Tommy Hilfiger: «Estamos a mudar para nos tornarmos numa empresa sustentável»

Falamos com o designer e fundador da marca sobre a coleção com Zendaya, o seu passado, e o futuro. Por: Vítor Rodrigues Machado -- Imagens: GTRESONLINE e D.R

Encontramo-nos com Tommy Hilfiger nos escritórios da marca (no número 285 da Madison Avenue, em Nova Iorque) na manhã do dia em que apresentou a sua coleção de outono-inverno 2019/20, desenvolvida em parceria com Zendaya. Nos corredores, consegue-se sentir a energia do que está para vir a pulsar. Vemos responsáveis de PR a andar para trás e para a frente, celebridades (como Meghan Trainor ou Marina Ruy Barbosa) a entrar e a sair após terem provado as roupas que vão usar para o desfile, e entre esta azafama toda, o designer e diretor criativo da marca encontra-se connosco.

Abrem se as portas do seu escritório onde o designer nos recebem de sorriso no rosto. O espaço, todo ele, é em tons claros (paredes brancas, alcatifa num tom de bege claro, poltronas em branco com uma linha preta que demarca as suas formas) parece saído de uma verdadeira revista de decoração. No meio estão dois sofás feitos a partir de retalhos de denim, onde ambos nos sentamos para começar a entrevista. O gravador começa a captar o som:

ELLE: Está de volta com mais uma coleção desenvolvida com a Zendaya. Por isso a minha primeira questão é: O que é que ela tem, aos seus olhos, que a torna não especial?

Tommy Hilfiger: Tudo. Ela têm imensos talentos. Ela não é só uma das mais brilhantes estrelas de Hollywood e de televisão, mas também cantora, ativista, bonita, inteligente. Ela tem uma série de talentos. Já para não falar no seu incrível sentido de estilo.

Sem sombra de dúvida. Aliás o trabalho que tem desenvolvido juntamente com o Law Roach tem sido…

Espetacular!

Exatamente.

Para esta coleção, foi buscar inspiração os anos setenta, ao empoderamento feminino, e à celebração da singularidade de cada um. Existiu algum motivo especial que o tivesse feito escolher seguir por este caminho?

Na verdade, foi uma ideia dela [Zendaya]. Ela surgiu com esta ideia e adorei por completo. Porque foi quando comecei no negocio e eu entendo tudo que está relacionado a isso: os looks, as formas, as cores, os tecidos…  Quase que posso fazê-lo de olhos fechados. Porque está tão gravado na minha memória… No entanto, tornamos tudo um pouco mais atual, mais para os dias de hoje.

E como é que tudo isto ganhou vida entre os dois. Como é que funcionou o processo criativo?

Foi incrível. Ela e o Law trouxeram quadros com uma série de ideias diferentes para uma reunião de design que tivemos em Los Angeles. Inicialmente estavam tapados, mas ao ver aquilo pensei “Como é que lhe vou explicar que temos que fazer as roupas de uma certa forma”. Mas assim que ela mos mostrou com todas a fotos e inspirações eu disse  “Oh meu deus é incrível, vamos fazê-lo!” E fizemo-lo.

Esta coleção vai ficar disponível para compra durante o desfile, através do modelo See Now Buy Now, um modelo que já muitas outras marcas adotaram e abandonaram logo em seguida. Por isso a minha questão é: porque é que decidiu continuar?

Porque acho que os millennials querem as coisas no imediato, e querem poder vesti-las no mesmo dia. Eles não tem paciência. Não querem ver algo na passerelle e esperar seis meses para os usar, eles não têm a paciência para isso. Eles já os viram nas redes sociais, nas revistas, em celebridades, eles não querem esperar, por vezes, mais do que seis meses para as ter.

 

«Lembro-me que no final desse desfile, perguntei ao meu irmão Andy: ‘Quem é aquela no centro que está a cantar mais”, e ele disse: ‘O nome dela é Beyonce’. E eu respondi: ‘ela vai tornar-se numa estrela’. Então ela tornou-se no rosto da nosso perfume True Star

 

Tem uma longa carreira de 35 anos, que lhe permitiu construir este verdadeiro império. Como é que foi para si começar tudo isto?

Olha, no início eu só desenhava roupa para mim, uma coisa muito beto-americano cool, mas depois, com o tempo, comecei a fazer coisas mais desportivas, com o logo vermelho branco e azul. Nessa altura, as pessoas do hip-hop adoraram-nos. E então começamos a fazer streetwear, aliás, fomos os primeiros a fazer streetwear. Na altura ninguém o estava a fazer, pelo menos não com aquele aspecto oversized do hip-hop, que tem um lado muito cool. E graças a isso, tornamo-nos parte da cultura.

E como é que se sente, olhando para tudo isso, para tudo aquilo que alcançou, quando pensa no jovem Tommy Hilfiger de 20 anos.

Bem, a primeira coisa que penso é que tem sido uma longa caminhada. Na verdade comecei com a minha própria loja, quando tinha 18 anos ( há 50 anos), e eu não sabia o que estava a fazer. Eu só sabia que queria criar algo que se assemelhasse ao que as estrelas da música usavam. E queria que os meus clientes se pudessem integrar nessa onda cool, com as calças a boca de sino, e camisolas com franjas, os cabelos compridos, as missangas… Foi na altura do verão do Woodstock, então aquela vibe hippie, estava a acontecer. Mas bom, como estava a dizer, eu tinha a minha loja que estava a crescer, e então eu pensei “eu acho que a agora gostava de criar a minha própria marca”. Sempre que dizia isso às pessoas elas ficavam do tipo ‘O quê? Tu queres construir uma marca? São precisos ziliões de dólares’. Bom, nessa altura, passei por um processo de bancarrota (por causa das minhas lojas de calças de ganga), e isso ensinou muito sobre o negócio. Porque até aquela altura não tinha prestado atenção nenhuma a essa parte. Foi então que, depois de me ter focado em aprender coisas sobre o negócio, eu disse ‘agora acho que posso começar a minha própria marca. Porque sei que tenho a criatividade e a parte do negócio, tudo bem compreendido, então posso começar a fazê-la’. Isso foi nos anos 80, que comecei com aquele look cool-preppy, com peças oversized, muito diferente da Ralph Lauren, e da Brooks Brothers e todos esses. Mais tarde, pensei também que seria muito cool ter pessoas da música a usar as minhas roupas. Então, o Bruce Springsteen, Lenny Kravitz, Beyoncé, Britney Spears, Aaliyah, Salt’n Pepper, TLC, todas essas estrelas estavam a usar as nossas roupas. E o Snoop Dog foi ao Saturday Night Live, [com uma das nossas camisolas] e as pessoas ficaram malucas.
Depois começamos a ter música ao vivo nos nossos desfiles, então chamei este rapaz chamado, Pharrel, que ninguém na altura sabia quem era. E depois tive outro desfile em que chamei outro grupo de mulheres para cantar, chamado Destiny’s Child, que ninguém sabia quem era. Lembro-me que no final desse desfile, perguntei ao meu irmão Andy: ‘Quem é aquela no centro que está a cantar mais”, e ele disse: ‘O nome dela é Beyonce’. E eu respondi: ‘ela vai tornar-se numa estrela’. Então ela tornou-se no rosto da nosso perfume True Star. Lembro-me que na altura, ela queria parecer-se com a Aliyah. Então levamos-lhe umas calças de ganga largas, roupa interior masculina, e um crop top, e ela começou a vestir-se como a Aliyah.

Atravessamos uma fase de mudança. Como é que as coisas mudaram na indústria desde que começou?

Na altura não havia H&M, Zara, ou Uniqlo. Atá a GAP vendia Levi’s. Mas era muito diferente. A Louis Vuitton fazia malas de viagem. Gucci concentrava-se em peças de pele. Saint Laurent era Yves Saint Lauren, muito elegante, high fashion. Mas era tudo diferente. Eu queria criar uma marca que fosse mais democrática, mais acessível, casual, desportiva, divertida, relacionada com a cultura pop. Hoje eu quero que seja uma marca de moda digital que se combine com o entretenimento. Quero que seja moderna e que se mova rapidamente e que faça coisas interessantes.

O número de marcas de moda e empresas de moda que está a tornar mais sustentável. Qual vai ser a abordagem da Tommy Hilfiger?

Estamos mudar para nos tornarmos numa empresa sustentável. Viste o que fizemos com as nossas calças de ganga? Todas nossas calças de ganga agora são lavadas sem água.

E existe mais planos para além deste?

Sim. Estamos a comprar tecidos que são feitos a partir de garrafas de plástico, e outros que são completamente recicláveis. Estamos também a trabalhar com todo o tipo e matérias. Já ouviste falar na All Birds?

Não creio que não..

A AllBirds é um empresa de ténis sustentáveis, e eles desenvolveram uma sola que é feita de cortiça.

Que engraçado, porque nós em Portugal somos um dos principais produtores de cortiça do Mundo

Então, depois a parte de cima é feita de lã das ovelhas da Nova Zelândia e processada num tecido. Então, estamos a trabalhar com uma série de pessoas ao longo de todas as nossas linhas, para nos tornar mais sustentáveis. Além disso, estamos também numa missão a tentar encontrar todos os produtos existentes vintage da Tommy Hilfiger, para os podermos desconstruir e voltar a montar para criar novas peças.

E para finalizar: existe algum motivo para terem voltado a Nova Iorque?

Na verdade, foi a Zendaya (quando falávamos sobre onde o fazer) que deu a ideia de o fazermos no Apollo Theatre. Eu disse que sim automaticamente. Achei uma ideia incrível, que me deixou muito entusiasmado.