Nuno Baltazar: «Não Vou Fazer Mais o Portugal Fashion»

A notícia foi revelada em exclusivo à Elle, ainda antes de comunicar a sua decisão oficialmente. Por: Margaida Brito Paes -- Imagens: Portugal Fashion/ Ugo Camera

Nuno Baltazar apresentou este sábado, 16 de março, aquela que será a sua última coleção no Portugal Fashion. A revelação foi feita em exclusivo à Elle Portugal, durante a entrevista que se seguiu ao desfile. A decisão do designer está tão tomada, como é certa a sua continuidade enquanto designer de moda e com a sua marca.

As razões apontadas são o cansaço de um série de situações para as quais tem vindo a chamar a atenção ao longo do tempo, mas que não têm sido levadas em conta. Sem entrar em detalhes, o designer responde a todas as questões sobre o futuro nesta entrevista. Depois desta revelação olhamos para a coleção com outros olhos. «A ideia de sair de um sítio em que já não és feliz, de uma relação em que já não és feliz, e tens de sair por muito que o ames», ganha à luz desta informação, uma luz completamente diferente.

Esta coleção inspira-se na crise dos refugiados?

Não na crise dos refugiados de uma forma tão abrangente, mas nas emoções que eles trazem com eles. Não ter um lugar, o ‘Displaced’, é uma imagem muito violenta e que nós não conseguimos projetar. É preciso falar sobre isso. Eu hoje na folha de sala fiz questão de agradecer a cada pessoa que trabalhou para este desfile, as pessoas têm nome e têm de ser encaradas dessa forma. Esta coleção não é uma intervenção política mas sim humana e emotiva.

Como se transmite para uma coleção uma emoção que, como dizias, não conseguimos projetar?

A forma com se chega lá, é procurar dentro do nosso universo interior as emoções que nos ligam ao que é não ter um lugar, neste caso. A ideia de sair de um sítio em que já não és feliz, de uma relação em que já não és feliz, e tens de sair por muito que o ames, etc. Só te emocionas com qualquer coisa quando consegues estabelecer um paralelismo entre o que está a ver e o teu universo pessoal. O meu trabalho, neste caso, foi sobre a minha emoção perante esta temática e não exactamente sobre as pessoas que a vivem. Porque eu não posso supor aquilo porque elas passam e respeito muito isso.

É uma coleção mais pessoal por isso?

É uma coleção muito, muito, muito pessoal e cheia de fragilidades.

Como é que se mostra a uma plateia repleta de gente as nossas fragilidades, ainda que elas estejam escudadas em roupa e não sejam perceptíveis a todos?

O mais importante é não me preocupar com isso e fazer as coisas com verdade. Até na banda sonora estavam algumas delas, eu estava a comunicar com as pessoas, elas podiam não saber mas elas estavam lá. Tinha as costuras voltadas para fora, o voltar as peça ao contrário, a forma como a roupa foi coordenada, a ambiguidade entre o feminino e o masculino, linhas desfiadas, roupa grande demais para quem as vestia, tudo isso teve a ver com as emoções que queria passar. Mas obviamente é super pessoal e muita gente não chega lá.

Na edição passada a tua coleção falava sobre o período ditatorial no Brasil, esta fala sobre os refugiados. Por muito que se fale de emoções não deixam de ser um crítica política. Já pensaste em fazer uma coleção de crítica política a Portugal?

Eu acho que esta coleção está cheia de críticas a Portugal.

Quais?

O que é que nós estamos a fazer pelos refugiados?! Nada! Nós limitamo-nos a dizer que estamos disponíveis, mas para estarmos disponíveis eles têm de querer vir, mas para isso eles têm de conhecer o país.É normal que alguém que vive na Síria não conheça Portugal, e que quando lhe perguntam para onde quer estar, não falem do nosso país. Nós temos uma postura muito passiva em relação a isto, não nos preocupamos não só com os refugiados, mas também com as países que já não conseguem receber mais pessoas e que precisam de ajuda também.

Como é que a roupa pode ter uma intervenção política além do momento do desfile?

Não pode. O momento do desfile é que é uma performance artística, a coleção depois por si só separada não tem tanto impacto.

Por isso é que achas importante e trazes sempre para os desfiles esta voz mais interventiva?

Acho que sim. Eu tenho muita vontade de falar do que me emociona. Cada vez mais falamos de um Universo muito impessoal e muito frio, em que não nos importamos com nada nem com ninguém e em que aceitamos tudo. A crítica é muitas vezes muita mal encarada em Portugal, porque é mal sustentada e eu defendo que a crítica deve ser construída de uma forma refletida e  depois exposta.

Achas que os meios de comunicação social têm uma responsabilidade acrescida sobre as opiniões que levam a público?

Sim, completamente. Acho que cada vez mais a comunicação social, e até os jornais mais sérios, estão mais preocupados em criar títulos que dêem partilhas. O que interessa é a partilha e o número de vezes que é partilhado e não a notícia. E isso é triste de observar, gostava muito de mudar as coisas mas não vou conseguir mudá-lo sozinho.

Mas não é isso também que o público procura?

Não, isso é o que nos é dado. O público tem de ser educado e os jornais têm obrigação de trabalhar de uma forma séria.

Na moda também sentes que era precisa mais seriedade?

Muita seriedade.

E o que é que faz falta?

Faz falta bater com a porta. Que foi a forma como acabei o desfile, com barulhos de portas a bater.

Faz falta os designer baterem com a porta? Quem é que tem de bater com a porta?

Eu vou bater com a porta.

O que queres dizer com isso?

Quer dizer que não vou fazer mais o Portugal Fashion.

Qual vai ser a opção depois disso?

Não sei. Mas sei que tenho de estar em sítios onde esteja feliz. Isto tem de ser um momento feliz e eu não sou feliz aqui.

Mas vais continuar a trabalhar em moda e a apresentar coleções?

Sim, claro. Mas é importante dizer não quero, não concordo. Já tenho feito isso muitas vezes, e não é bem recebido. Portanto como dizia Frida Kahlo ‘onde não puderes amar não te demores’.

Vais continuar a apresentar em formato de desfile de forma independente?

Ainda não pensei nisso, mas tenho a certeza que não quero mais isto.

Vais continuar a fazer coleções?

Vou fazer coleções e isso nem está em questão. Só não as vou apresentar aqui, a não ser que de repente me provem que alguma coisa vai mudar, mas sinceramente não acredito.