Luís Carvalho e Constança Entrudo Põem Fim à Guerra dos Sexos no Vestuário

David Ferreira apresentou um chapéu para uma família inteira, mas foi Luís Carvalho quem mais aplausos mereceu Por: Margarida Brito Paes -- Imagens: © ModaLisboa | Photo: Ugo Camera

O dia começou com a desconstrução de Constança Entrudo. O primeiro desfile do terceiro dia de ModaLisboa, foi o único que se plantou à beira rio, deixando para trás o Pavilhão Carlos Lopes, onde se seguiram os desfiles de João Magalhães, Imauve, David Ferreira, Carlos Gil, Awaytomars, Kolovrat e Luís Carvalho.

E é precisamente pelo último que vamos começar, não porque o ditado o diz, mas porque Luís Carvalho merece ser o primeiro. A razão para lhe darmos honras de abertura? Uma coleção de grande qualidade, corte impecável e inovadora nas suas propostas e reinvenção dos clássicos, apesar de se manter bem longe de extravagâncias e ser bastante comercial (no bom sentido).

«Nesta coleção trabalhei as camadas porque me inspirei num artista digital, o Mathieu Bourel, que trabalha a collage e depois a edição desses trabalhos em formato digital. Tentei trazer para as peças com a construção das camadas. Temos também muito o vestuário masculino transformado para senhora, a mistura do formal e do desportivo», contou o designer à Elle após o desfile. As camadas viram-se sobretudo nas lapelas dos casacos, com uma modelagem absolutamente brilhante e que é feita pelo próprio designer. Foi este trabalho de desconstrução e sobreposição que tornou esta coleção tão especial. Mas podemos ser ainda mais específicos quanto a estes detalhes técnicos: lapela sobre lapela sem que se crie um volume feio, mangas abertas na parte frontal do ombro criando uma forma de gota, assimetrias ondulantes, mangas presunto feitas sem pregas, a lapela de um casaco cor de rosa que foi cortada em conjunto com a metade inferior do casaco e cortes império abaulados. Agora olhe de novo para a coleção com um olhar mais analítico e irá compreender que no inverno de Luís Carvalho nada é tão simples e clean como parece.

Fora estes detalhes de quem tem o olho talhado para o corte e costura, há ainda outros elementos a salientar, são eles: o uso do xadrez, não só em peças de alfaiataria, mas também em vestidos de noite, e as peças unissexo que o designer apresentou, nomeadamente o trench coat bege e de xadrez, o blazer de xadrez vermelho e bege e uma camisola de gola alta bege. Inserir cada vez mais peças sem barreiras de género nas coleções é para o designer um caminho que faz sentido já que «cada vez mais me apercebo que há mulheres que querem usar as peças de homem e vice-versa. Até mesmo nos tecidos usei as mesmas coisas para homem e senhora, que funciona muito bem».

Constança Entrudo: uma cabeça cheia de boas ideais, uma mão para aperfeiçoar

Quem também explorou a guerra dos sexos na moda foi Constança Entrudo, que se inspirou num caderno etnográfico que descobriu em 1885 no arquivo da Gulbenkien e que descreve as regras do traje português. «As regras descritas são bastante desadequadas aos dias de hoje, e o que eu fiz foi pegar nessa regras e desconstruí-las. Não podia cumprir nenhuma. Por exemplo diziam que os trajes regionais nunca deviam sair da região, e eu não acho essa ideia adaptável à realidade global de hoje, por isso, tentei trazer um bocadinho de cada traje e misturá-los todos na coleção. Também diziam que o traje feminino só deve ser usado pela mulher, também tentei desconstruir isso, por exemplo com a forma de abotoar», contou a designer à Elle.

A desconstrução não se ficou apenas pelo design, mas também chegou à forma de trabalhar os materiais, com linhas aplicadas em cima dos tecidos de forma a criar padrões. Esta é um forma de desconstrução das técnicas de tecelagem e um elemento que Constança tinha usado na sua coleção de final de curso na Central Saint Martins, em Londres. Os restos das linhas usados para a construção das peças não foram deitadas fora e foram deixadas à vista dentro de alguns puffer jackets. Uma série de ideias interessantes e um conceito forte, que explicam o sucesso de Constança Entrudo, que, apesar de ainda só ter criado duas coleções, já tem vários fãs.

No entanto, é bastante claro que apesar de Constança estar no bom caminho, e a passos largos, para se tornar um nome sonante na moda nacional, ainda lhe falta melhorar a qualidade das peças e aperfeiçoar o fitting, já que muitas delas não assentam na perfeição e para uma coleção ser perfeita qualidade e criatividade nunca podem largar as mãos. A designer tem noção disso. «O fitting é uma coisa que quero melhorar sempre, mas como as minhas peças são unissexo, por vezes é difícil adaptar», explica à Elle. Ainda assim, o balanço é bastante positivo, se pensarmos que Constança ainda agora chegou ao panorama da moda nacional e vem com uma cabeça cheia de ideias e uma estética diferente.

Um chapéu onde cabe toda a família

Foi o chapéu de acrílico que nos conquistou mas não faltaram dimensões desmesuradas por onde escolher. A mesma família numerosa que se poderia proteger do sol debaixo da enorme capelina cor de rosa de David Ferreira, também se podia esconder por baixo da saia armada do penúltimo desfile, na vertical. O exagero dos volumes já faz parte da assinatura de David Ferreira e esta coleção voltou a trazer para a passerelle o que de melhor o designer sabe fazer.

Depois de uma coleção toda negra, David regressa cheio de cores fortes, laços e flores, para dar alegria ao inverno de 2019/2020. A coleção não teve apenas um ponto de partida, tendo sido trabalhada sobretudo a partir do universo pessoal e visão estética do criador. «Quis brincar com uma estética e mostrar qual é o mundo David Ferreira, que é bastante diversificado. O ponto de partida foi a minha criatividade, esta coleção foi dedicada à minha verdadeira musa. Quem abriu o desfile foi a Monica Lafayette, uma amiga pessoal minha, e representa muito bem o que é a mulher David Ferreira», revelou o designer à Elle.

Aos casacos de pelo colorido, laços gigantes, tecidos holográficos e folhos com enchimento, juntaram-se vestidos num «acrílico especial que é possível moldar e que eu já tinha usado para fazer a máscara de Björk nos Brit Awards». O material surgiu cinco vezes mas foi quando apareceu em forma de vestido verde que mais nos recordou a coleção de primavera-verão de Olga Noronha. No entanto, David Ferreira garante que não tinha visto essa coleção passada da designer, que apresenta as suas este domingo, 10 de março na ModaLisboa, sendo apenas uma coincidência que revela um gosto estético idêntico.

«Não sabia, mas aconteceu. Mas mesmo que soubesse esta é a minha estética e teria feito na mesma os vestidos, porque era o que fazia sentido para esta coleção. Eu apesar de conhecer e admirar o trabalho dos criadores portugueses, não é algo que eu esteja sempre a ver. Mas sabendo ou não, não me ia limitar. Estamos numa era global em que há tendências em todo o lado. Toda a gente faz laços, faz peças de pelo, etc. Se um criador se fosse limitar ao que foi feito no panorama nacional e internacional, não fazia nada».

Os desfiles continuam este domingo no Pavilhão Carlos Lopes, com uma agenda recheada e que termina com as propostas de Dino Alves.