Porque Continua a Indústria da Moda a Reciclar Tendências de Décadas Passadas?

Até quando será possível repetir (e repetir) este sistema? Por: Vítor Rodrigues Machado -- Imagens: © Imaxtree

Já todos ouvimos dizer que as tendências são cíclicas. Uma espécie de bumerangue que, quando atirado ao ar com força, atinge o seu pico de popularidade no momento em que alcança a máxima distância de quem o lançou. Depois, inicia a sua trajetória de retorno e começa a perder potência, até que nos chega de volta às mãos. Teoricamente, esta ação só deveria ser repetida passado um longo espaço de tempo, no entanto, nos últimos anos, esse mesmo espaço de tempo entre cada “bumerangada” (vamos fingir que isto podia realmente ser uma palavra), tem-se tornado cada vez mais curto.

As redes sociais

Seria possível divagar durante muito tempo sobre o motivo que leva isto a acontecer, mas a resposta é óbvia: as redes sociais. E entre estas, talvez o maior culpado seja o Instagram. Como é sabido, desde que surgiu, desenvolveu-se bastante – permitiu inclusive que muitos conseguissem torná-lo na sua principal fonte de rendimento – e veio alterar completamente a forma como a moda é pensada, como nos esclarece Luigi Torre, ex-editor de moda da ELLE Brasil: «A popularização dessa rede social mudou por completo a maneira como consumimos e produzimos imagens. Consequentemente, a criação de moda – e de roupas – também é impactada por isso. Olhando para as semanas de moda mais recentes, fica claro que a principal preocupação é gerar impacto digital». E o que se passa a seguir quase não precisa de ser explicado. Assim que este objetivo (de impactar) é atingido pelas marcas existe uma republicação massiva do conteúdo – como se de uma foto do rabo de Kim Kardashian se tratasse – até que se espalha pelo mundo e, como é claro, acaba por se tornar uma tendência. Que tão rápido aparece como desaparece.

Tudo isto pode até parecer normal, mas para quem trabalha na indústria da moda – um universo que subsiste da criatividade – pode gerar um enorme problema: se a moda se tem construído a partir de ciclos de tendências que se repetem cada vez mais rápido, e por consequência se gastam à mesma velocidade, não será que vamos chegar a um ponto em que é preciso criar algo novo? Depois destas décadas passadas estarem mais do que mastigadas, será que não ficam “esgotadas”?

Re-significação da história

O ex-editor de moda da ELLE Brasil não vê problema nisto, pois acredita que «desde que elas sejam re-significadas e contextualizadas para o presente e para a atual realidade» não será um problema, até porque o objetivo será sempre ter «material para alimentar as suas redes sociais». Yasmin Sewell, ex-diretora de moda da Farfetch, parece concordar com este pensamento, apesar de acreditar que a nível criativo, possa haver: «um ligeiro desgaste (…) mas acho que na indústria vai sempre haver pessoas que olham mais para o futuro, e pessoas que olham para o passado, e são ambos bons». No entanto, Sewell acrescenta ainda que «existem muitos bons designers que já não estão só a reinventar, mas sim a criar algo de novo. Existe esse recuperar de referências de estilos passados (…) mas os grandes estão a tentar criar as suas próprias coisas, o seu próprio estilo» e dá como exemplo o diretor criativo JW Anderson, que «eu não consigo realmente dizer que ele está a usar referências de décadas passadas» e Nicolas Ghesquière que segue uma estética bastante «moderna».

Estas duas últimas ideias parecem alinhar- se, embora vindas de duas pessoas diferentes que partilham entre si o amor pelo mundo da moda, mostrando assim que esta visão fatalista sobre a reciclagem de tendências talvez não seja, criativamente falando, tão negativa. Até porque, tal como nos aponta Anabela Becho, historiadora de moda e investigadora, é possível «revisitar e refletir sobre a História da Moda e mesmo assim criar silhuetas, volumes e formas inusitadas e frescas, questionar conceitos, reinventar o vestuário e mesmo os conceitos de corpo e de género» até porque «a moda é trans-histórica (…) revisita o passado para o reinterpretar à luz do presente». E de facto, ao longo do tempo, foram vários os designers que o provaram. Entre eles destaca nomes como «Martin Margiela, um apaixonado por moda e pela sua história, que fez tudo isto de forma genial e extremamente criativa criando uma linguagem nova e inédita. Da mesma forma que Rei Kawakubo não cessa a sua busca por algo novo» acrescentando ainda Phoebe Philo «uma designer genial» que«criou definitivamente uma linguagem nova, reinventando os clássicos» e «Pierpaolo Piccioli para Valentino e até mesmo Demna Gvasalia para a Balenciaga».

Voltar ao passado

Muito bem, então recorrer a décadas passadas parece não ser algo assim tão nocivo para a indústria da moda, desde que esta consiga reinventá-las e dar-lhe novos significados. Mas porquê fazê-lo? Não faria mais sentido correr em busca de algo novo? Segundo Gianni Montagna, investigador e professor de design de moda na Faculdade de Arquitetura de Lisboa a resposta a esta questão tem a ver com problemas do passado, que ainda hoje permanecem bastante presentes: «Se é verdade que a moda é expressão do seu tempo, décadas como os anos 60, 70, 80, ou outras, trazem com elas os valores que lhe eram associados, referências atuais de questões que em muitos casos ainda não foram resolvidas. Vejamos os anos 70 com a libertação sexual da mulher e as vagas de feminicídios que, quase cinco décadas depois, ainda são um problema central da nossa sociedade (…) A indústria da moda tem a possibilidade de interpretar e propor aos seus utilizadores algumas ideias e valores essenciais dessas épocas mas que ainda estão atuais».

Ou seja, como a moda e as tendências são um reflexo da sociedade, se atualmente estivermos a tentar resolver problemas que se iniciaram no passado, vamos inevitavelmente recorrer a elementos desse passado que foram símbolo dessa fase. Um bom exemplo disso é caso do power suit, que se tornou numa das grandes tendências dos últimas estações – e pode chamar-lhe somente “fato”, ainda que a expressão norte-americana tenha mais força, como se ele fosse uma espécie de capa de Super-Mulher. Ele foi bastante popular durante a década de 80, uma altura em que, teoricamente, se encerrava a segunda vaga feminista. No entanto, como temos assistido a uma reafirmação destes ideias, ele regressa.

Criar algo novo

Ainda que o voltar ao passado possa ser extremamente interessante, e até mesmo enriquecedor, a verdade é que se estivermos sempre a olhar para trás, arranjando novas formas de o observar, dificilmente será possível para a indústria da moda criar algo realmente novo, tal como aconteceu nessas alturas. Se é que é possível criar algo novo. Pois tal como nos diz Eduarda Abbondanza, presidente da Associação ModaLisboa: «O casaco já existe. O blusão já existe. O vestido também já existe. E, portanto o que se faz são apenas combinações a nível das volumetrias, das silhuetas e do equilíbrio de peças, criando novas volumetrias». Para Abbondanza, a resposta não está, portanto, na tentativa de criar uma nova peça, mas antes nas tecnologias que nos vão dar novas possibilidades, «O que é que vai alterar o que nós temos neste momento? A tecnologia. (…) A designer Iris Van Harpen, é de alguma forma a pessoa mais ligada a esse aspeto. Ela faz o rendering completo do vestido e não é só na questão têxtil. É na volumetria, na forma de pensar o vestuário, que está diretamente ligada ao desenvolvimento tecnológico (…) algo que toca na parte têxtil, na parte da silhueta e na forma como é produzido».

Ainda segundo ela, um bom exemplo de como a tecnologia nos poderá ajudar a criar algo novo é o caso do calçado desportivo, «Tem havido um enorme desenvolvimento a nível da performance precisamente porque tem a sua evolução diretamente ligada à parte tecnológica», conclui Eduarda Abbondanza.

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de abril 2019.