Luís Carvalho Sempre Soube Que O Seu Caminho Passava Pela Moda

Através do seu trabalho, o designer conseguiu tornar-se num dos nomes mais incontornáveis da Moda nacional. Por: Vítor Rodrigues Machado Imagens: © ModaLisboa Ugo Camera - Rui Vasco

Se este fosse um dia igual a tantos outros (pelo menos os do passado), muito provavelmente estaria sentado frente a frente com Luís Carvalho, pronto para o bombardear com milhares de perguntas. Mas não é. E por isso, o cenário muda: eu estou num escritório improvisado na casa dos meus pais, a tentar encontrar uma canto onde a rede não falhe – quem disse que passar uma temporada numa casa de campo teria só coisas boas? –, e o designer no seu atelier em Vizela. Depois de uma mini luta por um pouco de rede, sento-me de telemóvel na mão, e toco no ecrã para começar a chamada. Não foi preciso ouvir muitos daqueles clássicos bips de chamada telefónica, até que do outro lado alguém respondeu: «Estou?!».

Once upon a time

Depois de um comum «Olá, tudo bem?» o designer de 33 anos, que ainda hoje vive na sua cidade natal de Vizela, começa a contar-me como desde de criança sempre soube que o seu futuro passaria pelo mundo da Moda – mesmo tendo passado por uma fase em que o gosto pela arquitetura tenha florescido quando fazia plantas de casas, com detalhes de como colocaria a mobília. «Desde pequenino que sempre quis ser designer. Claro que, no início, talvez não pensasse muito sobre isso, mas houve uma coisa que se calhar me influenciou que foi o facto da minha mãe ter tido uma empresa têxtil durante muitos anos. Todos os meus verões eram passados lá junto dela. Isto é, sempre que a minha mãe tinha que ficar comigo, eu ficava lá na confeção dela e acabava por passar os meus dias ali, a brincar com aquilo que tinha à mão, que no caso eram as sobras de tecidos».

Fico sempre impressionado (no bom sentido) quando oiço alguém dizer que, desde muito jovem ,já tinha algum tipo de noção do caminho que a sua vida levaria. Muito porque acaba por nos orientar melhor no nosso rumo. E no caso de Luís Carvalho, foi precisamente dessa forma que o trilho do seu destino foi iniciado: depois de terminar a escolaridade obrigatória, decidiu trocar o secundário por um curso profissional de moda no CENATEX, em Guimarães, e posteriormente a isso, para cimentar melhor os seus conhecimentos, optou por entrar na Escola Superior de Artes Aplicadas, em Castelo Branco, para se licenciar em Design de Moda e Têxtil.

Foi aqui que teve a oportunidade de crescer e beber do conhecimento de alguns dos nomes mais reconhecidos da indústria nacional: Alexandra Moura, que foi sua professora, e de quem se recorda com ternura através de um «eu amava a aula dela, ficava sempre encantado, e tinha sempre vontade de lhe fazer perguntas sobre as coisas, até porque eu já sabia que queria fazer um percurso igual ao dela». E também Filipe Faísca, com quem estagiou durante oito meses, um designer que reconhece ter marcado profundamente o seu percurso: «Adorei conhecer e acompanhar de perto o trabalho dele, o seu processo criativo, adoro-o como pessoa, e aprendi imenso com ele. Muito do que tirei dessa experiência usei para abrir o meu próprio negócio».

Mas estes não foram os únicos nomes com quem teve oportunidade de trabalhar. Assim que terminou o curso, conseguiu um estágio com Ricardo Preto que, na altura, também fazia styling e vitrinismo «e que acabou por ser um bom complemento na minha aprendizagem», e após este, geriu ainda a antiga loja de Miguel Vieira, em Lisboa.

Estas experiências, fizeram com que a capital se tornasse na sua nova casa durante algum tempo, mas a bobina que até então lhe tinha cosido a vida estava prestes a ficar sem linha – ou se preferir a mudar de cor –, quando recebeu uma proposta de trabalho que o faria regressar ao norte do país, na Salsa. «Custou um bocado na altura, porque preferia viver em Lisboa e trabalhar mais na parte de atelier (que como todos sabemos é um bocado mais difícil). Mas ali tinha uma oportunidade boa de crescer numa empresa grande, numa área completamente diferente». Como o próprio diz, foi uma passagem importante para o seu currículo «aprendes a trabalhar numa empresa, com fornecedores, com dimensões completamente diferentes, com gestão dos preços e dos timings, ou seja, ficas a par do processo completo».

We see you

Em 2013, e depois de dois anos e meio naquela empresa, o designer (na altura com 26 anos) sentiu que estava na hora de mudar, e dar o passo final que o faria concretizar o tão aguardado sonho que mantinha de lançar a sua própria marca. Depois de falar com os pais, e ter contado com o apoio deles, «porque passas de ter um ordenado ao final do mês para uma coisa que não sabes se vai correr bem ou não» sentiu-se pronto. «Como já tinha o background todo de empresa e atelier, e tinha um espaço físico disponível (e mesmo a nível de contactos já tinha trabalhado na produção da ModaLisboa, ou seja já sabia como é que as coisas todas aconteciam) senti que tinha chegado a hora».

 

«Temos mais obstáculos. É mais difícil vendermos as nossas peças, porque as pessoas têm dificuldade em ver valor.»

 

 

Luís Carvalho

Todos os passos foram muito bem pensados, e nada foi deixado ao acaso. Pegou em todos os ensinamentos que tinha guardado. «Comecei por lançar uma coleção cápsula, para que as pessoas começassem a associar a marca a um estilo de roupa». Como o plafond não era grande, a maioria das responsabilidades (ou todas mesmo) acabaram por recair nele: «desenhei a coleção, desenvolvi os moldes, confecionei, fiz o lookbook (com a ajuda do meu amigo João Pombeiro), tratei das redes sociais e do site… até porque eu sabia que não bastava ter a coleção, era preciso também comunicá-la». E foi precisamente isso que fez. Com esta coleção conseguiu entrar na ModaLisboa, na plataforma LAB, onde mostrou  a sua primeira coleção de SS14 «construída com muito nervosismo à mistura, porque sabia que tinha de criar algo muito bom para fazer as pessoas falarem sobre a marca».

Como é óbvio, o feedback final foi positivo, e desde então que, estação após estação, tem vindo a dar novas cartas no mundo da Moda portuguesa. Mas o caminho não é fácil. Como sabemos, e o próprio diz, este processo de afirmação «é mais desafiante, porque temos mais obstáculos. É mais difícil vendermos as nossas peças, porque as pessoas têm dificuldade em ver valor».

É verdade que este é daquele tipo de coisas que nos desencoraja (até porque são poucas as pessoas que gostam de sentir que estão a nadar contra a corrente), mas no caso de Luís Carvalho, nada fez com que baixasse a agulha. Bem pelo contrário. Abraçando o desafio de peito aberto, e já sabendo de todas as contingências que o mercado nacional teria, olhou com perspicácia ao seu redor e tentou perceber de que forma poderia projetar mais a sua marca. E claro, que o star system nacional foi uma delas: «Desde o início que isso ajudou a projetar a marca. Aliás, esse foi sempre um objetivo meu: encontrar as pessoas certas, para que conseguisse projetar melhor o meu nome. Isso foi essencial desde o início, e construir a minha imagem também nessa vertente».

De todas as celebridades que já tiveram o prazer de usar uma peça de Luís Carvalho em grandes eventos, Inês Castel- Branco e Conan Osíris são os primeiros que automaticamente me passam pela cabeça. A primeira, com aquele vestido longo, digno de um conto de fadas, com que desfilou pela passadeira vermelha dos Globos de Ouro em 2018 (construído através de uma partilha de ideias entre os dois) e que acabou por ganhar um grande destaque em várias galerias de imagens da cerimónia. E o segundo, com o fato verde (que foi alvo de tantos comentários na altura) que usou para cantar e representar Portugal no Festival da Eurovisão, em 2019.

Luís Carvalho

Imagem de campanha de outono-inverno 2017/18.

A causa certa

Se existia assunto sobre o qual não queria mesmo que acontecesse aquele «bolas, havia aquela cena que lhe queria perguntar e não perguntei», era o da t-shirt que lançou em 2019, com Tânia Diospirro, para apoiar a Liga Portuguesa Contra o Cancro. Por isso, aproveitando o balanço do tema das parcerias/colaborações lanço a pergunta. «Tudo começou quando eu estava a fazer scroll pelo Instagram e passo por uma publicação feita pela Tânia Diospirro (que é minha amiga). Na altura vi a imagem, achei-a gira, pus um “gosto”, e depois reparei que tinha um grande texto na legenda onde ela abertamente assumia que tinha um cancro da mama» começa por me dizer. «Lembro-me que na altura fiquei super comovido com isso. Era a primeira vez que tinha alguém próximo que tinha essa doença… Acabei por lhe ligar, e depois disse-lhe que tinha tido uma ideia, e que queria fazer uma t-shirt com uma mensagem (porque eu não queria fazer uma t-shirt que tu compras só para ajudar, queria que fosse algo para usar no dia a dia), que era uma brincadeira mas ao mesmo tempo sério com aquele trocadilho. E pronto, ela gostou da ideia (…) e correu super bem. Ainda tenho pessoas a perguntar-me se continuo a ter a t-shirt (que entretanto já deixei de produzir porque já fiz a doação e o objetivo era mesmo ajudar a causa, e felizmente acabou por ser um projeto bem sucedido)».

É certo que a primeira grande recompensa do sucesso desta peça (que esgotou em apenas três dias) foi o facto de poder doar 85% do valor das vendas à instituição. Mas para além dessa, houve também outra: «as mensagens que recebi de pessoas que tiveram cancro, e que ficaram sensibilizadas com a campanha (até mesmo a própria Tânia).»

 

«Todos os projetos foram adiados ou cancelados, ou seja, percebi que a altura de maior faturação da marca não ia acontecer.»

 

 

Desafio atual

A Covid-19 obrigando-nos a adaptar a uma nova realidade, mudando por completo a forma como socializamos, como nos comportamos diariamente, e claro está, como consumimos. Numa indústria como a da Moda este embate está a fazer-se sentir com mais intensidade – por não ser um bem essencial – e, por isso, acaba por ser um tema mais sensível para quem tem neste meio a sua forma de subsistência. Ainda assim, não questionar o designer sobre o impacto que isto teve na sua vida seria impensável. Perentório e direto, com a segurança que pautou o seu discurso durante toda a nossa conversa, Luís Carvalho responde sem floreados ou embelezamentos: «Fiquei de quarentena, durante 15 dias, em Lisboa, na segunda-feira logo a seguir à ModaLisboa, e a minha primeira reação foi mandar  fechar logo a loja, sem sequer pensar muito bem no que ia acontecer. Só depois fui começando a ter noção dos possíveis impactos: casamentos vão ser adiados, casamentos vão ser cancelados, tudo que tinha em desenvolvimento de projetos adiados ou cancelados, ou seja, percebi que a altura de maior faturação da marca (que é o verão) não ia acontecer».

Luís Carvalho

Imagem de campanha de primavera-verão 2017.

É verdade é que ninguém estava preparado para enfrentar uma situação destas – bem pelo menos as pessoas que não têm um bunker construído no quintal de casa – e por isso, uma restruturação foi necessária por parte do designer: «A seguir à ModaLisboa tive aquela pausa que costuma ser normal para mim, em que fico em casa no sofá, a comer, a ver televisão e filmes. Mas depois disso, como não gosto de passar muito tempo a procrastinar, comecei a ocupar o meu tempo a cozinhar, a limpar, a fazer exercício, e a tentar perceber como poderia começar a melhorar o meu trabalho. Vinha de vez em quando ao meu atelier trabalhar porque em casa não consigo, porque tenho distrações, e porque gosto de vir para aqui, sentar-me na minha secretária, ver os meus e-mails, ver tecidos por videochamada. (…) Comecei então a fazer as máscaras, e tenho arranjado outras pequenas produções para garantir a continuidade da marca. (…) Mas claro que há muitas pessoas que sentem que vamos passar por uma crise grave, e há muitas pessoas que estão a tentar perceber o que podem fazer e a evitar gastar dinheiro. Mas há que acreditar que tudo se consegue».

É seguro dizer que, do futuro, nada sabemos, mas depois de quase uma hora e meia de conversa, e com esta última frase a pairar sobre nós, a chamada entra na sua reta final. Antes de desligar, pergunto-lhe sobre o sonho que tem para o futuro da marca: «gostava que começasse a vender internacionalmente, e que eu conseguisse mantê-la, porque só isso já me deixa feliz». Eu, acredito que sim.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de Agosto/Setembro 2020.