Susana Bettencourt Quer Que Pare o Relógio A Tempo de Mudar o Mundo

A coleção nada tem a ver com a mudança do horário de verão. É um manifesto pessoal sobre a sustentabilidade. Por: Inês Aparício e Rossana Mendes Fonseca -- Imagens: Rossana Mendes Fonseca.

Susana Bettencourt apresentou a sua coleção Stop the Clock, no terceiro dia do Portugal Fashion, 16 de março. A apresentação não foi um desfile e a roupa apresentada não era, na realidade, a coleção outono/inverno de 2019.

A decisão da designer açoriana fazer desta edição do Portugal Fashion o palco de uma linha ‘no season’, adiando para outubro a apresentação daquilo que apelida de ‘one-year collection’, foi o primeiro passo de uma nova estratégia e rumo para a marca. «’No season 2019′ quer dizer que não é estação nenhuma, é conceito, é statement. E seja qual for a mensagem que ache oportuna no momento, só a irei passar em março». Já em outubro, altura em que as vendas fazem mais sentido pela identidade das peças da marca – as malhas -, apresentará, a sua ‘one-year collection’, composta juntamente pelas linhas de inverno e verão. Outra das características desta coleção mais comercial é a de ser ‘see now, buy now’, ou seja, estará disponível para venda imediatamente depois do desfile.

Susana conta à Elle que «as duas coleções, com apresentações distintas no ano, foram feitas ao mesmo tempo. A ‘one-year collection’, mais comercial, já está nos showrooms para os nossos parceiros multimarca poderem fazer as encomendas, não para o público em geral». Enquanto que na ‘no-season collection’, neste caso Stop the Clock, as peças apenas poderão ser vendidas por encomenda, uma vez que são feitas especificamente para alguém. 

«Com esta nova forma de apresentar coleções eu tenho espaço também para me expressar artisticamente. Digo, desde o início, que a roupa acaba apenas por ser o veículo que usei para expressar o meu artesanato e aquilo que gosto de fazer. A verdade é que com o problema todo comercial – e obviamente que a marca não deixa de ser um negócio – eu comecei a perder a minha missão. E acho que, durante alguns anos, perdi essa visão devido a todas as dificuldades, as crises que tivemos em Portugal», explicou a designer à Elle, em Milão, no showroom da White.

O abandono do desfile tradicional

Ao contrário do habitual, Susana Bettencourt optou por mostrar Stop the Clock fora do tradicional desfile, ainda que não tenha conseguido concretizar, devido à falta de tempo, a sua ideia inicial. «Na verdade, as peças colocam-se no corpo, mas instalam-se sozinhas. Nós queríamos fazer isso. Nós íamos, na verdade, ter lá as peças e as modelos iam para os sítios e vestiam-se sozinhas. Mas não houve tempo para as pendurar no teto». Deste modo, estas entraram, uma a uma, com as peças já vestidas e colocaram-se, posteriormente, em cima de duas fileiras de bancos, como se de esculturas de um museu se tratassem. O público foi convidado a circular pelo espaço e ver as peças mais de perto.

Algumas das modelos surgiam com golas tão altas que cobriam os lábios, numa decisão que Susana Bettencourt diz prender-se com a ideia de «sufoco do tempo», que estará por trás do elevado número de casos de depressões em Portugal, comparativamente com o resto da Europa. Para a designer a única forma de combater as estatísticas é abrandar o ritmo de vida.

E para isso, Susana Bettencourt quer que paremos o relógio. Seja este analógico ou digital. A prova está na contraposição destes dois nos coordenados apresentados na Alfândega do Porto. Enquanto que o primeiro se torna evidente através das estruturas circulares que algumas modelos envergavam aos ombros, o digital surge nas próprias peças de malha, nas quais as frases «Stop the clock» (em português, pare o relógio) e «Time to change» (numa tradução livre, tempo de mudança) são escritas com tipos semelhantes aos números de um relógio digital.

Parar o relógio do consumo

A sustentabilidade, uma das preocupações que a designer sempre teve, é uma das mensagens implícitas nesta coleção. Assim, as peças compuseram-se através de materiais mais amigos do ambiente. «Temos a borracha nas estruturas maiores, temos todas as peças de malha com os fios da Fifitex em poliéster e viscose reciclada. O mohair é feito com um processo de fiação que gasta menos água do que o normal. Portanto, a sustentabilidade está efectivamente intrínseca nas peças. No entanto, acho que não há outra forma de ser sustentável a não ser comprar menos. Essa é a minha visão e acho que isso é que é, na verdade, a solução», sublinha a criadora.

Veja na galeria, em cima, alguns dos detalhes da coleção.