Acusações de Racismo e Pedido de Desculpas: O Que se Passou Com a Prada

As semelhanças da linha Pradamalia relativamente a representações racistas estiveram na base da controvérsia. Por: Inês Aparício -- Imagens: © D. R.

Brinquedos, carteiras, porta-chaves e outros acessórios, parte da recente linha Pradamalia, estavam expostos na montra quando Chinyere Ezie, ativista dos direitos civis, passava pela loja da Prada em SoHo, Nova Iorque. Saída do Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, sentiu continuar no mesmo cenário, depois de se deparar com o que considerou serem figuras claramente racistas, semelhantes às caricaturas de rostos negros (no original blackface), usadas anteriormente para denegrir a imagem desta comunidade. Escreveu um post no Facebook a dar conta do sucedido e daí foi um pequeno passo até que as redes sociais se enchessem de críticas à marca, apelando a um boicote à mesma.

 

No entanto, a controvérsia não cresceu apenas através dos ecrãs de telemóveis e computadores. Os lábios exagerados e a pele escura de duas das personagens que compunham os acessórios da linha Pradamalia e, alegadamente, evocavam representações racistas — como Little Black Sambo, a caricatura de um negro de 1899 — tornaram indispensável sair à rua na sexta-feira, 14 de dezembro. No protesto realizado em frente à loja em questão, Chinyere Ezie notou, em declarações à ABC7, que os produtos «eram referências evidentes à blackface, uma praga no país [Estados Unidos da América] durante décadas». Em resposta ao protesto, a Prada fechou os estores da montra e retirou os acessórios.

Entretanto, no Twitter, a marca procurou explicar a situação, além de mencionar que iria deixar de comercializar os acessórios de 550 dólares (cerca de 490 euros): «O grupo Prada abomina o racismo. A Pradamalia é uma linha de acessórios composta por elementos do arquivo da Prada. Estes são criaturas imaginárias desenvolvidas sem qualquer intenção de se assemelharem ao mundo real e certamente a rostos de negros».

«O grupo Prada não tinha qualquer intenção de ofender alguém e abominamos qualquer forma de racismo ou imagética racista. Assim, retiraremos de exibição e de circulação todas as figuras em questão», concluiu a marca.

As reações nas redes sociais

Ainda assim, isso não impediu que nas redes sociais a marca fosse criticada. «Olhem para os bonecos da Prada ao lado de um boneco blackface. Continuam sem perceber?», disse um utilizador.

«Uau. A Prada acha que isto é uma espécie de misteriosa nova invenção. Odeio ter de ser eu a dizê-lo, mas isto não é o futuro. Isto é o passado. Um passado muito recente e racista e que está demasiado presente neste momento», escreveu outro.

Ainda um outro utilizador sublinhou as semelhanças entre os produtos da Pradamalia e as caricaturas de 1899: «Claro que é uma referência à blackface. É como se alguém olhasse para o rosto negro e copiasse todas as imagens associadas a isso. É preciso ser ignorante para viver nos Estados Unidos da América e não entender que isto é incrivelmente racista».

A Prada dá um passo além

Com todos os comentários negativos à linha, neste domingo, 16 de dezembro, a marca divulgou um comunicado no qual revelava a formação de um conselho consultivo que «irá guiar os esforços da Prada relativamente a diversidade, inclusão e cultura», além da retirada de todos os produtos da Pradamalia que haviam sido considerados ofensivos.

A marca avançou ainda que todos os resultados das vendas desta linha reverterão para uma organização nova-iorquina que luta contra as injustiças raciais.