Maria Grazia, a Mulher Que Mudou a Christian Dior Para Sempre

Maria Grazia Chiuri é a italiana, inteligente e sem papas na língua, à frente da Christian Dior. Por: Kenya Hunt -- Imagens: Marcin Kempski.

Na altura desta entrevista, as temperaturas batem recordes (42,6°C). Nas ruas, as pessoas estão rabugentas e suadas. Todas, menos Maria Grazia Chiuri. Em vez disso, ela está sobrenaturalmente calma numa biblioteca vagamente iluminada nos arquivos da Christian Dior, na Rue de Marignan, num canto de Paris. O ar condicionado está a uma temperatura perfeita, enquanto uma vela Cire Trudon queima ao seu lado.

Chiuri é a mulher que se ri por último. Enquanto nos sentamos para falar sobre as suas mais recentes coleções para a Dior – a sublime linha de Couture FW19, que explora a relevância do vestuário feminino, e a Cruise 2020, dedicada ao multiculturalismo –, ela delicia-se com os resultados das vendas. Os dados apresentados um dia antes de nos encontrarmos, na sua última semana de trabalho antes de ir de férias, mostram um crescimento nas vendas «excecional». No entanto, nem sempre foi assim. «Quando cheguei à Dior, diziam: “Oh, a Dior é uma marca feminina.” E eu respondi: “OK, mas eu preciso é de falar sobre a feminilidade dos dias de hoje.” A feminilidade é multifacetada», explica ela com o seu sotaque romano.

Maria Grazia Chiuri e a política na Moda

A estreia de Chiuri foi feita com uma t-shirt que declarava “Todos Devemos Ser Feministas”. A frase, que foi tirada do discurso de Chimamanda Ngozi Adichie, foi difícil de engolir. Primeiro, houve o problema de ser uma t-shirt (porque, Couture!) e depois, houve um problema com o ativismo. Moda comercial e feminismo são mundos diferentes, que nunca devem cruzar-se. Afinal, quem lhe deu esse direito?

Chiuri, sorridente e simpática, com uma rara mistura de autoridade e humildade, diz que ficou surpreendida, mas inabalável. Garante que não chegou à Dior com um plano premeditado, mas que estava a responder ao período que se atravessava. Até porque, para Chiuri, a moda nunca é apenas sobre roupa. «As pessoas disseram-me logo: “Tu és uma designer ativamente política.” E eu disse: “Eu acho que toda a gente é ativamente política.” Ser ativamente político significa que pensamos no que compramos, e no que desejamos. Todos temos um ponto de vista que é político. Porque é que um designer não deveria tê-lo também?»

Enquanto muitos dizem que é impossível para uma marca comercial envolver-se com o ativismo sem o explorar para obter lucro, outros afirmam que não é realista esperar que um artista seja criativo dentro de uma bolha. A pintora nova-iorquina Mickalene Thomas, uma das maiores estrelas do mundo da arte contemporânea, chama a Chiuri «feminista e revolucionária». Famosa por confrontar identidade e género no seu próprio trabalho, colaborou com Chiuri na coleção Cruise 2020 da Dior. «Os artistas sempre defenderam mudanças, provocações e comentários sociopolíticos. Os artistas são disruptivos», diz Thomas, que descreve o processo de design como instintivo.

«Eu acho que temos de transpor o que sentimos. E um designer explora o modo de vida das pessoas. Então, para criar, acho que precisamos de refletir sobre estes aspetos», explica Chiuri, com um aceno da mão que está adornada com grandes anéis de estilo gótico.

Maria Grazia, a mulher

Aos 55 anos, Chiuri exala a confiança e a curiosidade de uma mulher que viveu uma vida em grande. A indústria da moda está cheia de histórias de jovens que se transformam em fenómenos do design, apenas alguns anos após terem terminado o curso na escola de moda. Mas Chiuri não, ela é uma mulher que trabalhou durante décadas. Antes de ingressar na Dior, passou 17 anos na Valentino, subindo na hierarquia de designer de acessórios a diretora cocriativa (função que manteve durante oito anos com seu amigo de longa data Pierpaolo Piccioli). Os dois conheceram-se na década de 80, quando Chiuri se formou no Istituto Europeo di Design (IED) em Roma, onde nasceu e cresceu. Ela recrutou-o para trabalhar ao seu lado no estúdio de design de acessórios da Fendi, antes de o convencer a juntar-se-lhe na Valentino, onde revitalizaram a marca com uma série de carteiras e sapatos dignos da lista de espera.

A conversa continua. Ela fala sobre como as viagens, os livros, os colaboradores criativos e os dois filhos, Rachele e Nicolo Regini, abriram a sua mente para novas formas de pensar. E esta ideia de evolução pessoal surge frequentemente na nossa conversa – e pode ser rastreada – ao longo do trabalho de Chiuri. «Eu sou uma mulher diferente, mas o tempo também é diferente», diz ela. Estamos rodeadas pelos trabalhos dos ilustres diretores criativos da casa. Todos homens. Incluindo o fundador, Monsieur Dior, bem como os titãs que se seguiram: Yves Saint Laurent, John Galliano, Raf Simons, entre outros. No meio da biblioteca, cada época é representada por um livro encadernado que fica num pedestal.

A Mulher ao leme

A indústria mudou, consideravelmente, desde a época em que a moda servia como um catalisador de beleza e escapismo – com muito tule bordado e cinturas marcadas. Para começar, muitas das Maisons francesas são agora lideradas por mulheres (além de Chiuri, a primeira diretora criativa na história da Dior, há Virginie Viard no comando da Chanel, Clare Waight Keller na Givenchy e Natacha Ramsay-Levi na Chloé). E, depois, a moda evoluiu para um lugar onde a roupa é muito mais fácil de vestir, feita para acomodar a vida multifacetada das mulheres.

«Antes, a Dior gostava de definir a sua mulher, mas essa não é a minha forma de ver as coisas», diz Chiuri. «As mulheres definem-se como quiserem. Para mim, vestir é uma maneira de ser livre, e não de impor um look a alguém.» Por isso, as botas e os saltos que desenha têm uma altura razoável, por exemplo. E os seus vestidos, saias e calças geralmente têm formas que dão liberdade de movimento às pernas. «Quando chegas a uma casa que tem uma longa tradição como a Dior, o maior risco é ter medo de se afastar desses costumes. Mas as mulheres são diferentes agora. Eu sei que o Sr. Dior fez um casaco muito bem ajustado, mas agora o nosso estilo de vida é diferente. Temos de fazer um modelo que mantenha essa linha Dior, mas ao mesmo tempo seja mais vestível. E acho que isso provavelmente faz a diferença: ter uma abordagem em que se reconhece a história e se aprecie isso, mas não faça do guarda-roupa uma peça de museu», diz ela.

A outra grande mudança que aconteceu na Dior foi a do significado da moda. O vestuário agora está carregado de subtexto cultural e político. Então, Chiuri dobrou na dose de feminismo, comemorando a ideia da mulher independente e de pensamento livre, de uma estação para a outra. E grande parte da indústria da moda seguiu o exemplo, com marcas de luxo e de mass market a usarem as suas campanhas para fazerem declarações sobre tudo, desde ambientalismo a violência causada por armas.

Tanto o ativismo como a sustentabilidade e a diversidade logo se tornaram chavões. Mas Chiuri resistiu às insinuações de que esta mudança era apenas por uma questão de tendência. Para a sua coleção Cruise 2020, escolheu celebrar a qualidade do artesanato presente em toda a diáspora africana, numa época em que o populismo domina as manchetes globais. Mostrada em Marraquexe, na passerelle estava um elenco diversificado de modelos vestidos com reinterpretações das assinaturas da Dior, como seu icónico toile de jouy feito em tecido tradicional com estampa de cera. «Foi um projeto em que realmente tentámos encontrar um espaço em comum. Porque em moda não falamos de roupa. Falamos de identidade, de género, de apropriação cultural, de ambiente. O público com cerca de 20 anos olha para o mundo da moda com uma perspetiva completamente diferente», diz ela. «Quando eu era jovem, não havia muitas lojas de roupa, então cresci com esse desejo de ter algo novo. Mas a moda agora, para a geração mais nova, é completamente diferente porque eles nasceram num mundo onde a moda está em todo o lado.»

Chiuri diz que a coleção também foi sobre incluir África no universo do luxo. «Existe a ideia de que tudo o que vem de África não é caro – que a moda é mais surpreendente na Europa. Mas não é verdade.» Para a ajudar, ela convidou uma série de artistas internacionais e artesãos locais para contribuírem com elementos da coleção, incluindo Mickalene Thomas, e a designer britânica Grace Wales Bonner, que reinventaram o famoso New Look da casa. Ela também contratou o designer Pathé’O, da Costa do Marfim, conhecido por fazer as camisas de Nelson Mandela. E, em vez de evitar qualquer acusação de apropriação cultural, Chiuri abordou o assunto de frente num vídeo com a modelo nigeriano-americana Adesuwa Aighewi. «Acho que são coisas como estas que fazem a conversa começar. Porque estamos a criar uma ponte», disse Aighewi. E, ao contrário da sua estreia em 2016, a mensagem de Chiuri não atraiu críticas.
A moda tem destas coisas: tal como a vida, ela segue em frente. E por isso, com um sorriso e um abraço, Chiuri levanta-se e sai para o calor, com o sol a bater-lhe nas costas e um leve sorriso nos lábios.

 

Styling: Felicity Kay

Maquilhagem: Tiina Roivainen/Airport Agency

Cabelo: André Cuento Saavedra/ Upen Talent Paris

Modelo: Palmyre Tramini/Women Management Paris

Produção: SaraNoël

Assistente de moda: Charlotte Harney

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na revista de janeiro de 2020 da ELLE Portugal.