos 10 anos, que era: ‘daqui a 40 anos vou ter 50 aos e vou estar no futuro’. Comecei a pensar o que era para mim o futuro nessa altura, a pensar também na liberdade e no medo, que tinha». Acontecem sempre coisas curiosas quando nós adultos, nos agachamos para ficar à altura de uma criança e olhamos para o mundo da perspectiva deles, mas mantendo a massa crítica que cultivámos, tantas vezes à custa de suor e lágrimas, com a idade. Foi isso que Valentim fez e o resultado foi uma coleção muito geométrica, aparentemente muito complicada, mas quando desmontada bastante simples – feita, portanto, à imagem e semelhança da Humanidade. Nas linhas vêem-se as inspirações da ilustração Manga, mas também alguns ares de Guerra das Estrelas.

O desfile de Valentim Quaresma foi o terceiro em nome individual do primeiro dia de desfiles da ModaLisboa, e o que mais se encheu de criatividade. Apesar de ter sido nos jovens talentos que a inovação e proposta de novas ideias mais se fez sentir, como é apanágio de quem ainda tem uma cabeça cheia de sonhos por realizar, e uma sede insaciável de deixar uma pegada nesta terra.

Além de Valentim Quaresma e Sangue Novo

Sexta feira, 8 de março, foi ainda dia de desfilarem: as criações de inspiração desportiva da Duarte, os néon e tie-dye de Carolina Machado, que se inspirou no clubs dos anos 90 e as propostas seguras e discretas de Ricardo Preto. As modas seguem caminho até domingo, com arraiais assentados no Pavilhão Carlos Lopes.

Este sábado, 9 de março, a passerelle da ModaLisboa recebe mais 8 designers dos quais se destaca a estreia de João Magalhães, e os sempre lotados desfiles de Gonçalo Peixoto , David Ferreira e Luís Carvalho. Outra novidade é a presença de Carlos Gil na passerelle lisboeta, a apresentação surge no âmbito do protocolo assinado entre a ModaLisboa e o Portugal Fashion, assinado em setembro de 2018.