Um Adeus à Mais Icónica Loja da Topshop em Londres

Imagens: © GTRESONLINE. - Texto: Beatriz José

Selfridges, Harrods, Topshop (e para quem viaja com crianças – Hamleys) são paragens obrigatórias para quem visita (e havemos de voltar a visitar!) Londres. O ano ainda agora começou e já temos notícias avassaladoras para o mundo da moda high street – a Topshop fechou a sua maior flagshipstore em Oxford Street. A loja com cinco pisos, que nos seus mais de 8 mil metros quadrados dava casa a um salão de manicure, um DJ residente e um café, encerrou as suas portas com a notícia de que a loja foi posta à venda. O edifício está estimado ser vendido por 225 milhões de Euros.

Não é novidade que o grupo que detém a Topshop, o império Arcadia, está em dificuldades, em grande parte por não conseguir concorrer com as lojas online e tantas outras que oferecem preços mais competitivos. Ainda pré-pandemia, o negócio estava em baixo e sem conseguir ver sinais de melhoria. Durante a quarentena, levou um murro no estômago – Phillip Green, dono do grupo Arcadia, deu ordem de fecho a mais de 30 lojas no Reino Unido.

Durante mais de 20 anos, mães foram arrastadas para esta loja por adolescentes desesperadas em ter um par de calções de ganga, ou aquelas Joni jeans. Mas o que aconteceu à marca para contribuir para o seu declínio?

topshop kate moss

Topshop e os 2000’s

A loja abriu portas em 1994 e rapidamente ganhou espaço nos corações dos londrinos e dos turistas que visitam a cidade. A sensação de visitar Oxford Street e ao longe avistar o frenesim e os ajuntamentos à porta da icástica loja, que diariamente recebia mais de 25 mil pessoas era inigualável. Era uma peregrinação com data marcada, quase que um ritual de passagem, em particular para aqueles que não podiam visitar todas as semanas, como as sortudas das inglesas que compravam Topshop como nós comprávamos Zara (os papéis inverteram-se, não foi?). Quem se lembra de em 2015 ter havido burburinho sobre uma possível abertura da Topshop no Colombo?

O início dos anos 2000 foram os anos de ouro da marca, que passou de marca teen a cool, associada a it-girls como Kate Moss e Alexa Chung, dando o salto para a passerelle com a linha Topshop Unique, sendo a primeira marca com preços acessíveis a pisar a Semana da Moda de Londres.

O trânsito parou quando Moss anunciou, em 2007, uma coleção em parceria com a Topshop que seria lançada na joia da coroa, em Oxford Street. As peças esgotaram em minutos. Era a primeira vez que podíamos estar iguaizinhas às nossas musas, sem ter de perder horas a rastrear lojas à procura “daquela peça”. O lançamento foi um fenómeno, milhares faziam fila à porta da loja. A parceria com a modelo acabou em 2010, mas não foi a última vez que a marca se aliou a celebridades como estratégia de parceria e marketing – em 2016 foi a vez de Beyoncé com a marca Ivy Park, que crashou o website no dia do seu lançamento.

Fast Fashion, Sustentabilidade e Acusações

O fecho da loja é um momento triste na história da marca, mas não é uma surpresa. Com as marcas a apostarem no online, vejamos porque já era expectável.

Para Pandora Sykes, escritora e colunista, a realidade é que o fast fashion não está limitado a uma geração. Os millennials compram na velha guarda, à qual a Topshop pertence, enquanto a Geração Z mais facilmente compra através de meios mais sedutores, como os grandes do online shopping: Boohoo e Pretty Little Thing. O público-alvo da Topshop tem vindo a perder apoiantes nas idades mais jovens, quando antes apelava a uma camada dos 13 aos 45 anos, agora será mais uma geração nos seus vintes que compra na Topshop. Estas idades mais jovens compram em marcas que talvez nem tenhamos ouvido falar mas que o seu impacto nas restantes lojas é estrondoso. Como podem as marcas concorrer com casos como o biquíni de 1€ à venda na Missguided, em Junho de 2019? Já lá vai o tempo em que na loja de Oxford Street se vendia um par de calças de ganga por minuto, como em 2017 afirmava Emma Fox, Directora de Compras da Topshop. Há uma percepção, muito por culpa das redes sociais, que temos de ter sempre uma peça de roupa nova e as lojas mais antigas começaram a não conseguir acompanhar o tempo recorde em que marcas que apenas têm presença online demoram na confeção, desde a ideia ao carrinho de compras. E a pandemia apenas veio acelerar a mudança de mentalidades para as compras online, que infelizmente a Topshop não conseguiu acompanhar, sendo agora not so cool ao lado dos seus pares.

Ainda assim, o modelo de negócio da Topshop é um modelo pensado em dar resposta de produção em massa, quando antes se focava nas 4 estações. E se assim o é, é natural que não seja a primeira marca que nos vem à cabeça quando pensamos em sustentabilidade. A empresa é acusada de não tomar os passos suficientes em prole do ambiente e numa altura em que os consumidores levam isso tanto em conta, acaba por pesar na altura de comprar. Isso e o facto de o dono do grupo [imagem em baixo] ter sido mencionado numa série de acontecimentos envolvendo escândalos e acusações de assédio sexual e racial. É todo um culminar de razões e motivos que levam a Topshop a não ser a primeira opção quando precisamos de comprar mais um casaquinho.

Vai Deixar Saudades.

O mais triste é que Londres perde uma das lojas mais fun de sempre. Charriots cheios de glitter, pelo sintético, o último grito das tendências, calças para todos os tamanhos e feitios e, sem dúvida, algo que as marcas desta vida deviam por os olhos – secções petite, maternidade e tall. A Topshop sempre foi uma marca inclusiva, para todas as idades e não haverá em Londres outro espaço tão desafiante e marcadamente feminino, tão brevemente.

Pondo a minha nostalgia pessoal de lado, tiro o chapéu a quem ocupar este icónico espaço em Oxford Street que será muito difícil de superar. Até lá, podemos continuar e comprar (conscientemente) online, e apesar de fechar as portas uma última vez, o seu legado permanece. Que este seja um obituário à mega-boutique da cadeia Topshop.