Como Os Stylists Se Tornaram Das Pessoas Mais Poderosas de Hollywood

Os stylists de celebridades não são novidade nenhuma, mas o o poder que têm ganho ao longo do tempo, sim. Por: Kate Somerville -- Imagem: © Imaxtree, Gtresoline

O mais recente fenómeno da indústria da moda, Law Roach, não tinha muita experiência quando – na altura, com menos de meia dúzia de contactos e sem muitos conhecimentos ou formação – decidiu deixar a sua loja de roupa vintage em Chicago, no estado de Illinois, em 2011. Mudou-se para Hollywood. Tinha uma cliente em quem acreditava e uma profunda ligação ao mundo da moda e dos famosos.

Um jogo de interesses cheio de brilho

«É tudo um jogo: os designers queriam trabalhar com as celebridades que tivessem mais destaque na imprensa», diz Roach, que agora recria os looks de Mary J. Blige (Blige que, nos BET Awards 2019, fez o mundo inteiro render-se graças a uma série de looks cintilantes e personalizados – que eram uma referência tanto às suas raízes no hip hop como à ligação que tem à indústria da moda de criador – durante a sua atuação e a entrega do prémio Lifetime Achievement). Por isso, Roach elaborou um plano para a sua cliente, na altura desconhecida: criar buzz em torno dela. «As pessoas estavam obcecadas com os segmentos ‘Quem se vestiu melhor?’ nas revistas semanais, por isso pensei: ‘OK, se eu conseguir que estas comparações sejam feitas, as pessoas vão começar a prestar atenção à minha cliente’.» Ele decidiu então ir aos showrooms em busca de peças que outras celebridades já tinham usado, e todos o avisavam que celebridades maiores já tinham vestido aquelas peças. «Resultou», diz a rir- se. «Ela aparecia em várias publicações semanais, e na maioria das vezes era ela ‘quem se vestia melhor’.» Rapidamente ela tornou-se presença habitual no programa Fashion Police, e conseguir que a imprensa lhe prestasse atenção era fácil porque conseguiam identificá-la.» Essa rapariga era a Zendaya, que Roach tem vestido desde que ela tem 14 anos. Agora, com 22, ela é um fenómeno no mundo da representação e da música, que recentemente arrasou com todos os seus looks nas várias estreias do filme Spider-Man.

Zendaya na passadeira vermelha da MET Gala de 2019.

Stylists: os arquitectos da imagem

Hoje em dia, Roach refere-se a si próprio como um ‘arquiteto de imagem’. «A minha abordagem sempre se aproximou daquilo que um arquiteto faz», explica. «Pesquisamos e estudamos o território, fazemos planos e depois chamamos peritos para nos ajudarem a executar.»

A equipa dele é composta por três assistentes a tempo inteiro e seis assistentes em part-time, em Los Angeles, Londres, Paris e Nova Iorque, que o ajudam a tratar de todos os envios diários, agendam os dias de provas de roupa e passam-nas a ferro, as quais normalmente são enviadas diretamente das passerelles para os stylists que esperam ansiosamente por elas. Ainda que tudo isto seja mais frenético quando chegamos à época das entregas de prémios, as equipas de styling estão ocupadas o ano inteiro a tratar do guarda-roupa da sua lista de clientes que precisa de looks, tanto para o dia a dia como para as suas viagens internacionais. (O elenco de Spider-Man passou semanas a viajar, por exemplo, para estreias na China e em Inglaterra. A equipa de Roach escolheu vários looks para Zendaya e para o ator principal, Tom Holland, e tudo tinha de ser devolvido aos designers assim que saíam das passadeiras vermelhas.)

É por isso que muitos stylists costumam falar de assuntos aborrecidos, como prazos de entrega, como se estivessem a falar de uma religião. «Há um volume enorme de produtos, por isso deve ser tudo muito bem verificado», diz Rebecca Corbin-Murray, uma stylist nascida em Londres, que já trabalhou com Emma Watson e Carey Mulligan. «É preciso ter uma reação rápida», acrescenta Karla Welch. «Claro que há momentos glamorosos, mas esses momentos são só merecidos depois de tanto trabalho.»

A subida ao poder

Welch, que trabalha com Sarah Paulson, Elisabeth Moss, Justin Bieber e Tracee Ellis Ross, e que está a trabalhar na sua própria aplicação de styling entre todos os seus trabalhos na moda, foi recentemente nomeada como uma das mais poderosas stylists pelo The Hollywood Reporter. «Acho que nos tornámos indispensáveis enquanto parte da equipa», diz Welch. «A nossa importância no mundo da moda passou de sermos outsiders – ou pessoas para as quais as revistas de moda e os editores olhavam como menores – para nos tornarmos bens indispensáveis.»

Em 2017, Welch transformou Ellis Ross, que com os seus 44 anos já era uma entertainer estabelecida, numa das celebridades mais elegantes; ela agora senta-se na fila da frente nos desfiles da Marc Jacobs e da Versace, foi convidada para ser a apresentadora dos American Music Awards duas vezes seguidas e já foi capa de revistas como a InStyle, a Vanity Fair e a ELLE. (E o vestido rosa-flamingo da Valentino que usou nos Emmys em 2018 será lembrado para sempre). Welch também esteve envolvida na transformação de Bieber, de crush infantil para estrela adulta com uma carreira marcante, quando orquestrou a sua transformação de estilo em 2018, tirando-lhe as camisolas de capuz e o vestindo-lhe camisas de estilo havaiano com calças bege, fazendo assim nascer o look que hoje em dia é carinhosamente apelidado pelos media de ‘scumbro’.

Ellis Ross

Apesar de todas as celebridades de topo, como Blake Lively, estarem a ser aplaudidas publicamente por se terem livrado dos seus stylists e, apesar dos movimentos nas redes sociais como o #AskHerMore encorajarem os media a se focarem mais na moda que acontece além das entrevistas nas passadeiras vermelhas, Roach e a sua corte continuam a ser um lembrete de que, hoje em dia, ter uma boa noção de estilo – que significa ter um aspeto que faça com que valha a pena aos fotógrafos captarem-nos – é vital para as estrelas continuarem a ser rentáveis. «A imagem de alguém nunca foi tão importante como agora», diz Roach.

«A sociedade vê o teu talento ainda antes de te ouvir falar, nós estamos a olhar para a tua imagem.» Como tal, os stylists evoluíram para se tornarem especialistas de branding que se envolvem na carreira dos seus clientes como managers que, em vez de trabalharem na escolha das audições, aconselham a nível do vestuário para criarem looks capazes de deixar as pessoas boquiabertas e de chamar a atenção dos enxames de paparazzi.

Wanda Mcdaniel e o início de tudo

Ainda que os stylists possam ser considerados, hoje em dia, personalidades de renome, toda a importância que damos aos looks usados pelas celebridades nas passadeiras vermelhas se deve a Wanda McDaniel, um nome de Hollywood cujo apelido provavelmente não ecoa na cabeça de grande parte das pessoas, nem mesmo dos mais fervorosos fãs de Fashion Police. Durante o tempo em que trabalhou com o seu colega Giorgio Armani, que estava apaixonado pelo brilho da indústria cinematográfica, McDaniel cortejou celebridades no início dos anos 90, oferecendo-se para as vestir com peças Armani para eventos como os Óscares. Antes disso, eram os atores que geralmente se vestiam a eles próprios para grandes eventos, ou então contavam com os designers de guarda-roupa, como Edith Head, da Paramount, para criar looks específicos que usavam nas passadeiras vermelhas. A ajuda de McDaniel chegou e deu segurança a jovens e talentosos nomes como Jodie Foster, que foi brutalmente criticada em 1989 por ter aceitado o prémio pelo filme Os Acusados (1988) com um vestido comprido em tafetá azul, adornado por um laço gigante, que mais tarde admitiu ter comprado numa loja da cidade com a sua mãe. (Foster usou um elegante fato Armani, em 1992, para aceitar o seu troféu, que a trouxe para uma nova era de elegância, e até aos dias de hoje se mantém fiel a McDaniel e ao próprio sr. Armani).

Rachel Zoe, a mulher que ensinou ao mundo o que era um stylist

As passadeiras vermelhas rapidamente se tornaram um panteão para os designers, que tentavam vestir as mais belas celebridades e assim conseguir um pouco de publicidade. Enquanto editores de moda estabelecidos e designers eram celebrados durante as Semanas da Moda, nas passadeiras vermelhas, os stylists de Hollywood trabalhavam nas sombras das caudas dos longos vestidos dos seus clientes. Foi então que veio Rachel Zoe. «Ela entrou na indústria e abriu-a, deixando o mundo saber que existia alguém por detrás daquela mulher na lista das mais bem vestidas», diz Roach. «A Zoe é o Svengali de tudo. Ela merece o crédito por nos ter trazido para a frente.»

Casamento de Marc Jacobs

Rachel Zoe com o marido.

Zoe vestia na altura as novas celebridades – Paris Hilton, Nicole Richie, Lindsay Lohan – que não esperavam para ser fotografadas em diversas poses, tendo antes optado por transformar as suas vidas em verdadeiros festivais de moda diários, prontos para ser consumidos pelos sedentos paparazzi. (A fama de Zoe foi cimentada graças a cinco temporadas do seu reality show, The Rachel Zoe Project). O seu look de marca – saias boho maxi que quase a engoliam – redefiniu o estilo de L.A e a carreira e a trajetória dos seus jovens clientes, como Nicole Richie, que deixou de usar lenços na cabeça num reality show para usar Saint Laurent e ser dona de uma galardoada marca de acessórios, a House of Harlow 1960.

Game Changer 

Foi então que, em 2010, a primeira foto foi publicada no Instagram. De repente, «víamos estas celebridades, como a Kate Young e a Karla Welch, desenvolverem as suas próprias personas. As pessoas começaram a perceber o seu poder», diz Cary Leitzes, que durante a década de 90 foi «um diretor de fotografia que trabalhou para os maiores títulos em Nova Iorque».

«As pessoas viam que eram sempre os mesmos rostos que estavam por trás deste grupo de celebridades. Eram os maratonistas que, de certa forma, criavam o estilo.» (O hoje em dia reconhecido Brandon Maxwell, por exemplo, alcançou o estrelato enquanto diretor de moda de Lady Gaga, em 2012, tendo poucos anos depois lançado a sua própria marca de moda, na Semana da Moda de Nova Iorque). «Alguns stylists conseguiram ter uma presença digital tão forte que acabaram por se tornar influencers», diz Corbin Murray, acrescentando que sente falta dos dias em que editores repletos de inspiração eram tidos em melhor conta do que publicações de influencers com filtros. Roach, no entanto, vê um grande benefício em se deixar levantar o véu e permitir que as pessoas vejam para lá dele, especialmente numa indústria que foi assente no hábito da exclusão. «Se olhares para o panorama dos stylists em Hollywood, só existem três ou quatros nomes ao nível a que eu trabalho», diz. «Será uma questão de talento? Eu acredito, verdadeiramente, que é uma questão de oportunidade, e por isso tento usar a minha plataforma para ajudar pessoas que se parecem comigo a chegar ao lugar em que eu estou.»

Os stylists levaram a consciência política para a roupa

De facto, depois de vários anos a dormirem sob vestidos de cauda e peças em tons nude – como se fizessem parte de um paralisante desenho para evitar críticas -, as celebridades perceberam que a sua presença nas passadeiras vermelhas bem como as suas escolhas de looks podem ser plataformas viáveis para abrir uma discussão. Welch, que tanto publica fotos elegantes e glamorosas como stories a falar sobre a importância do controlo do porte de arma, foi responsável por vários dos coordenados negros usados pelas estrelas nos Globos de Ouro de 2018, num protesto sobre desigualdade e sexismo. Ela também vestiu Ellis Ross em peças de designers negros quando a atriz apresentou os American Music Awards, em 2018.

Kendall Jenner nos Globos de Ouro 2018

Corbin-Murray, que é uma apaixonada por moda sustentável, concorda que a responsabilidade está a mudar. Quando a sua cliente Gemma Chan estava a preparar-se para a sua primeira grande temporada de cerimónias de prémios, teve dois objetivos: cimentar a posição da brilhante atriz britânica de ascendência chinesa, «que estava pronta para ter um momento de estilo ousado», e ajudar a transmitir a sua mensagem para as massas. «A Gemma é altamente articulada sobre o seu ativismo e as suas escolhas de guarda-roupa.»

Alguém tem de ceder

«É tudo um jogo político», diz uma fonte, de uma grande maison de moda, responsável por vestir celebridades. «Os stylists de topo não representam apenas uma pessoa – representam várias.» E continua a explicar que trabalha com regularidade com grandes nomes como Elizabeth Stewart, que é a responsável por vestir estrelas como Julia Roberts e Cate Blanchett. «Mas ela também trabalha com algumas pessoas que eu, na verdade, não quero vestir», diz ele. «Ainda assim, não podia dizer que não a esses pedidos, uma vez que arriscava perder os clientes de topo; tinha de enviar peças que não fossem tão boas para que a probabilidade de eles as usarem fosse menor, mas é sempre arriscado.»

Ainda que exista apenas uma única fonte que empresta um look que vem de uma coleção apresentada em passerelle, o stress e o custo de envio para sítios como Londres, Los Angeles, Paris e até mesmo Índia compensa. «Se a celebridade certa usar um determinado estilo, isso vai influenciar verdadeiramente as vendas», diz ele. «Atualmente, os stylists têm um grande poder porque, quando uma celebridade veste algo numa passadeira vermelha, isso pode fazer com que acabe por se tornar o rosto da marca, o que poderá transformar-se num grande negócio.»

Roach é rápido a depreciar o seu poder de celebridade com uma gargalhada quando questionado sobre a sua posição de estrela em ascensão. O seu único papel, assegura-nos, é fazer com que os seus clientes brilhem. Isso requer parcerias, acrescenta. «A autenticidade é o que nos atrai mais numa pessoa, por isso tento sempre perceber quem é, fundamentalmente, o cliente.» De facto, Céline Dion – a atual rainha das Semanas da Moda – sentiu o poder da abordagem autêntica de Roach. Depois de ter perdido o seu marido, René, para o cancro em 2016, a diva afastou-se dos holofotes para fazer o luto e ganhar forças, mas estava pronta para regressar às luzes da ribalta no final desse ano, e pediu especificamente a ajuda de Roach porque tinha notado a forma ousada como ele abordava a moda, através do trabalho que desenvolveu com Zendaya.

céline dion

Céline Dion

«Todos nós crescemos com a música da Céline, e amamo-la», diz Roach. Depois de a conhecer, passou seis horas com ela a experimentar dezenas de peças que tinha levado. «Ela dançou e fez piadas, e corria pelo quarto quando ficava entusiasmada.» Vestiu a sua nova cliente com peças da Off-White, durante a Semana da Moda de Alta-Costura de Paris. A seguir, vestiu-lhe uma camisola de capuz da marca de streetwear Vetements, que tinha estampada a imagem do clássico filme dos anos 90, Titanic. «Alguns looks depois, ela era a mulher mais cool da streetwear – aos 49 anos de idade», diz Roach.

Mesmo tendo em conta as claras evidências virais, Roach tenta humildemente voltar a focar-se nos seus clientes, explicando que só está a dar ao seu estilo natural a possibilidade de vir ao de cima, em vez de construir uma visão sua, como fazia Zoe nos primeiros tempos. «Eu estou ao serviço da indústria», diz. «Os meus serviços, e opiniões, não são diferentes dos do jardineiro, da babysitter ou do chef. Podem parecer mais glamorosos, mas continuam a ser um serviço.» Roach não consegue, apesar de tudo, deixar de esclarecer algo: «Eu não aceito ordens. Nem dos publicists nem dos managers – nem de ninguém.»

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na revista ELLE de novembro.