Telfar Tote: a Carteira Que se Transformou No Ícone Mundial

E por consequência, num sinónimo de status e exclusividade (mesmo tendo um preço relativamente baixo). Por: Vítor Rodrigues Machado Imagens: © Instagram Telfar.

Nenhum outro ano marcou um momento de mudança tão grande nas nossas vidas como 2020. Trocámos os escritórios e as secretárias pelas mesas da sala de jantar ou sofá, as camisas e blusas pela camisolas do pijama, os sapatos pelas pantufas, e objetos como desinfetante de mãos e máscaras sociais passaram a fazer parte do vocabulário do dia a dia.

Com todas estas transformações na forma como nos comportamos e vestimos, seria de esperar que o mundo da moda espelhasse, de alguma forma, esta nova forma de estar fazendo com que “a peça do ano” fosse algo como um par de chinelos, ou uma máscara Marine Serre. Mas não, para surpresa de alguns (especialmente dos mais desatentos às redes sociais) a escolhida acabou por ser a shopping bag da Telfar. Mas como é que esta “Birkin de Bushwick” – como é apelidada – se tornou num desejado acessório, sinónimo de exclusividade? 

Contrariamente a muitas It Bags, que após serem lançadas se tornam automaticamente num sucesso, o caminho desta foi um pouco mais longo: começou por ser construída (tendo por base um saco de papel da Bloomingdale’s) e lançada em 2014, pelas mãos do designer Telfar Clemens e do seu diretor criativo Babak Radboy, mas só em 2017 é que começou a fazer-se notar entre os amantes de moda (depois de ganhar o prémio CFDA).

Contudo, e contrariamente ao que seria de esperar, a Telfar, não é nem nunca quis ser encarada como uma marca de luxo per se. A prova disso está no seu código genético que se relaciona mais com a ideia de construir pontes ao invés de muros. Ou seja, o objetivo é (como o próprio fundador já disse inúmeras vezes) garantir que todos os amantes de moda – especialmente os negros e filhos de imigrantes como o próprio Clemens – que não podem comprar peças de marcas como Celine ou Off-White, tenham um “espaço” onde se possam encaixar.

 

Esta visão mais democrática sobre o que é criar moda de autor, com a carteira como principal símbolo, foi o ponto de partida para que o mundo inteiro se apaixonasse por esta marca que, ao mesmo tempo, teve a melhor estratégia de marketing do momento: a que passa de Instagram em Instagram.

Contudo, este não foi o único elemento que contribuiu para que esta shopping bag se tornasse no objeto de desejo de 2020. Existe, aliás uma pequena lista de razões: primeiro, em termos de design, orienta-se por uma estética mais minimalista e utilitária (construída em pele vegan); segundo, o preço é baixo, rondando os €150 e €250; terceiro, algumas celebridades como Solange Knowels ou a congressista Alexandria Ocasio-Cortez foram vistas com um exemplar nas mãos; e em quarto lugar (e o mais importante e todos), recorreu a uma estratégia de vendas, bastante perspicaz, que gera hype e faz com que marca se associe à palavra “exclusividade”. Isto porque em vez do convencional método em que se disponibilizam todos os produtos, a Telfar anunciava apenas uma data durante a qual, num espaço de 24 horas, os clientes podiam efetuar a compra online.

 

Este método fazia com que todos os fãs da marca acabassem com o stock numa fração de minutos. Não necessariamente porque os lançamentos eram feitos em pequenas quantidades, mas antes porque grande parte das pessoas acabavam por comprar vários exemplares para posteriormente pôr à venda em sites como o eBay, onde surgiam pelo triplo do valor.

Como já mencionámos anteriormente, a identidade da marca assenta num princípio democrático – que garante que esta é acessível a todos os que se sentem outsiders e que querem fazer parte do grupo. Por isso, assim que Clemens teve conhecimento destes comportamentos que desvirtuaram a mensagem da Telfar,  decidiu fazer uma pequena alteração ao seu modelo de venda, lançando o Telfar Bag Security Program. Neste novo sistema (atualmente em vigor) todos os compradores podem adquirir a quantidade de carteiras que desejarem, o que acaba com dois problemas de uma vez só: primeiro com os valores de revenda exorbitantes e, em segundo, com as questões de sustentabilidade ambiental defendidas pela marca, uma vez que só são produzidas as carteiras que são encomendadas (sendo só entregues ao cliente alguns meses depois).

Ainda não se sabe se daqui a uns meses vamos continuar a falar da shopping bag da Telfar, mas é certo que o percurso da carteira e da marca vai para sempre mudar o paradigma da moda.