#ELLEstaylocal: Martine Love, A Marca Que Reinventa Os Bordados de Viana

A tradição modernizada. Por: ELLE Portugal Imagens: © D. R.

Se depender de Marta Champalimaud, fundadora da Martine Love, a arte de bordar à mão nunca se irá perder. E o mesmo se pode dizer dos tradicionais lenços dos namorados, típicos de Viana do Castelo, que ganham espaço em diferentes modelos de vestidos e, mais recentemente, também em camisas. Porque, apesar de ter começado entre hesitação e medo, três anos depois do ano do seu nascimento, a marca continua a crescer a cada dia que passa.

Marta Champalimaud, fundadora da Martine Love.

O que te levou a criar este projeto?

Durante a faculdade, tenho uma vaga ideia de sempre me imaginar a criar e a trabalhar num projecto como este. Algumas pessoas desses tempos dizem-me que eu falava em criar uma marca de roupa, mas não me lembro disso assim tão nitidamente. Sei que no fim de contas, quando realmente comecei a desenvolver o projecto, foi pela vontade de ser independente e a vontade de criar algo único e verdadeiramente ligado à criatividade.

Qual é a história por trás do nome?

O nome da marca foi inspirado na personagem de um filme inglês, interpretada por uma atriz lindíssima, com uma pose muito seráfica. Por causa da sua familiaridade morfológica, o nome transmitiu-me um senso de identidade. Na altura, o Facebook tinha acabado de aparecer e eu assumi o mesmo como meu o nome de perfil e, anos mais tarde, veio a tornar-se no meu heterónimo, nome da minha inner-persona artística. Martine Love é a criadora que há em mim.

O que foi mais complicado no processo de criar uma marca?

Tudo! Não foi um processo fácil e muito menos rápido. A ideia começou a germinar na minha cabeça por volta do ano 2010, onde ficou a marinar uns três anos. Só em 2013 é que comecei realmente a pesquisar e, até 2017, passei por todo um processo solitário de pôr a ideia no papel, encontrar parceiros (que não foi logo à primeira), construir os primeiros protótipos para os pôr totalmente de lado (por duas vezes) e voltar a fazer novos.

Penso que estes primeiros sete anos foram a fase mais difícil, pois pode ser bastante intimidante inventar seja o que for sem se saber muito sobre o assunto. Mas foram ao mesmo tempo anos de muito crescimento pessoal e profissional.

Depois disso. a implementação do negócio já foi um processo mais partilhado, o que também é por vezes difícil e exasperante, mas é muito motivador trabalhar em equipa e ver o negócio a tomar forma.

Hoje, posso dizer com toda a certeza que se soubesse que ia levar dez anos a criar as bases da Martine Love, não teria acreditado…. mas é mesmo assim. Aquilo que vale a pena leva o seu tempo. Este projeto não é um brincadeira, nem um part-time. Tem ambições suficientes para se levar muito a sério e uma década de compromisso e sacrifício tem muitos momentos complicados.

Qual foi a razão para nunca desistires?

Em 2017, mesmo antes de lançar os primeiros 60 vestidos, tinha acabado de me despedir e tinha uma amiga que estava na mesma situação que eu. As duas com os negócios prestes a serem lançados.

Num dia de muito medo, liguei-lhe e disse: «O que é que eu estou a fazer à minha vida? Isto é tão difícil, dá tanto trabalho e às vezes duvido que vá dar certo. Acho que vou desistir». E essa minha amiga, que conhecia e sentia esse mesmo medo, quase que me dizia: «Eu percebo-te tão bem, realmente se calhar é melhor desistir. Não tem mal desistir». E eu fiquei calada a pensar naquilo que estava a ouvir e a perguntar-me: «Mas será que sou menina para desistir?». E, sem qualquer hesitação, respondi: «Agora que tenho 60 vestidos feitos, prontos para vender é que vou desistir? Vou morrer na praia?» e desatamos as duas a rir, com aquela cumplicidade de que, medos à parte, ambas sabíamos bem que o caminho era para a frente.

Apesar de um projeto destes exigir muito sacrifício, foco e determinação, sempre senti que estava no caminho certo para ser uma pessoa mais inteira, mais realizada e mais feliz. A procura daquilo que nos move é uma viagem sem a qual não me teria tornado na pessoa que sou. Não desisto porque não faz parte de mim desistir. Mas são os clientes, as vendas. No final de contas, é mesmo o único indicador que te permite não desistir.

Qual foi o melhor momento ou história da marca até hoje?

Foi, em 2017, uma conversa importantíssima com o grande Manuel Alves, antes dos primeiros 60 protótipos serem bordados pela primeira vez. Tinha os vestidos já feitos, sabia que os queria bordar, mas, como não tinha qualquer formação de artes, estava super insegura, a achar que estava a nadar para fora de pé. Não sabia muito bem como iria aplicar o bordado. Sabia que queria modernizar a aplicação do mesmo, mas não sabia muito bem como é que na prática o iria fazer.

Encontrei o Manuel na rua a tomar o pequeno almoço, sentei-me com ele e contei-lhe que estava nesta angústia, pois tinha a certeza que tinha uma boa ideia, mas estava completamente bloqueada. O Manuel perguntou-me logo: «Sabes que fui professor de faculdade?». O que eu achei interessantíssimo, porque adoro um bom professor. E era mesmo disso que eu estava precisar. De um empurrão. Dos conselhos de uma pessoa com mais experiência que eu e que me transmitisse a confiança necessária para avançar sem medos.

Como é que a tua marca faz a diferença?

A unicidade, a elegância e a nossa linguagem são, sem sombra de dúvida, fatores diferenciadores. A marca tem um ADN muito próprio. E a nossa especialização no bordado português e no linho são a nossa razão de existir. Além disso, trabalhamos com mais 30 cores em cinco composições distintas e com mais de não sei quantas combinações possíveis. A não ser que sejam posteriormente encomendadas, as nossas reproduções são muito limitadas.

Finalmente, penso que as nossas personalizações fazem as delícias de muitas clientes. Este tipo de produto é muito especial e pode acompanhar a história de uma mulher ou das mulheres de uma família.

O que ainda falta conquistar?

Quero muito continuar a minha auto-formação. Tenho imensa vontade de saber mais e especializar-me neste mundo dos bordados portugueses. Quero desenvolver novos produtos e ideias. Tenho uma imaginação super fértil e nem eu própria às vezes consigo acompanhar o seu ritmo. Mas tenho muita falta de tempo. Costumo dizer que acumulo funções de pelo menos cinco pessoas. O que mais quero é poder adicionar novos membros à nossa pequeníssima equipa. Mas isso faz-se fazendo. Não gosto de precipitar-me e crescimento para mim tem de ser sustentado e gradual.

Penso que em Portugal há uma oportunidade enorme para algum «pioneirismo» na indústria da moda. Somos um país produtor para várias marcas internacionais e globais, porém são poucas as marcas portuguesas que atingem esse patamar de reconhecimento e vendas.

Obviamente, falta-nos conquistar e internacionalizar a marca. Tornarmos-nos na primeira marca de luxo portuguesa reconhecida mundialmente.

O que mais precisas neste momento para chegares onde queres?

Tempo, paciência e recursos humanos. Somos uma marca de luxo, temos um produto que tem uma produção limitada e tem um preço elevado por isso cada venda é um momento de grande satisfação.

A cada semana que vai passando e as vendas se mantêm ou aumentam é um sinal de que a marca pode continuar a servir o seu propósito de maneira sustentável.

Há dias em que olho para trás e penso em tudo aquilo que já passou e fico orgulhosa e muito feliz por poder continuar a fazer crescer este sonho e a envolver cada vez mais pessoas nele.

Quais os maiores motivos para comprar português?

Em 2019, no segundo verão da marca, consegui distribuir a marca pelos principais hotéis de luxo em Portugal. Foi um grande objetivo cumprido e deu muitos frutos. É tão bom receber emails de clientes que compraram vestidos nestes pontos de venda a dizer que adoram a marca e que gostariam de comprar mais uma peça.

Acho que o que motiva estrangeiros a comprarem localmente é o fazer parte da experiência da viagem que estão a fazer e poderem conhecer um pouco mais do país que estão a visitar.

Para um português, comprar português penso que o que os motiva. Primeiro, é o identificarem-se com a marca e a marca ter um bom produto, que veste bem e os faz sentir bem. Segundo, é quererem comprar localmente e apoiar a produção nacional.

Diz-me outra marca/espaço português que te inspire e porquê?

A LA PAZ é a primeira grande marca portuguesa a atingir um patamar internacional que muito admiro.  Adoro ver homens vestidos de LA PAZ. Além disso têm um ADN/linguagem que é deles. Sempre coerente. As lojas deles no Porto e Lisboa são lindas e são obrigatórias para qualquer visitante nestas cidades. O André e o Zé Miguel sabem muito bem o que estão a fazer.

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#ELLEstaylocal

Apoiar e dar conhecer projetos portugueses é a missão da rubrica #ELLEstaylocal. Acreditamos que hoje é mais importante, que nunca, comprar português. É importante não deixar que marcas de qualidade se percam na espuma da pandemia.

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