Luisa Beirão, a Modelo Portuguesa Que o Mundo da Moda Não Esquece

«A primeira decisão que eu tive que tomar e que me custou foi deixar de desfilar» Por: Vítor Rodrigues Machado Imagens: © Luís Silva Campos.

Arrumaram-se as roupas, as câmaras, a maquilhagem e todos os instrumentos aparatosos que haviam sido montados, e de repente um súbito e relaxante silêncio inundou o espaço. De jeans e t-shirt, sentou-se no sofá, deu um golo na garrafa de água que tinha consigo e, no seu característico tom de voz suave e tranquilo, Luísa Beirão levou-me consigo numa viagem até às suas primeiras memórias. «Lembro-me perfeitamente de crescer de uma forma livre durante os fins de semana, lembro-me do ar puro», começa por contar recordando os momentos passados na casa dos avós, numa aldeia em Sever do Vouga. «Se fechar os olhos é o ar puro, o cheiro a eucalipto e a terra que me vem à cabeça (…) a minha verdadeira essência é no campo. Aquela sensação de liberdade e o facto de andar descalça na terra foi uma coisa que se foi enraizando em mim desde muito pequena».

A descrição e a forma como fala é tão clara e intensa que até eu consigo sentir os aromas de que fala. É evidente que existe uma forte ligação entre a ex-modelo e aquele sítio, por isso pergunto se ainda lá vai muitas vezes. «Não», responde de forma clara e emotiva, desde que perdeu os avós nunca mais lá voltou. No entanto, enquanto foi possível, fez sempre questão de lá ir e levar os filhos consigo.

Voltamos outra vez atrás no tempo. Eu sabia que, quando ela era pequena, com 5/6 anos, acreditava que seria cabeleireira ou enfermeira, e por isso questiono-a sobre essas vocações. Responde-me com um ligeiro sorriso, dizendo que tudo fazia parte de uma vontade cuidar, mas que a primeira lhe passou rápido  e a segunda acabou por se esbater. «No dia em que fiz 10 anos, caí de bicicleta e magoei-me à séria, aliás tenho uma cicatriz ainda desse dia. Sangrei imenso do joelho e não fomos ao hospital nesse dia, fomos no dia a seguir e o médico disse que eu tinha que levar pontos e de repente tudo mudou. Pensei: “Se eu não consigo fazer isto a mim própria, assistir, não vou conseguir fazer aos outros”».

Existe de facto uma grande diferença entre ser cabeleireira/enfermeira e ser modelo. Quis saber de onde e como surgiu esta vontade. «Passei uma altura de muita indefinição, como acontece com todos os adolescentes, que chegam a uma determinada altura em que têm que optar por uma área e eu estava muito confusa» diz. Na altura Luísa tinha acabado de se mudar de Amarante para o Porto novamente (após uma estadia de 5 anos por lá) e durante o período das férias «eu estava a passear pelo Porto e vi uns cartazes que hoje em dia não se usa, e até tenho vergonha de dizer isto, mas na altura era para promover cursos de modelo – que hoje já não existem – e eu pensei que, se calhar, era uma coisa gira para as férias do ano seguinte, para fazer durante dois ou três meses». 

Todos sabemos que hoje em dia (devido a todos os esquemas) estes cursos são tudo menos bem vistos, mas ela acabou por ter sorte. Mesmo que encarasse tudo aquilo como um passatempo, foi ali que a sua estrela brilhou. No final dos três meses, e após a apresentação final «O Tó e a Mi [Romano] vieram falar comigo (na altura tinha 15, ia fazer 16 anos passado uma semana ou duas) e mostraram muito interesse, queriam que eu fosse modelo da Central. Eu nem sabia o que era uma agência de modelos, eu achava que com aquilo que tinha feito já estava numa agência de modelos».

Na altura teve que deixar os estudos (aos quais regressou passado três anos), mas a sua carreira como modelo começou a descolar e nem o facto de ser do Porto (obrigando-a a fazer viagens de carro constantes) a travou. «Era a única modelo das minhas colegas que trabalhava todos os dias, e não era só por uma questão de disponibilidade. Os clientes marcavam-me todos os dias e comecei a perceber que tinha que aproveitar aquilo. Eu gostava do desafio (…) era-me indiferente se as pessoas diziam que eu estava bonita ou feia. O objetivo final era que o trabalho corresse bem, que o editorial ficasse espetacular, que as fotografias ficassem incríveis e que depois isso se refletisse em vendas. E era isso que acontecia. Por isso é que eu era constantemente chamada. Tanto que o tempo que eu tinha livre era praticamente o de chegar a casa, ao hotel ou ao avião e descansar, para no dia a seguir já estar a trabalhar.»

Mesmo com uma agenda bastante preenchida, quando tinha apenas 19 anos, decidiu abraçar um novo projeto: as Antilook. Esta girls band formada pelas modelos Rute Marques, Luísa Beirão, Evelina Pereira, Raquel Loureiro e Vera Deus, nasce no final dos anos 90 durante a Exponor, por parte de um dos responsáveis pela produção do evento: «Um dia nós estávamos a almoçar e o Nuno Eusébio disse “Giro, giro era nós criarmos uma girls band”. Claro que nós “Ah ah ah, que giro, isso era espetacular, incrível” e aquilo deve ter soado bem na cabeça dele e passado uns dias ele orquestrou tudo (…). No espaço de 15 dias havia um contrato com a Sony Music.»

O grupo teve algum sucesso apresentando-se em programas como o BigShow Sic, em 1998, mas pouco tempo após se ter unido desfez-se e Beirão deu continuidade à sua carreira. 

Esta pequena fase em nada atrapalhou os seus planos. A vida de modelo continuou com Luísa a arrecadar sucesso atrás de sucesso e, quando tinha apenas 25 anos, decidiu que tinha chegado a hora de se retirar: «A primeira decisão que eu tive que tomar e que me custou foi deixar de desfilar na Moda Lisboa, no Portugal Fashion e em todos os outros desfiles», recorda com pesar .«Quando comecei a trabalhar (mas principalmente a desfilar), eu apanhei a geração anterior, da Xana Nunes, da Sofia Aparício… e eu lembro-me de nós estarmos nos bastidores e de perceber que se notava a diferença entre nós mais novas e elas mais velhas, e na altura não achava isso bonito. Lembro-me de pensar “Eu não quero que isto aconteça comigo, quero ser eu a ter essa noção e deixar de fazer isto primeiro”. E então chegou ali aos 25 anos e disse: “Está na hora”. Entretanto também já estavam a começar a chegar outras miúdas que em termos de imagem eram diferentes das da minha geração, eram muito mais magras, e eu sou muito mais latina».

À luz da época, consigo perceber a sua decisão, afinal de contas, havia de facto esta ideia de que as modelos tinha uma prazo de validade que expirava bem cedo. E no caso de Luísa, como a própria me referiu, por ter a sua imagem tão aberta ao escrutínio, esta decisão acabou por se tornar numa espécie de método de autopreservação. Claro que não foi uma decisão fácil, «quando voltei à Moda Lisboa como convidada para assistir aos desfiles, lembro-me de pensar “quem me dera estar ali” (…) tinha aquelas ideias malucas de, “então e se agora me levantar e [começar a desfilar]”». Mas, mesmo assim, nunca se arrependeu da escolha tomada.

Luísa teve tudo aquilo que se pode desejar: trabalhou com diversas marcas, fotografou para muitas publicações e desfilou para múltiplas marcas, dentro e fora do país… Enfim, um currículo invejável que a fez viajar pelos quatro continentes, e que só não a levou, possivelmente, a uma carreira mais intensa lá fora por  não querer estar mais afastada de todos que amava do que já estava. «Comecei a sentir-me sozinha, comecei a sentir que estava a perder muita coisa (…)estive cinco anos a trabalhar todos os dias. Só parava no Natal. Nem a Páscoa passava com os meus pais e avós. Eu chegava a 24 de dezembro a Lisboa ou ao Porto e ia direta para casa dos meus avós para passar o Natal. E entre o dia 27 e o dia 30 ainda tinha um trabalho em Lisboa ou noutro sítio qualquer» relembra.

A mulher forte que hoje está sentada diante mim, e que só deixa que se aproxime de si quem ela quer, desde que abandonou a profissão optou por dedicar grande parte do seu tempo a outro trabalho ainda mais importante para si: ser mãe.

Ao falar sobre os filhos, emociona-se. Nota-se que é uma “mãe babada” e que tenta transmitir aos seus descendentes tudo aquilo que aprendeu ao longo da vida – como o sentido de individualidade, o de valor próprio, o da liberdade… «São miúdos muito educados, não é por serem meus filhos, e toda a gente diz a mesma coisa não é?! Mas são muito educados, têm uma perspetiva de vida que muito poucas crianças têm e isso é uma coisa que me dá imenso prazer e me faz sorrir e chorar, porque é o reconhecimento de que, apesar das muitas adversidades que passei, eles conseguiram ser e são super fortes».

Mas desengane-se se pensa que a ex-modelo, ao deixar esta indústria deixou de estar atenta ao que se passa nela. «Acho ótimo esta variedade, acho ótimo esta diversidade. O que me custa mais assistir é à questão de ser tudo mais volátil, mais descartável», diz referindo-se às mudanças dos último ano.

Atualmente, Luísa conta com mais de 47 mil seguidores nas redes sociais, e é lá que partilha os seus looks e trabalhos que faz com as marcas que escolhe a dedo, como é o caso da Falconeri.

A marca especializada em peças em caxemira, que só há dois anos chegou a Portugal, é uma daquelas com as quais Beirão colabora regularmente, e por isso, pergunto como tudo começou. «Percebi que, como era uma marca nova cá, precisava de um input, de pessoas, e pensei: “É mais um desafio” (…) Pronto e aceitei e tive também o privilégio de ir até Verona assistir ao desfile, ver a fábrica, conhecer a forma como são feitas as peças e todo o cuidado que existe em todo o processo». Confessa que adora caxemira. «Este hoodie, por exemplo, com o capuz, é uma peça confortável» diz, referindo-se à que usou na produção, «seja para estar em casa, para ir buscar os miúdos ao colégio, para sair. É versátil. Podes pôr uma saia ou um vestido de seda por baixo e resulta. Eu acho que quando uma peça é boa, quando tem qualidade, é muito fácil de usares e abusares dela. E é o caso das peças Falconeri». Mas que outras peças da marca são indispensáveis para si? «O trench», começa por dizer, «é um modelo eterno. Eu olho para a peça e consigo ver a minha filha daqui a cinco anos com ele, é super leve, prático e elegante. E também adoro as camisolas, as tradicionais camisolas de caxemira.»

Terminamos por aqui. Após a última pergunta despedimo-nos. Não sei ao certo quando é que a vou voltar a encontrar novamente, mas é garantido que tornará a acontecer. Até porque, por muito que Luísa Beirão se queira afastar do mundo da moda, o mundo da moda não se quer afastar dela.