#TOP2019: O Futuro da Moda Portuguesa Está a Dar os Primeiros Passos em Paris

Pela primeira vez a ModaLisboa e o Portugal Fashion estão juntos numa iniciativa internacional. Por: Margarida Brito Paes Imagens: Pedro Moura Simão

Artigo original de 19 de junho de 2019

A Moda Portuguesa assentou arraiais em Paris esta terça-feira, 18 de junho, e por lá se irá manter até quinta-feira, 20 de junho. Numa iniciativa do CENIT (Centro de Inteligência Têxtil) e pela ANIVEC (Associação Nacional das Indústrias e Vestuário e Confeção), que juntou, pela primeira vez, a ModaLisboa e o Portugal Fashion numa ação conjunta. E, como em qualquer arraial que se preze, os visitantes saíram com um manjerico na mão, ou não estivéssemos nós em mês de Santos Populares. 

A mostra contou com cerca de 30 nomes portugueses de diversos setores e curadoria de Eduarda Abbondaza. Um evento que não foi apenas mais uma iniciativa internacional para promover a Moda Nacional fora de portas, já que juntou diversas associações do setor. Às já referidas, somaram-se a ANIVEC, APICCAPS e AORP. Um marco para a Moda Portuguesa, que pode ser uma luz sobre o futuro dos eventos de moda em Portugal. 

«A ModaPortugal desenvolveu esta estratégia de promoção internacional. Quisemos, no mesmo espaço, incluir várias linguagens e vários produtos nacionais. Este ano quisemos criar este espaço colaborativo, um ponto de união entre criadores. O setor é abrangente e precisa de todos e é verdade que a união faz a força. Acreditamos que há possibilidades de contacto e experiências colaborativas» disse à ELLE, Marlene Oliveira, do CENIT. 

ModaLisboa e Portugal Fashion de mãos dadas

Desde a celebração do protocolo, em setembro de 2018, entre as duas entidades promotoras de semanas de moda em Portugal, que assistimos à migração de alguns designers de um evento para o outro, bem como a presença de nomes do calendário lisboeta nos projetos de internacionalização do Portugal Fashion. Esforços tímidos que ganham uma nova força com esta ação conjunta, tendo esta, por isso, uma enorme importância para o setor em Portugal e podendo ser o início de um novo esboço no quadro da Moda Portuguesa. 

«Acima de tudo isto é o lançamento de uma nova estratégia e de uma nova forma de estar. Um alinhamento setorial em que estamos todos a trabalhar para escalar aquilo que se faz e já se faz bem, mas que pode chegar mais longe se estivermos todos alinhados», referiu Mónica Neto, Project Leader do Portugal Fashion, à ELLE, aquando do evento. 

Também Eduarda Abbondanza, Presidente da ModaLisboa, frisou o peso deste momento: «É muito importante, por razões óbvias. Portugal é um país pequeno, não tem verbas milionárias, por isso, se Portugal quer impactar os mercados internacionais, é muito melhor trabalhar em conjunto. A deliberação do Governo é que as associações se unam e escalem a dimensão das ações».

A mão invisível do Governo

O Governo foi um importante pilar nas negociações entre as Associações, ainda que Eurico Brilhante Dias, Secretário de Estado da Internacionalização, sublinhe que o mérito é sobretudo das entidades envolvidas.

«Como Governo fizemos a nossa pequena parte, que foi fazer com que as associações se sentassem à mesa e começassem a trabalhar mais em conjunto. Só fizemos isso. O trabalho essencial é deles. Foi isso que permitiu que hoje saíssemos de uma ação do Portugal Fashion, onde esteve a Eduarda Abbondanza, e em duas horas tenhamos ido, para outro local de Paris, para um evento onde temos criadores que apresentam no Portugal Fashion e na ModaLisboa. Isto é novo, foi um trabalho de construção de cooperação entre as plataformas para que possam cooperar em Portugal mas também no estrangeiro. Esta é a primeira ação cruzada. Se pararmos aqui não chega. Temos de continuar! Foram muitos anos de costas voltadas que acima de tudo não serviam os criadores».

Uma realidade que Eduarda Abbondanza reconhece e diz não ser um caminho para um futuro próspero: «Portugal ainda tem uma política de capelinhas e não vamos ganhar nada com isso. Já temos 20 anos dessa política e não ganhámos nada, apenas sobrevivemos. Se nós queremos galgar patamares tem de ser assim. Há muitos setores que já estão a fazer isto e têm bons resultados».

O Futuro passa por uma semana de moda única em Portugal?

Numa altura em que as duas entidades promotoras de semanas de moda em solo nacional apontam a colaboração como o caminho, é impossível não questionar se a existência de uma semana de moda única é o futuro. 

Para o Estado, esta é um questão sobretudo financeira. «Eu não me importo nada que hajam duas associações. Tem é de haver um trabalho em conjunto para promover a moda portuguesa. Os recursos são escassos e, em Portugal, somos só dez milhões. Estamos num mercado imenso e muito competitivo. Aquilo que temos de garantir é que o que fizemos hoje se vai repetir muitas vezes. As associações não existem para se servir a si próprias, existem para servir os designers. Um criador português tem de poder estar na ModaLisboa e em Paris com o Portugal Fashion. (…) Existe financiamento, mas o dinheiro tem de ser bem utilizado. Temos de fazer com aquele dinheiro mais do que fazemos. Não podemos distribuir o dinheiro por todas as capelas» declarou Eurico Brilhante Dias, Secretário de Estado da Internacionalização. 

Já as representantes das duas entidades com maior peso na Moda nacional, apesar de manterem discursos alinhados no que diz respeito à cooperação, têm visões mais distintas em relação à questão de uma única semana de moda.

Para Eduarda Abbondanza as diferenças entre os dois eventos são grandes e devem ser trabalhadas para que as essências de cada um se tornem mais distintas. 

«Não há uma semana única porque temos de observar as geografias. Lisboa tem uma geografia muito própria, tal como o Porto. O Porto tem programas muito grandes, em relação a Lisboa, pela sua geografia, e vai ter de responder a isso. Tem indústria e marcas de indústria e o dinheiro vem por essa via, não por outra. Lisboa é mais cosmopolita, tem menos verbas, mas o seu posicionamento é outro. Como tal não vai haver uma semana única, tem é de haver linguagens e objetivos diferenciados e uma concordância de datas, de maneira a que comece em Lisboa e acabe no Porto. São realidades diferentes, mas na diferença há uma riqueza enorme».

Mónica Neto, apesar de estar consciente destas diferenças, também reconhece que existem algumas semelhanças, visto que o formato escolhido por ambas as plataformas para apresentar a moda nacional é o desfile. 

«Ambas as plataformas têm uma aposta grande nos novos talentos, ambas têm uma aposta no seu desenvolvimento enquanto negócio. O Portugal Fashion, na sua essência, está mais ligado à indústria e projetos de internacionalização, mas a partir do momento em que estamos mais alinhados, eu diria que essas diferenças se vão diluir cada vez mais (…). Neste momento as duas plataformas estão alinhadas, mas continuam muito fiéis à sua essência e às suas diferenças. Para já as coisas têm feito sentido desta forma. Acredito que com o evoluir do tempo possam acontecer novas sinergias e alguns formatos diferentes, mais concentrados, mais alinhados, acredito que venha a acontecer. Se o futuro passa por apenas uma fashion week, é uma discussão mais alargada, acho que ainda não chegámos aí».

A dúvida fica em aberto, mas fica claro que este evento, em Paris, foi o início de uma nova etapa para a Moda Portuguesa.