Portugal Fashion: Um Último Dia de Reivindicações Por Mudança

E, assim, chegou ao fim mais uma edição do evento de moda portuense. Por: Inês Aparício Imagens: © View Fashion Book.

Contrariamente à última edição do Portugal Fashion – que acabou por ser interrompida, devido à evolução da pandemia -, os três dias de desfiles e apresentações chegaram, desta vez, mesmo ao fim. Sem a correria e o caos habitual, mas quase sempre entre as familiares paredes da alfândega, a Moda chegou em diferentes formatos e, no último dia, acompanhada por um clamor sonante por mudança: quer ao nível da sustentabilidade, quer nas questões sociais e políticas.

Foi com um cenário digno de postal – mesmo que as nuvens densas e cinzentas, ameaçando chuva, cobrissem a pitoresca ribeira do Porto e a torre dos clérigos que se viam do outro lado do Douro -, que, no novo espaço WOW – World of Wine, Marques’Almeida apresentaram não só a sua linha, como a nova marca, reM’Ade. «É a nossa marca mais querida, neste momento, que é a marca que responde às questões da sustentabilidade de forma mais eficiente», diz Marta Marques à ELLE.pt. Produzida através de desperdícios de coleções recentes ou com uma vida tão longa quanto a própria insígnia, esta solidifica o percurso consciente e sustentável da marca e, neste desfile, surge misturada com outras peças de etiqueta Marques’Almeida.

Entre plumas, folhos, jogos de volumes e tingimentos, uma peça captou-nos especialmente a atenção. Um vestido laranja, curto, mas de manga comprida, que, ao longe, parecia repleta de picos (quase como a carapaça do dragão do jogo Super Mário). «É um tecido de algodão liso, normal, com um bordado», explica a criadora. Paulo conta que «andava muito obcecado» com «um plissado típico da Índia que faz aquele formato, uma coisa muito ‘rave’ dos anos 90, que já existia em topzinhos pequeninos e em coisas assim do género» e decidiu tentar recriá-lo. «Não consegui fazer o plissado, mas não tem mal. Fiz um bordado igual, que faz o aspeto [desse]», acrescenta, rindo.

 

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Marcada para as 12h30, estava a apresentação de Alexandra Moura. Mas esta hora era meramente indicativa, uma vez que as propostas da designer foram exibidas em formato vídeo, em loop, durante os três dias do evento, numa instalação montada à entrada da alfândega. Aí, foram surgindo num ecrã gigante os coordenados já mostrados no final de setembro na Semana de Moda de Milão, numa viagem que não foi apenas internacional, como à própria alma e identidade da insígnia. Substrato é um retrato intimista da marca, uma (re)exploração de técnicas, materiais e padrões, que nos convida a recordar o melhor de Alexandra. Por isso, como uma espécie sopa de letras, o seu nome cobre casacos, t-shirts e vestidos em combinações de cor diferentes, as laçadas e os folhos regressam e há um constante jogo de volumes e sobreposições.

Quem também se afastou do tradicional formato de desfile foi Júlio Torcato. Aliás, ficou a muito mais do que a simples distância de segurança desse formato. Fugindo de qualquer modo de apresentação que pudéssemos considerar expectável, o criador organizou um comício político. Sim, leu bem. Numa tribuna montada na sala de desfiles principal, um ator (Francisco Barros) discursa sobre manipulação e liberdade, no que é uma clara crítica política e social em forma de sátira. Em frente a este, um conjunto de modelos e manequins de plástico “sentados” em cadeiras ouvem-no, vestindo coordenados monocromáticos, negros, voltando a atenção para a mensagem.

Um dos criadores que estavam preparados para revelar as suas propostas na edição passada, mas acabou por não o poder fazer, devido ao cancelamento do evento consequente do aumento do número de casos de infetados pelo novo coronavírus, foi Hugo Costa. Porém, isso não impediu que as peças percorressem a passerelle disposta no parque de estacionamento da alfândega, imediatamente antes de a coleção de primavera/verão 2021 ser mostrada. Assim, o contraste entre ambas tornou-se evidente. Na linha para a temporada quente, as silhuetas ficaram mais descontraídas e os cortes mais direitos, traduzindo o crescente desejo por roupa confortável que a quarentena fez nascer.

O dia – e também o próprio Portugal Fashion – chegam ao fim com o desfile de Alves/Gonçalves. Foi no espaço exterior do edifício, desta vez com vista para a cidade de Gaia, já depois de a noite cair, que a dupla de criadores mostrou que, durante o período de confinamento não se uniu ao grupo de pessoas que começaram a bordar, mas pegaram em novelos de trapilho para dar vida a detalhes, como franjas, ou a peças completas. Mas, ainda que o trabalho manual seja digno de destaque, é a saia de ganga cinzenta, (des)construída a partir de uns jeans que não conseguimos tirar da cabeça.