Mayara Russi:«Passava dias a chorar nos provadores porque não encontrava roupa»

Mayara Russi veio do Brasil diretamente para a 1ª edição do Plus Fashion. Por: Rossana Mendes Fonseca -- Imagens: © Bruna Breckhauser

A primeira edição do Plus Fashion realiza-se nos dias 18 e 19 de maio no Palacete Baldaya, em Lisboa.  Mayara Russi, modelo e protagonista do reality show brasileiro Beleza GG, é uma das embaixadoras do evento e a ELLE falou com ela. Nesta entrevista em pleno coração de Lisboa conversámos sobre  as principais mudanças e obstáculos no desenvolvimento deste setor da moda.

Como te sentiste quando te contactaram para  fazer esta primeira edição do Plus Fashion em Portugal?

Senti-me muito honrada e feliz. Em quantos mais países eu puder levar na minha experiência, a minha vivência e tudo o que eu passei no ramo da moda, melhor. É muito valioso. O meu sonho sempre foi ter uma carreira internacional. Estamos a começar agora. Aproveitei Portugal e vou já fazer outros trabalhos por aqui, e talvez em mais alguns países da Europa. Então, foi muito gratificante. Estou muito feliz pelo projecto porque é uma oportunidade para as pessoas aqui de Portugal e do mundo conhecerem um pouco mais esse mercado, que ainda é um pouco escasso, um pouco precário.

Em Portugal ainda existe um tabu sobre este segmento do mercado (o plus size). Como é no Brasil?

O Brasil mudou muito. Hoje em dia é totalmente normal ser uma mulher gorda, bem resolvida. Mas não era assim. Foi uma luta.

Quando é que sentiste que houve realmente uma mudança?

Eu acredito que de há uns dois anos para cá. É muito recente. Já existia um mercado, porém não era tão falado. Hoje em dia, a publicidade já notou. Então, já existe muita campanha publicitária a fazer esse tipo de inclusão. Não só em relação ao corpo, mas em relação a muitas coisas: homossexualidade, raça, cor. Já mudou muito. No Brasil, temos uma voz muito importante. A gente tem uma liberdade de expressão muito grande. Então, lá, já se consegue falar com mais propriedade sobre isso.

Mesmo agora que mudou um pouco o paradigma político?

Mudou o político, mas a partir do momento que adquirimos essa voz e essa liberdade, já ninguém pára. Era disso mesmo que ainda agora falava. Vamos para a rua, protestamos, ninguém nos vai calar mais. Não importa a posição política que a pessoa tem, um segura a mão do outro e vamos lá.

Não sentiste então uma mudança?

Mudou em relação ao receio das pessoas para o que ia acontecer, só que pelo que estamos a ver, ele (Jair Bolsonaro, atual presidente to Brasil) não tem voz ativa nenhuma em relação a mais ninguém. Ele está perdido, ele já não sabe o que fazer. Então, hoje, conseguimos, sim, lidar com isso. Agora, essa questão das armas, que eu não concordo, pode dar muita coisa ruim para as pessoas no Brasil. Mas vamos ver.

Mas as minorias continuam a ser muito perseguidas?

Sim, muito perseguidas. Então, temos que ser firmes com o nosso propósito para não deixar cair e regredir. Todo o trabalho de tantos anos, vindo lá de trás com as mulheres no feminismo, se conseguirmos manter isso num atual governo no qual temos medo, se passarmos por esses quatro anos, vai ser uma vitória.

Sentes que no Brasil esta questão do Plus Size e da representatividade tem sido bem desenvolvida e divulgada?

Sim, foram muito trabalhados. A publicidade é uma vitrine. Então, tudo o que aparece na televisão é nisso que as pessoas se inspiram. E, na minha época quando eu era adolescente, quando eu estava naquela fase de moldar a minha cabeça e a minha mente para saber o que é que eu queria para mim, eu não tinha nenhuma referência destas. Era muito complicado. Hoje, essa nova geração e as próximas gerações já vão ter outras grandes mulheres, outras grandes personalidades, que fogem daquele padrão que foi estipulado pela sociedade.

Além das marcas que disponibilizam uma série de tamanhos variados, sentes que também há uma abrangência à moda autoral, aos designers que fazem roupa no Brasil?

Pouquíssimos. É uma luta quando precisamos de alguma peça de moda de autor. Encontrar alguém que o faça. A não ser que seja para um evento específico, que algum stylist, que algum estilista esteja a tratar de toda a produção e tenha uma mulher gorda no meio. Mas uma coisa autoral mesmo, específica para alguém, não há.

Não adianta uma loja que vende do tamanho 44 ao 60 usar uma modelo 44, porque não vai representar toda a gente.

E achas que isso seria importante?

Muito. A partir do momento em que começarem a incluir plus size nas semanas de moda, conseguimos um avanço. Mas incluir de verdade em todos os desfiles. Não um ali, uma vez a cada quatro anos.

No teu crescimento no setor da moda, houve algum momento em que tiveste dificuldades com o teu corpo por causa de todos estes standards e imagens definidas?

Sempre tive, principalmente pela pressão. Eu sempre fui modelo plus desde os 15. Vou fazer 30 anos. Então, já tenho uma boa bagagem. Quando comecei, não havia nada. Quando comecei, o meu tamanho era óptimo, só que depois começou-se a colocar um padrão dentro de um padrão, que foi desconstruído, e começou a ficar meio confuso.

Eles queriam modelos até determinadas medidas, mesmo estando no plus size. Começaram a colocar o padrão curvy e foi ficando mais confuso, porque comecei a não me enquadrar. Então, pensei no que iria fazer e achei que isso estava errado. Continuei a batalhar nas minhas redes sociais e, hoje, no Brasil, sou uma das únicas modelos do meu tamanho que realmente trabalha.

É esse o impacto que procuras? Abrir caminho para a aceitação de todo o tipo de corpos?

Exatamente. Não adianta uma loja que vende do tamanho 44 ao 60 usar uma modelo 44, porque não vai representar toda a gente. Quem veste um tamanho maior não vai conseguir ver-se naquela imagem.

Qual é a história por trás de te teres tornado modelo plus size?

Encontraram-me no shopping. Eu tinha acabado de fazer a foto da minha festa de baile de debutantes. O fotógrafo disse-me que eu era muito fotogénica e que tinha que emagrecer para ser modelo. A minha mãe é que não me deixou responder e aquilo lá passou. Depois disso, alguém de uma agência parou-me no shopping e disse-me que estava à procura de alguém com o meu perfil, mas eu achei que era brincadeira porque naquela época não havia nada disso.

Eu passava noites e dias a chorar nos provadores de loja porque não encontrava roupa. Vir uma agência dizer que estava à procura do meu perfil para ser modelo era muito esquisito. Achei que era mentira. E não fui lá. Passaram-se uns dois meses e uma outra agência também me procurou. Aí, a minha mãe disse que devia ser a sério, para eu ir falar com eles. Então, fui à primeira agência que me encontrou. Fiz o curso de modelo, fiz várias coisas lá e comecei a trabalhar. Foi muito inesperado, porque eu sempre gostei de fotografia, mas nunca imaginei que pudesse ser modelo.