ModaLisboa: Do Álbum de Família de Gonçalo Peixoto ao Manifesto de Dino Alves

O último dia do evento em resumo. Por: Inês Aparício -- Imagens: © ModaLisboa | Photo: Ugo Camera

Depois de três dias em que marcas e criadores apresentaram as propostas para o outono/inverno 2019, chegou ao fim mais uma edição da ModaLisboa. Mas antes de seguirmos em frente, relembramos os desfiles que marcaram o último dia do evento.

O álbum da família de Gonçalo Peixoto

Numa altura em que as reivindicações pela igualdade de género estão na ordem do dia, Gonçalo Peixoto quis transportar o que o género feminino quer para a sua coleção. «Queria uma coleção divertida, descontraída, contemporânea, mas ao mesmo tempo, que tenha o direito das mulheres de se afirmarem, de fazerem aquilo que querem e como querem presente. Temos looks em que elas estão tapadas com uma gola alta e outros em que estão com decotes enormes, o que mostra que elas usam o que querem. Há liberdade. Tem de haver liberdade», explicou o criador à Elle.

Para isso, pegou nas mulheres da sua vida e criou uma linha que é também um álbum de família. Contudo, não há fotografias a preto e branco ou mesmo a sépia nesta coleção. Se depender do jovem designer, os neon irão iluminar todos os retratos e tirar espaço aos tons comumente associados a estas imagens, dando-lhe um ar mais contemporâneo e urbano.

Dos brocados que lembravam o sofá da sua bisavó, aos volumosos ombros tipicamente usados nos anos 80, passando pela reinterpretação dos clássicos blazers com padrão tartan, através da junção de um capuz, vários foram os elementos que compuseram o álbum da família do designer, adaptado ao século XXI. Isto, porque possivelmente não veríamos decotes profundos ou transparências no verdadeiro livro.

Mesmo tapando as cabeças das modelos, o que seria normalmente associado ao conservadorismo, Gonçalo Peixoto quis provar que o contraditório pode estar em sintonia. «Tu tens uma mulher com uma touca conservadora, mas tens os mamilos de fora. As ideias até podem ser contraditórias, mas o que importa é que cada um faz o que quer. Pelo menos deveria ser assim. É este o state of mind que quero passar, enquanto criador da coleção. Quero que as mulheres sejam simplesmente elas próprias», sublinhou.

À flor da pele em Olga Noronha

A expressão tela em branco ganhou outro significado na apresentação de Olga Noronha. Nas quatro (e únicas) peças aparentemente imaculadas que a criadora colocou na passerelle, viam-se apenas relevos indecifráveis. No entanto, consoante era atirado pó magnético para os coordenados, por um bailarino – amigo da designer desde os três anos –  figuras de flores, em que os estames se destacavam como representação da sexualidade, começaram a surgir. «A ideia era mostrar que nós não passamos para fora necessariamente aquilo que vai dentro de nós, o nosso ego físico e emocional não é necessariamente revelado», esclareceu Olga Noronha.

Mas como é que essa revelação foi possível a nível técnico? «As peças têm um circuito magnético embebido entre duas camadas de pele de cordeiro. A peças têm procesos de magnetização estudados minuciosamente por mim durante algumas semanas. Demorei algum tempo a comprovar que o circuito mgnético funcionaria, como poderia magnetizar ainda mais as peças ou desmagnetizar os contornos como quisesse, trabalhar a ideia da onda magnética que cria o ponto e não a linha contínua. Claro que isso me demorou algum tempo. Não obstante, esta talvez tenha sido a coleção na qual eu estive mais nervosa, porque todas as peças vieram virgens para passerelle. Nenhuma delas tinha sido experimentada porque a partir do momento em que elas ganham vida em passerelle, elas perdem a sua característica de nudez pura», explicou.

Ricardo Andrez foi à bolsa de valores

Se Ricardo Andrez quisesse que a coleção se tornasse num filme, certamente colocaria uma versão invertida de «From Prada To Nada» no grande ecrã. É que, ao contrário do que é habitual acontecer, o criador partiu de uma preocupação sustentável – em vez de um conceito – para dar vida a excedentes de produção de várias fábricas que visitou no norte de Portugal.

E a verdade é que, inicialmente, não poderia ter uma ideia muito específica do que iria fazer, uma vez que o que iria encontrar era uma incógnita. Ainda assim, Ricardo Andrez tinha em mente alguns elementos específicos com os quais gostaria de trabalhar, como o cor de laranja – uma vez que considerava «uma cor interessante para o inverno» -, e manteve a mente aberta no que a uma posterior intervenção diz respeito. «Não ficamos tipo ‘ok, temos isto é isto’. Obrigamo-nos a intervir nos próprios materiais. Em situações nas quais nunca tinha trabalhado, como no tingimento de peças ou dos próprios alfinetes [que usou, por exemplo, nas costuras de um puffer jacket preto]. Tentei não ficar estático», revelou o criador à Elle. «Foi um processo duro, porque implicou bastantes dias e semanas em fábricas, e, como 90% da coleção foi criada com os tecidos que aí encontramos, obviamente que isso nos limita em termos de produção da própria coleção», explicou.

Os números e símbolos gráficos (de representação da subida e descida do valor das empresas na bolsa) que estampavam vestidos, camisas e calças, na totalidade ou em detalhes, foram desenvolvidos pelo próprio criador para adornar os tecidos encontrados. «Esse print foi desenvolvido por nós, achei interessante pegarmos nisso para dar a ideia que, quase do lixo é possível passar ao luxo».

No entanto, não foi apenas nas peças – nas quais os neon contrastavam com o negro – que surgiu a representação da bolsa de valores. O próprio movimento das modelos na passerelle, que circulavam numa espécie de loop, remetia para esta realidade. «Inicialmente era para representar apenas o cenário urbano, na cidade, as pessoas a cruzarem-se. Mas depois pensei, ‘bem, isto pode ser mesmo interessante, porque as pessoas vão ver, e ver, e ver, e é quase como a rotação dos números na bolsa de valores’», notou o Ricador Andrez.

O manifesto de Dino Alves

«Your image is your weapon», «say no to beauty tyrants» ou «you can never be overdressed ou overeducated»: quem o diz é Dino Alves, que mais uma vez prova que nem só de palavras ditas se faz uma manifestação. «Podemos reagir através da arte e, neste caso específico, do estilo. Por isso é que a coleção estava carregada de statments, que é uma coisa que tenho vindo a usar [nas coleções] e, desta vez, exagerei ainda mais, quase como se a roupa fosse um panfleto. Um panfleto reacionário», explicou o criador à Elle.

Em vestidos, calças, camisas e acessórios, estas palavras de ordem tomam a forma de reação. Do preconceito à desigualdade social, passando pela liberdade de expressão, ditadura da beleza ou a desumanização das relações, Dino Alves manifesta-se e incentiva o público a juntar-se a ele nesta luta. «Não devemos estar calados, não nos devemos resignar», enfatizou o criador.

No entanto, através do styling arrojado, da mistura de cores e da escolha de elementos inesperados, o designer procurou mostrar que é possível «reagir sem ser de uma forma agressiva, com palavras menos simpáticas ou com violência». «Devemos usar a nossa imagem e o nosso estilo como armas para reagirmos a coisas», concluiu.

Um dos movimentos ao qual Dino Alves se colocou a par nesta coleção é o da luta contra a destruição do planeta. Assim, este procurou utilizar materiais sustentáveis em algumas das peças. «A ganga que usei é tudo algodão orgânico e reciclado. E usei uma série de tecidos vintage autênticos, como aproveitamento, como não-desperdício», notou. Quando lhe questionamos se este é um caminho que quer tomar para a marca no futuro, este afirma que a sustentabilidade é uma preocupação sua, mas que será complexo tornar a marca verde na totalidade: «Não vou dizer que vou conseguir ter essa preocupação a 100%, mas será possível em 20 ou 25% das peças. Já tenho um bocadinho esse cuidado. Claro que às vezes é impossível, porque não temos meios ao nosso dispor para isso».

Terminada a apresentação dos coordenados para o outono/inverno 2019, os modelos voltaram a surgir na passerelle, como é comum, para o agradecimento final. Contudo, estes juntaram-se a outros homens e mulheres que trouxeram uma manifestação para o palco. Estes traziam bandeiras feitas com os mesmos tecidos que as peças mostradas anteriormente – símbolo metafórico, mas quase literal, de que a bandeira são as próprias peças de roupa, a nossa imagem – e cartazes em acrílico, com a forma de t-shirts, nos quais era possível ver as expressões que surgiram, como etiquetas, na roupa apresentada.

O último dia de ModaLisboa ficou completo com as apresentações das coleções de Nuno Gama – que mais uma vez optou por um formato de desfile estático, em que é o público quem se movimenta ao longo da sala para ver as propostas do criador -, Andrew Coimbra, Nycole e Aleksandar Protic. Agora, o universo da moda sobe ao norte para que os designers portugueses possam continuar a mostrar as suas peças na passerelle, mas desta vez no Portugal Fashion, que toma a Alfândega do Porto entre os dias 14 e 17 de março.