Peter Dundas: O Designer Norueguês Que Veste As Celebridades Americanas

O norueguês Peter Dundas decidiu parar a sua jornada pelas capitais da moda, para se sediar em Londres. Por: Anna Skavlan -- Imagens: © Dylan Don e Matt Easton.

A pessoa com quem vou encontrar-me nasceu na Noruega, como eu, mas tem pouco da cultura norueguesa. Se formos a ver pelas inúmeras fotos que encontramos no Google quando pesquisamos o seu nome, é fácil assumir que Dundas é italiano, francês ou um norte-americano muito culto. Ele tem o estilo e a confiança do rock’n’roll que nunca associaríamos a um rapaz que cresceu no lado oeste de Oslo. Já para não falar no facto de usar óculos escuros dentro de casa – ninguém na Noruega usa óculos de sol em casa.

Na sua terra natal, o nome Peter Dundas é quase mítico. Lembro-me de uma vez, numa festa em Oslo, se espalhar o rumor de que «o Peter Dundas está aqui», mas ninguém sabia onde – porque ninguém o tinha realmente visto. Mas no Instagram nós vemo-lo. Desde que começou a marca Dundas em 2017, tem partilhado todo o processo – da sua estreia, em que vestiu a Beyoncé durante os Grammys, até ao look usado por Michelle Obama no palco para apresentar o seu novo livro, em Oslo. Para os seus 358 mil seguidores, partilha também fotos dos seus amigos muito bem vestidos em Ibiza, Londres, Los Angeles e Paris, e da Met Gala deste ano. Ele conhece toda a gente e não tem medo de o mostrar. É refrescantemente não norueguês. Na Noruega consideraríamos este tipo de autopromoção como uma espécie de gabalorice, mas no mundo de Peter Dundas é meramente trabalho.

Ao chegar ao seu escritório em Hammersmith, Londres – surpreendentemente em St. Peter’s Square -, encontro um Peter a falar intensamente em inglês ao telemóvel do outro lado de uma divisão feita com imagens do lookbook. O sotaque escandinavo é a única coisa que escuto naquela sala tranquila. A sua autoridade estabelece-se ainda antes de o ver.

Confirmo que Peter fala, obviamente, norueguês assim que me diz um caloroso «Hei!». Tem a estatura de um viking – 1,88m, ombros largos e caracóis loiros típicos noruegueses. O seu companheiro de vida e de trabalho, Evangelo Bousis, tem noção desta semelhança e chama-lhe «meu viking». Em contraste, Evangelo parece-se mais com um irmão perdido de Adonis.

Peter tinha acabado de regressar de Oslo quando o entrevistei, mas disse-me que a maioria das vezes que lá vai é para passar o Natal com a família. Oslo é a cidade onde nasceu, embora não a considere a sua casa. Mas é, claro, norueguês. «Sou bastante norueguês», diz a rir. «Sim, és muito norueguês» assegura Evangelo. «Ele tem as suas qualidades norueguesas, o que é um bom contraste em relação às minhas. Sendo eu grego, sou muito mais dramático. Sabes como é, tragédias gregas…». Peter continua: «Acho que nós, como noruegueses, somos mais calmos e descomplicados. Os noruegueses valorizam o prático. Algo que definitivamente trago para a Dundas. Temos um certo pragmatismo no que toca à roupa. Não gosto de roupa desconfortável – prefiro aquela em que conseguimos movimentar-nos. A roupa não devia restringir, mas sim libertar.»

O lançamento da Dundas

Peter controla a Dundas conjuntamente com Evangelo. A empresa, fundada em 2017, recebeu um investidor logo em seis meses e já foi reconhecida pela revista Forbes como uma marca emergente. Peter deve muito deste crescimento a Evangelo, ex-ator, que uns dias antes da entrevista, esteve em Illinois para uma TED Talk sobre como construir um negócio sem ter muita experiência.

Quando apresentaram a marca, em 2017, fizeram-no numa Beyoncé muito grávida nos Grammys. Ela entrou em palco com um vestido dourado justo, quase transparente, que salientava a barriga, e com uma coroa circular de ouro, que parecia uma auréola. «Quando falámos sobre quem gostaríamos de ter para apresentar a marca ao mundo, não houve dúvidas de que a Beyoncé seria a primeira escolha. Telefonámos-lhe a perguntar, e ela disse ao Peter: ‘Segui sempre o teu trabalho e continuarei a fazê-lo para onde quer que vás’», conta Evangelo.

Agora, Peter divide o tempo entre a sua nova cidade, Londres, o estúdio em Itália, os desfiles de moda em Paris, e aquilo a que ele e Evangelo chamam loja itinerante, agora na icónica Selfridges, em Londres, depois de uma estada em Nova Iorque e em Los Angeles. Quando cheguei ao seu escritório, às 18h, não havia sinais de o trabalho estar a terminar, e pergunto-me se os dois pensam sequer em descansar. O Peter garante-me que sim. «Quando vou de férias, estou mesmo de férias.» Ainda assim, suspeito de que na sua cabeça está sempre a trabalhar. Ele encontra inspiração na cultura dos países que visita, em roupa vintage, nos amigos, na Natureza, nos filmes, na arte ou numa cor em específico. Só o título do álbum dos Eurythmics, We Too Are One, serviu como principal inspiração para uma coleção inteira que combina as formas masculinas e femininas.

Peter e Evangelo vivem juntos, e não consigo imaginar que não exista uma conversa de trabalho à hora de jantar. «A nossa relação vem primeiro do que trabalho. Pomos de parte tempo para a nossa vida privada também, mas o meu trabalho sempre fez parte do meu estilo de vida. É o meu hobby e a parte mais
importante da minha vida, por isso claro que ocupa muito espaço. Mas, ao longo dos anos, tenho-me apercebido de quão sortudo sou por ter o Evangelo, e dou imenso valor ao facto de conseguirmos fazer isto juntos. A Dundas é o nosso bebé, e confiamos nas decisões um do outro», diz o diretor criativo. «Começar alguma coisa do princípio, como fizemos, é claramente difícil», acrescenta Evangelo. «Temos de cuidar um do outro de uma forma diferente, e não podemos ter as coisas como garantidas. Estamos ao mesmo nível desde o início, por isso não há desequilíbrios na nossa relação. Passamos pelos desafios juntos, o que nos aproxima muito mais.»

De pessoal a profissional

Peter mudou-se para Indiana, nos Estados Unidos, aos 14 anos. Estudou na prestigiada Parsons, em Nova Iorque, antes de ir para Paris ser assistente de Jean Paul Gaultier. Em 2002, mudou-se de Paris para Florença para ser diretor criativo, durante três anos, da Roberto Cavalli. Seguiram-se dois anos na Emanuel Ungaro, antes de se tornar diretor criativo da Pucci em 2008. A sua última coleção para a marca, em 2015, foi elogiada pela Vogue americana como «a mais soberba e talentosa» da sua carreira até então. Pouco tempo depois, começou a correr a notícia do seu regresso à Roberto Cavalli, onde ficou apenas um ano. Com isto tudo, não é de admirar que nos questionemos sobre se a sua identidade norueguesa se perdeu pelo caminho.

A sua criatividade deriva das origens em Oslo. A mãe morreu quando ele tinha 4 anos, e foi criado pelo pai, que era cirurgião. A criatividade que retira do mundo é herdada do seu pai, uma alma artística com uma profissão tradicional. «Sempre me senti atraído por roupa e pela criatividade à volta dela, e acho que começas a tornar-te quem realmente és quando descobres as coisas que te interessam realmente. Não me lembro da primeira peça que fiz, mas a minha irmã conta-me que eu fazia roupa para as bonecas dela. Também costumava costurar a roupa do meu pai para me servir a mim, porque não estava interessado em vestir as coisas que as outras crianças vestiam. Acabava por usar peças estranhíssimas.»

O facto de a maior parte da roupa da Dundas ser muito sexy e extravagante, o que é uma coisa muito pouco norueguesa, vem da sua mãe norte-americana. «Ela era bastante glamorosa. O meu pai sempre a descreveu como a mais extravagante e colorida de todos à sua volta. Acho que criei um ideal feminino inspirado nessa ideia que tinha dela.»

Há, inquestionavelmente, uma estética distinta que podemos acompanhar ao longo de toda a carreira de Peter. Enquanto estava na Pucci, ele foi considerado «o príncipe dos padrões», já na Cavalli, as suas coleções pareciam um produto tirado diretamente dos sonhos molhados de Anita Pallenberg e Jerry Hall. Refiro-me à icónica estética dos anos 70 – antes do HIV e depois da pílula contracetiva. Para Peter, a sensualidade natural das mulheres dos anos 70 é definida pela imagem, principalmente das estrelas de rock que parecem ter trocado de roupa com as suas melhores amigas.

«Vejo que o mundo está a tornar-se mais e mais fluido quando se fala em género. Existem cada vez mais mulheres a querer encontrar os seus tamanhos nas peças de roupa masculinas, e mais homens a querer encontrar os seus tamanhos em peças femininas. Os anos 70 representaram isso: o movimento da libertação das mulheres e o facto de Keith Richards, Mick Jagger e Robert Plant quererem usar roupa de mulher. Também há algo na sensualidade dos anos 70 que me atraiu sempre. É a combinação entre o relaxado e o glamoroso.» Evangelo acrescenta que são atraídos por pessoas que reconhecem o valor e a alegria de uma roupa bem arranjada, denominador comum entre os seus amigos próximos.

«Quando consegues dar confiança a alguém através da roupa, sentes uma sensação incrível. É algo que muitas vezes ouvimos de mulheres e raparigas, mas também de homens que usam Dundas; Sentem-se sexy, fortes e confiantes, nunca baratos ou vulneráveis. Um vestido da Dundas não é algo que esperas que te vá sentir bem ao usar, é algo que te faz sentir bem quando usas», diz Peter. «Os nossos amigos que usam peças da marca dizem-nos que se sentem eles mesmos assim que as vestem, que se sentem verdadeiramente eles próprios. Não há melhor elogio», acrescenta Evangelo.

Uma marca inclusiva

Não existem limites, nem de idade nem de forma de corpo, para quem quer sentir-se bem na roupa de Peter e Evangelo. No último show da marca, em Los Angeles, desfilaram a mãe de Elon Musk, Maye Musk, de 71 anos, e a rainha da Noruega, de 81 anos, que também é uma seguidora fiel do trabalho de Peter. Eles vestem as curvas mais famosas – como as de Kim Kardashian – e de facto, Beyoncé estava grávida de gémeos quando apresentou ao mundo a marca de Dundas. «Somos inclusivos por Natureza. Perguntaram-me se queria fazer uma coleção plus size, mas eu já visto mulheres plus size. E visto mulheres dos 20 aos 80 anos. Não há exclusões.»

Quando o nome de Jane Fonda, de 81 anos, entra na conversa sobre as mulheres que adoram a roupa de Peter, tanto eu como Evangelo o recebemos com grande entusiasmo. Ela está absolutamente maravilhosa para a idade que tem. «Claro que sim», diz Peter. «Mas não é inatingível. Ela trabalha para isso, vai ao ginásio. Ela faz o que precisa de fazer para cuidar de si própria.» «A mulher Dundas é assim», adianta Evangelo. «Aquela que cuida de si própria. Não precisa necessariamente de cabeleireiro e maquilhagem, mas tem um estilo próprio.» Peter desenvolve a ideia de sorriso na cara: «A Dundas é uma marca que celebra a vida. O seu objetivo é homenagear tanto a tua aparência como a tua beleza natural. Não é só a beleza exterior que faz de ti uma pessoa bonita. São o sentido de humor, a atitude e o intelecto também. O querer arriscar num vestido de uma cor inesperada. Para mim, isso também é beleza. Há tantas coisas que tornam a vida maravilhosa!»

O entusiasmo no escritório é muito contagiante quando falamos sobre a mulher Dundas, as festas que dão pelo mundo ou a Met Gala onde enchem a sua mesa de amigas. E uma vez que estamos a falar sobre o maior evento de moda do mundo, vi ali a oportunidade de lhes perguntar aquilo que penso todos os anos: é realmente muito divertido? «É sempre divertido quando estás connosco», diz Evangelo a sorrir, o mais entusiasta dos dois. A sua sensualidade mediterrânica atrai brilho. Peter é mais reservado, mas admite que também se diverte. Algo em que obviamente os dois são bons. Contaram-me sobre uma festa numa casa em Mykonos, a ilha grega onde se conheceram, que atraiu aproximadamente 650 pessoas. Também gostei de ouvir como, uma vez, conseguiram criar uma festa temática do Studio 54 na secção de calçado na Bergdorf, em Nova Iorque. No entanto, o encanto de fazer vestidos com os quais convidados e amigas se sintam confiantes e poderosos vem das suas próprias inseguranças: «O que me assusta mais sou eu mesmo», diz o designer. «Duvido muitas vezes de mim próprio, o que pode atrasar o processo. Sempre que começo uma nova coleção é como ser de novo um principiante. Depois fico inseguro sobre os sinais que estou a dar à minha equipa e a forma como estou a comunicar com as outras pessoas. É irritante (…). Aprender a ouvir a voz que está na minha cabeça ajudou-me muito no meu desenvolvimento como designer. Consigo identificar-me com o sentimento de não estar confortável, mas ao mesmo tempo vestir alguma coisa que me faça sentir bem. De certa forma, a roupa é como uma armadura.»

A moda de Dundas depois do #metoo

Atualmente é difícil falar sobre a indústria da moda sem mencionar o movimento #MeToo. Num mundo pós-#MeToo, as peças de roupa reveladoras podem ser vistas com olhos críticos, mas Peter está certo de que não é natural parar de celebrar a sexualidade. «O #MeToo foi necessário. Houve muita hipocrisia, alturas em que as pessoas agiam como se não se apercebessem daquilo que estava a passar-se à volta delas. Muitas ignoraram, o que não foi nada bom.»

O ambiente descontraído ganha logo um tom mais sério depois de se puxar este assunto. Não há dúvida de que é um tema complicado de pôr em palavras. Ainda assim, as palavras de Peter parecem conseguir sair bem formuladas e bem pensadas, o que me faz achar ainda mais que Peter Dundas nunca para de trabalhar. «Houve padrões geracionais que normalizaram as coisas que hoje em dia não são aceitáveis. É ótimo essas coisas terem mudado, mas não tenho a certeza se é correto as pessoas nunca mais trabalharem. Provavelmente, é o norueguês em mim a falar – não existe pena de morte na Noruega, e por isso não sei se é correto sentenciar à morte a carreira de alguém.» O entusiasmo contagiante do casal tem influenciado todos os tópicos de que temos falado. Durante a conversa sobre #MeToo, Evangelo e Peter contam que as suas modelos se riem da nova abordagem, super cuidadosa, que os designers têm agora, quando lhes tocam durante as provas de roupa para os desfiles. Admitem que são capazes de brincar com eles próprios, e acreditam que isso é importante para lidar com a situação, por fazerem a mesma coisa. Para Peter e Evangelo, a vida, a moda e o trabalho são diversão. Se pensarmos bem, tudo na vida pode ser mais fácil e mais divertido. E Peter Dundas e Evangelo Bousis estão sempre a pensar nisso. Se calhar, foi por isso que duvidei da identidade norueguesa de Peter – os noruegueses nem sempre são muito otimistas.

Sem qualquer dúvida, Peter partilha com os noruegueses o seu lado mais reservado e calmo, o qual contrasta com a natureza mais extrovertida e o sorriso constante de Evangelo. Já a invejável ambição de Peter, isso, ele deve-a às suas raízes norte-americanas.

«Tenho sangue nómada. A minha mãe veio de outro país, por isso sempre vi o mundo como a minha casa. É incrivelmente libertador. Posso ir a todo o lado e estar com quem quiser. A Noruega nunca foi a minha única oportunidade, e não acho que seja para toda a gente. Especialmente quando és jovem e estás-te nas tintas. Não importa aonde vás. Quando cheguei Paris, não tinha nada. Fiquei em hotéis onde pagava 15 euros por noite e a minha comida ficava pendurada num saco de plástico do lado de fora da janela, durante o dezembro gelado. Foi maravilhoso! A única coisa de que precisava era de dinheiro para o café e de me sentar numa esplanada a ver as pessoas passarem (…) Quando és jovem, não tens medo de falhar. Está tudo bem. Acho que qualquer pessoa pode fazê-lo. Tenho tido sorte, mas não sou especial. Só recentemente percebi que tinha de fazer o meu hobby e o que me faz feliz», diz Peter honestamente, e Evangelo concorda.

A frustração que ouvi na sua voz atrás da divisão, quando cheguei, foi-se completamente embora. Claramente, Peter ama mesmo o seu trabalho, os amigos que tem e tudo o que lhe foi dado. «Um dia, alguém me disse: assim que encontrares um trabalho que amas, nunca mais terás de trabalhar um dia na tua vida. E é exatamente isso que tenho feito.»

 

O artigo foi originalmente publicado na edição de outubro da revista ELLE.