Do XS ao XXL: Será Que a Indústria da Moda Tem Roupa Para Todos?

Parece que os avanços ainda não foram suficientes. Por: Vítor Rodrigues Machado Imagens: © Lane Bryant (1); Jennifer Enujiugha no Pexels (1);

Passar um dia inteiro a fazer compras pode ser extenuante mas, ao mesmo tempo, extremamente compensador, Afinal de contas, haverá lá melhor coisa do que ter a possibilidade de gastar o nosso tempo (e dinheiro) a comprar peças de roupa que nos fazem sentir bem, e nos ajudam a dizer ao mundo “Este sou eu”? A resposta, para grande parte das pessoas é, certamente, um redondo “não”, mas a verdade é que nem para toda a gente esta experiência é assim tão feliz.

Como é que é possível? A resposta é simples: tente, da próxima vez que for às compras, olhar para as etiquetas das peças (camisas, camisolas, calças ou vestidos) que está a comprar – não só para confirmar se correspondem ao seu tamanho mas para confirmar a quantidade de tamanhos existentes – e prepare-se para ficar perplexa com o que vai descobrir. Isto porque, se olhar atentamente, vai notar que em grande parte das peças de roupa os tamanhos acabam num mísero L, isto quando a extensão não vai apenas até ao M. Ou seja, a roupa é feita para poder ser usada/comprada, mas não é para todos. Existe um enorme grupo de pessoas excluído e afastado desta experiência, e estamos claramente a falar de todas as que vestem tamanhos maiores.

Seria de esperar que, hoje em dia, o mundo da moda – que se tem valido dos três principais bastões da sua nova santíssima trindade (feminismo, inclusão e diversidade) para vender as suas peças estampadas com frases “I Love Myself” ou “I’m Perfectly Imperfect” – tivesse mudado a sua atitude. Mas aparentemente, esta adaptação ainda não se verifica, pelo menos, não totalmente.

«Continua a ser difícil encontrar peças de roupa para mim, já existem algumas opções, mas são opções limitadas, porque nem todas [as marcas] incluem esse nicho», diz-nos Maria Inês Peixoto, modelo plus size agenciada da Face Models, «as que têm, têm apenas um quadradinho no cantinho da loja, e são coisas que metem medo ao susto. As gordas também gostam de vestir coisas bonitas», remata.

A mesma ideia é corroborada pela fotógrafa Cristiana Morais: «Em lojas físicas, não tenho muita facilidade em encontrar roupa. Há marcas com uma seleção plus size, mas não têm à venda em loja tudo aquilo que existe. Só para aí 20% do que existe está à venda online. As marcas do grupo Inditex onde comprava quando era adolescente, por exemplo, agora já não compro lá [por causa da falta de tamanhos].»

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E se achava que estes eram apenas dois casos isolados, e para que não lhe restem dúvidas sobre a falta de diversidade de tamanhos nas peças, incluímos também a experiência de Ana Queirós, segurança de profissão: «Sou alta, tenho as costas largas, e peito, e isso faz toda a diferença em peças como casacos, camisolas e até mesmo t-shirts. Por esse motivo, sempre tive dificuldade em encontrar peças para o meu tamanho, então, às vezes, acabo por preferir comprar uma camisola masculina.»

Exclusão e preconceito

De acordo com o mais recente estudo publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre a mulher portuguesa, 43% das pessoas do sexo feminino têm um peso acima do que seria considerado normal, uma tendência acompanhada mundialmente por tantos outros países. Claro que se trata de um valor elevado, mas mais do que nos dizer se as mulheres têm quatro ou cinco quilos a mais, diz-nos uma coisa: existe uma grande margem de pessoas que a indústria está a excluir completamente. Especialmente se tivermos em conta que são poucas as marcas que têm peças que vão além do L. E se neste momento está a pensar “não existem porque elas são demasiado gordas”, o melhor mesmo é dar dois passos atrás, porque apenas 15% daquelas são consideradas obesas. E mesmo que assim fosse, não teriam também elas o direito de vestir peças de roupa de que gostem e lhes fiquem bem, que as façam sentir-se bem (independentemente do tamanho que usam)? Não serão elas donas dos mesmos direitos de trato? Quer parecer-nos que não.

Se existe algo em comum entre as nossas entrevistadas, é que (independentemente das fases da vida) todas passaram por situações menos agradáveis em lojas. Sentiram os olhares, por vezes ouviram as “bocas” que escapam por entre os lábios, e num dos casos, o da jornalista Carolina Pereira, houve um encontro de primeiro grau com a “simpatia” (e aqui usamos a palavra simpatia com o máximo de ironia possível) de quem trabalha nestes espaços: «Já passei por uma situação desagradável numa loja. Tinha ido para a casa de uns amigos, eles queriam sair à noite, e eu como não tinha nada para vestir, decidi comprar algo. Então, encontrei um top de que gostei numa loja, e fui experimentar para ver se ficava bem. E a senhora que lá trabalhava viu-me a pegar na camisola e disse: ‘Se quiser, há coisas para o seu tamanho daquele lado.’ Eu disse: ‘Desculpe?’ E ela respondeu: ‘Isto provavelmente não vai servir-lhe, mas tem outras opções para o seu tamanho.’ Eu entrei, vesti a t-shirt, era um L, e acabei por ter de a chamar para pedir um M.»

Este tipo de preconceito está de tal forma enraizado na sociedade que ninguém lhe escapa. Como nos conta Cristiana Morais: «Eu tenho uma coisa que me ficou para sempre marcada na memória, que foi quando uma amiga minha, que é mais gordinha, como eu, me disse: ‘Tu vestes-te como se fosses uma pessoa magra.’ O que ela queria dizer era que eu me visto como as outras pessoas, com roupa de cor, com padrões, porque não vejo diferença. Eu não gosto de me vestir só de preto, eu não gosto de esconder as minhas curvas.»

Um problema além dos tamanhos

Qualquer pessoa que tenha tirado um curso de Design de Moda, ou que tenha mínimas noções de confeção de roupa, sabe perfeitamente que todas as peças partem de um molde. Molde esse que começa por ser feito num tamanho S, em duas dimensões, e conforme se vai aumentado em tamanho (M, L, XL, XXL), vai alargando também em dimensões. E aqui surge então uma nova problemática: o fitting das peças. Se temos por base um corpo magro, que apenas se vai aumentando, como podem as peças ficar bem num corpo mais gordo?

Seria de esperar que as peças plus size estivessem já adaptadas, mas nem sempre acontece, como nos diz Maria Inês Peixoto: «Tu vais a uma secção de gordas e a maioria da roupa é mais escura e mais largueirona, não há nada estruturado. É muito raro haver peças estruturadas. Nos tamanhos mais normais, há uma estrutura das peças, mas o que me parece é que os designers não percebem os corpos das gordas, e aqui entram a minha grande luta e o meu desafio. Por exemplo, mesmo que exista um XL, ou um XXL, esse é feito a pensar no corpo de uma pessoa magra, enquanto um corpo gordo tem sempre mais curvas. E existem formas de contrariar isso. Há designers como o Michael Kors ou o Christian Siriano, que estão a apostar nesta área, que é de nicho, porque são cada vez mais as pessoas que se preocupam com o que vestem.»

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Sobre este problema, Carolina Pereira vai mais longe, falando não só acerca da necessidade de existir um maior controlo sobre as dimensões dos tamanhos, mas também sobre os possíveis impactos que estas diferenças podem ter: «Os tamanhos das peças são enviesados. Não há um controlo aqui por parte das marcas. Quantas vezes vais a lojas em que o S e o M são iguais? Isto faz com que dificilmente a mesma pessoa vista os mesmos tamanhos em todas as lojas, e isso é preocupante. Se há uma tabela estabelecida, devia haver uma medida-padrão associada, e devia haver um controlo maior para saber que essas medidas são compridas, porque isto pode ter um impacto psicológico nas pessoas que sempre vestiram um S e vão a uma loja e o S não lhes serve. Para uma pessoa que esteja a passar por um problema mais complicado do foro psicológico, isso pode ter um efeito muito mau.»

O impacto psicológico

De facto, como comentado no testemunho anterior, podem existir situações mais complexas. Até porque lidar com esta questão diariamente não é fácil, tal como nos confessa Maria Inês Peixoto: «Há dias em que não posso permitir-me ir às compras (…) Quando não encontro nada é duro. A sério que sim! Porque é aquela sensação: ‘Fogo, não consigo vestir nada!’» Cristiana Morais acrescenta: «Como as marcas não têm um fitting certo, há coisas que compro e não encaixam no meu corpo, e eu fico mesmo triste. Porque ou não funciona no meu corpo ou o tamanho que tem é mega gigante para mim, mas dá uma certa tristeza sim, até mesmo frustração.»

Tudo isto, por muito confiantes que sejam as pessoas, acaba por ter impactos, como salienta a Dra. Maria Bartolomeu, psicoterapeuta: «A ida às compras é desmoralizante porque há muito poucas marcas que se prendem a esse nicho ou que estão a querer desenvolvê-lo (…) Isto pode contribuir (ainda que não haja certezas, mas já há algumas evidências científicas de estudos) para o desencadeamento de dificuldades emocionais. Quando há um condicionamento da imagem, os efeitos psicológicos deste excesso de peso (tanto pode ser por obesidade como por ter apenas algum peso a mais e não se encontrar aquela roupa que se pretende) levam ao aparecimento de mecanismos de coping patológico de própria depreciação da imagem da pessoa.»

E quais podem ser eles? A Dra. Maria Bartolomeu responde: «Pode trazer sintomas ansiosos ou problemas de ansiedade, pode trazer sintomas depressivos ou até mesmo uma depressão, pode trazer uma distimia (que é uma forma crónica de depressão menos grave), sensação de desadequação social, falta de sensação de bem-estar», o que nos leva ao «fechamento e ao isolamento a relações interpessoais (…) Por estas pessoas se sentirem inadequadas, desenvolvem estes mecanismos psicológicos para evitar este tipo de exposição. E muitas vezes vemos pessoas com ataques de pânico, com fobias ou com ansiedade social. Ou seja, estamos aqui num quadro, a nível médico, complexo.»

A psicoterapeuta encerra esta entrevista com aquela que nos parece ser a melhor frase para a terminar (e até mesmo uma possível solução): «As mulheres querem e têm o direito de ser aceites, independentemente do tamanho que vestem. E têm o direito de ser aceites pertencendo ao padrão. Normalizando as lojas, as medidas poderão ajudar bastante. Quanto mais normalizarmos, mais as pessoas vão sentir-se emocional e fisicamente melhor.»

Algumas marcas e sites que vendem tamanhos plus size ou têm várias peças com números que vão (pelo menos) até ao XL

Mango Violeta, Asos, Marina Rinaldi, Pretty Little Thing, H&M, Marks & Spencer, La Redoute, Monki, Lane Bryant, Christian Siriano, Michael Kors, Boohoo, River Island, Boutique da Tereza, Forever 21, Tommy Hilfiger, Cushnie, Tome e Eckhaus Latta.