Porque é Que Tantos Designers Tem Abandonado a Indústria da Moda?

Ao longo dos últimos anos, o meio perdeu vários emblemáticos nomes. Por: ELLE Portugal Imagens: © Imaxtree - Texto: Lauren Cochrane

Quando Pheobe Philo fez a sua última vénia no final do desfile de FW 18/19 da Céline, em  2018, poucos perceberam o motivo. A designer britânica estava no auge da sua carreira – diretora de design de uma das marcas  de moda mais desejadas do mundo. Ela era a responsável por impulsionar todas as grandes tendências que saíam das passarelles para as ruas, era amada pela imprensa, pelos clientes, e até chegou mesmo a ser citada por Kanye West. Não havia nenhum designer mais influente ou admirado … Foi então que, do nada, a designer, então com 44 anos, se afastou.

Não há duvidas quanto ao impacto que teve na indústria e nas vendas – acredita-se que ela tenha triplicado os lucros durante o seu reinado de 10 anos na Céline –, contudo, nos bastidores, a história desenrolava-se de forma diferente: supervisionava tudo (dos desfiles de moda ao design das lojas), enquanto viajava entre Londres e Paris todas as semanas para manter uma vida familiar estável com seu marido e três filhos. Com esta azáfama toda, muitos questionaram-se se, de facto, estar no topo seria algo bom para ela.

Nestes últimos anos temos assistido à saída de vários nomes relevantes da indústria (de Christopher Bailey da Burberry a Jenna Lyons da J.Crew), o que levanta então a questão: será que a vida na indústria da moda se tornou insustentável para os criativos que ajudaram a moldá-la? Só na última década, além de Philo, a indústria perdeu nomes como Jonathan Saunders, Francisco Costa da Calvin Klein, Tomas Maier de Bottega Veneta e Alber Elbaz de Lanvin.

Da esquerda para a direita: Frida Gianni (Gucci 2006-2014); Francisco Costa (Calvin Klein 2003-2016); Alber Elbaz (Lanvin 2001-2015)

 

À medida que as marcas crescem e os papéis criativos se tornam mais corporativos – com metas de crescimento para atingir, taxas de social media a alcançar, campanhas digitais a conceber e até uma lista de coleções e colaborações para aumentar – os designers foram forçados a tornarem-se em especialistas de marketing. Mas o que acontece então quando alguém opta por sair da máquina na qual é a engrenagem principal?

Leafy Hampstead não é exatamente um local de referência para a moda, mas é onde podemos encontrar a resposta para esta pergunta, porque é onde a designer francesa Nicole Farhi agora está sediada. A mulher outrora por trás de uma marca de prêt-à-porter de luxo homónima – que faturava mais de €12 milhões por ano, com mais de 4.000 funcionários e com lojas em todos os lugares do mundo – trabalha agora cercada por impressionantes esculturas de nus. A escultura é o tipo de arte que gosta de praticar em tempo integral desde que deixou sua marca em 2012, ao fim de 30 anos. Durante esse tempo, Farhi trabalhou com o seu ex-sócio (Stephen Marks) transformando a marca numa potência internacional, mas quando este decidiu vender  a sua parte do negócio para uma firma privada, em 2010, as coisas mudaram.

«O Stephen sempre fez questão que eu não fosse sobrecarregada com o peso da estrutura empresarial», recorda Farhi. «Ele nunca me incomodou com mudanças ou com o que as pessoas queriam. Quando estavam todos a fazer minissaias, e eu não gostava delas, não era obrigada a fazê-las». Mas com uma nova equipa, o conforto de se poder focar na criatividade enquanto outros cuidam da parte comercial acabou. «As pessoas que compraram a empresa vinham com um pedaço de papel a exigir: “Temos que fazer x vestidos e x casacos”. Sentia-me presa. Começar na moda nos anos setenta foi maravilhoso; tudo foi permitido e tudo foi possível. Mas com o passar dos anos o trabalho tornou-se stressante. Tinhas que mostrar não duas, mas quatro coleções por ano, e depois fazer uma segunda linha porque a primeira era muito cara. Era um trabalho interminável…». Como já tinha a escultura como hobby há anos, a ex-designer começou a sentir que esta era a saída mais apropriada para a sua criatividade. «Agora, acordo e estou feliz porque sei que o estúdio está à minha espera», afirma. «Estou a aproveitar a vida  de uma forma mais intensa. Não tenho que fazer nada que não quero fazer».

 

O designer britânico Jonathan Saunders também procurou terminar a sua ligação com a indústria da moda antes de se concentrar na sua jornada criativa alternativa. Saunders afastou-se de sua marca após 12 anos, em 2015, no auge do seu sucesso. Os seus vestidos, adorados por celebridades como Diane Kruger e Thandie Newton, faziam com que as suas coleções fossem procuradas no Net-A-Porter e em outros sites. No entanto, a carga de trabalho intensificou-se muito rapidamente quando se mudou para Nova York, para assumir as rédeas criativas da Diane von Furstenberg. A sua  tarefa era supervisionar tudo, desde as instalações da loja à aprovação de um novo logo. E a parte do design – a área que ele gostava verdadeiramente – foi deixada de lado. Desistiu ao fim de apenas um ano. «Eu afastei-me. Tu tens um papel que é mais de supervisão, focado em certos elementos do negócio que são vitais, mas mais desgastantes. Não era para mim».

Saunders – como Farhi e muitos outros – encontrou a sua saída na criação de uma empresa que se baseia menos em metas de vendas e análises. Em fevereiro 2020, depois de um intervalo de dois anos, lançou uma linha de móveis. O seu cunho pessoal de combinações de cores e elementos gráficos incomuns surgem agora em cadeiras e mesas (em vez de vestidos e casacos), produzidas ao ritmo mais lento que o design de homewear permite e que deixa que ele dê prioridade à parte do seu trabalho que ele mais gosta. «O que percebi é que adoro desenvolver uma ideia e descobrir coisas novas», diz ele. Saunders não descarta a possibilidade de desenhar roupas novamente, no entanto afirma que dificilmente voltará a fazer parte daquele ciclo tradicional, «Isso, para mim, não funciona», conclui o designer.

Compreender a forma como o lado comercial funciona, em parceria com a criatividade, lado a lado, em vez de isoladamente, foi sempre a chave para o sucesso da indústria da moda. Mas esse fardo nem sempre foi colocado sobre os designers. Exemplo disso é Yves Saint Laurent que creditou o seu sucesso ao apoio permanente do sócio Pierre Berge. Ou Valentino e o seu sócio Giancarlo Giammetti. Hoje, indiscutivelmente, os designers mais progressistas, inovadores e criadores de tendências são aqueles que têm empresários de confiança ao seu lado: Miuccia Prada com o marido Patrizio Bertelli, Marc Jacobs com Robert Duffy e Demna Gvasalia da Balenciaga com o irmão Guram.

A caçadora de talentos da moda de luxo Floriane de Saint Pierre, contratada para encontrar designers para grandes casas de moda (caso de Alessandro Michele na Gucci), diz que a relação da moda com a criatividade mudou, e os designers agora devem entender de mais assuntos do que apenas desenhar roupas. «O conteúdo criativo faz a diferença agora», começa por dizer, referindo-se à ênfase crescente no marketing criativo. «As marcas tornaram-se grandes fábricas de conteúdo que criam o seu próprio valor e dos seus produtos, tendo ainda que entreter o público. A moda agora está, por isso, aberta a talentos de outros campos criativos. O que importa é encontrar a pessoa com talento que pode conseguir isso, quer venha do meio da moda ou não» (O estilista de roupas masculinas da Louis Vuitton, Virgil Abloh, é um excelente exemplo: era conhecido como empresário antes de entrar para a Maison). Então, o que é que acontece com aqueles que têm capacidade criativa mas nenhum desejo de gerir a parte do  marketing? O que acontece com os designers quando eles desistem?

Não é só Saunders e Farhi que optaram por  se comprometer com outras atividades criativas. Helmut Lang, que abandonou a moda em 2005, agora é artista, Calvin Klein trabalha principalmente com design de interiores e Ann Demeulemeester dedicou-se à cerâmica. Todos eles adotaram uma abordagem diferente, para lá da indústria tradicional.

 

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«Todos temos de evoluir, mudar e encontrar novos caminhos», afirma Christian Lacroix, o designer francês cujo estilo extravagante dominou as passerelles nos anos 80 e 90. Tal como Farhi, Sanders, Klein e outros, Lacroix abandonou a sua marca em 2009 depois de ter vendido o seu nome a uma empresa do grupo LVMH, em 2005. «Eles queriam fazer do meu nome uma marca global. Eu nunca concordei com isso. Para mim, a moda era uma forma de ser único, diferente de todos os outros.» Então, após sua saída, Lacroix canalizou suas energias para o teatro, criando cenários e figurinos fantásticos, sob o nome de XCLX. «A minha verdadeira vocação em criança era a cenografia, mas o teatro era um meio difícil de alcançar nos anos 70».

Na Paris Fashion Week de SS20, foi feito um  anúncio surpresa na manhã do desfile Dries van Noten. O designer belga convidou Lacroix para colaborar na sua coleção que, embora tenha sido muito aclamada – e Lacroix  tenha adorado – não fez com que tivesse ficado «triste por ter deixado este mundo. Foi maravilhoso, mas foi o meu último dia na moda.» Para Lacroix, esta foi simplesmente uma oportunidade de exercitar a sua arte, optando por oferecer a sua criatividade sem o fardo de ter de «gerir os resultados comerciais – fazer uma coleção para o desfile e outra para as lojas – e preocupar-me se vai vender ou não». Jean Paul Gaultier, também, revelou um modelo semelhante depois de “deixar” a indústria da moda com um final épico repleto de celebridades durante a Couture Fashion Week, anunciando que, em vez disso, convidaria novos designers para criar um coleção com o nome da Jean Paul Gaultier, começando com a designer japonesa Chitose Abe, da Sacai. «Fico feliz por poder dar-lhe liberdade completa» disse ele.

Esta liberdade parece ser o segredo para prosperar hoje, como criativo, na indústria da moda. Marco Zanini, o designer que passou quase 20 anos a trabalhar em marcas como Rochas e Schiaparelli, acredita que ganhou independência ao retomar o controlo, operando de forma independente com o lançamento de sua própria marca. Deixou as políticas de empresa e a pressão de trabalhar para um grande grupo quando se afastou de Schiaparelli, em 2014, tendo voltado à moda em 2019 com sua marca homónima, porque o «meu impulso criativo impôs-se a mim». A marca – uma coleção cuidadosamente editada com a opulência e riqueza que ele trouxe de experiências anteriores – está à venda no Matchesfashion.com e no Dover Street Market. «Trabalhar para outra marca está no meu Top10 de coisas a não fazer», diz ele. «Quando as pessoas me perguntam como estou agora, eu digo “melhor do que nunca”».

Natalie Kingham, diretora de moda e de buyers do Matchesfashion.com, diz: «As coisas estão a mudar. Os diretores criativos estão a explorar maneiras diferentes de trabalhar, em vez de seguirem o caminho tradicional». Ela aponta como exemplo colaborações como as de Dries Van Noten e Lacroix, e também a independência de Zanini. «A inovação é a chave para avançar», diz ela. Designers como Lacroix, Zanini, Saunders e até Elbaz estão a lançar marcas independente, de maneiras diferentes e em meios alternativos. Talvez Phoebe Philo também esteja – há muitos rumores de que ela voltará à moda com uma marca independente slow, focada na sustentabilidade. Afinal, Philo já tinha voltado a entrar na indústria depois de a abandonar duas vezes – quando saiu da Chloé em 2006, e depois da Céline. E todos nós sabemos o ditado: à terceira é de vez.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de outubro de 2020.