De Que Forma Um dos Maiores Grupos de Moda se Está a Tornar Mais Sustentável

Entrevistámos Marie-Claire Daveu, diretora de sustentabilidade da Kering, que detém marcas como a Gucci. Por: Katell Pouliquen -- Imagens: © Jean-François Robert e D.R.

Engenheira agrícola, com um luxuriante cabelo louro, Marie-Claire Daveu podia ter saído diretamente de uma pintura de Botticelli. Mas, o seu quadro seria o jardim do antigo hospital de Laennec, uma obra-prima arquitetónica, construída no século XVII e renovada, em 2016, pelo grupo Kering e que é agora a sede da holding em Paris. O edifício foi, aliás, um dos primeiros monumentos históricos a receber a certificação ecológica francesa destinada a construções, o HQE (High Environmental Quality).

Antes de chegar à Kering, Daveau trabalhou com várias organizações não-governamentais (ONG’s) e foi chefe de staff de Nathalie Kosciusko-Morizet, Ministra da Ecologia em França entre 2010 e 2012. Chegou à Kering precisamente em 2012, escolhida pelo CEO da marca, François-Henri Pinault, que definiu o desenvolvimento sustentável como um ponto fulcral para o sucesso económico do grupo de luxo (que inclui marcas de Moda como Gucci, Yves Saint Laurent ou Alexander McQueen).

Marie-Claire Daveu

Em julho, a Kering anunciou publicamente, que no primeio semestre de 2017, os resultados líquidos registaram uma subida de 78% e as vendas de 28%. Para Daveau, que neste momento chefia uma equipa de 50 especialistas dedicados à causa, esta subida é uma prova de que lucro e desenvolvimento sustentável estão, de facto, ligados. Católica devota, para ela o ambientalismo é uma forma de religião.

A Kering colocou o desenvolvimento sustentável no centro da estratégia económica. Esta opção contribuiu, de facto, para a subida dos números?

Definitivamente! O François-Henri Pinault [CEO da Kering] está certo disso. O desenvolvimento sustentável estimula a criatividade e, por vezes, até ajuda a reduzir custos – através da diminuição do consumo de energia e água, por exemplo. Depois há os assuntos essenciais do século XXI: por um lado, as alterações climáticas, a perda de biodiversidade e sangria dos recursos naturais, e por outro, o crescimento da população mundial que leva ao aumento da procura por bens de consumo. A maioria dos nossos materiais (peles, pelo, ouro, etc.) provém de ambientes naturais e, por isso, a sua conservação é essencial para a nossa sobrevivência. Temos de criar um modelo mais eco-eficiente, especialmente no setor do luxo essa questão tem de estar na linha da frente. É nossa responsabilidade fazê-lo.

Hoje em dia, a responsabilidade define o luxo?

Preferimos dizer que o desenvolvimento sustentável é inerente à qualidade. Não conseguimos imaginar um produto de luxo que não tenha em consideração aspetos sociais, ou efeitos que contribuam para a destruição da biodiversidade. Os objetivos do grupo estão definidos, e englobam todas as nossas marcas, de diferentes formas. Mas, no fim do dia o impacto tem sempre de ser prático. Estamos agora a trabalhar para rastrear a origem de todos as nossas matérias-primas. Até 2025 vamos garantir a 100% a salvaguarda étnica dos pelos mais valiosos, por exemplo.

Para serem responsáveis, a Moda e o luxo têm de inovar?

Sim, é absolutamente essencial. O nosso objetivo passa também por criar novos materiais, como pele vegan, que cumpra os critérios do luxo, sem nunca esquecer as preocupações ambientais e sociais. Isto implica inovação, e muitas vezes um pensamento disruptivo, o que muitas vezes nos leva a ambientes universitários, ONG’s e start-ups. Pegando no exemplo da curtição do couro e da pele: o processo tradicional usa metais pesados, principalmente crómio, que são prejudiciais para a nossa saúde e para o ecossistema. Temos trabalhado com estudantes universitários para encontrar processos menos poluentes. Também criámos um laboratório de inovação, em Novara, Itália, onde engenheiros e designers trabalham lado a lado para desenvolver materiais inovadores. E estamos sempre à procura de start-ups. Através dos nossos parceiros do London College of Fashion descobrimos recentemente um estudante que usa microorganismos para tingir. E outro que criou um material muito equivalente à pele a partir de cogumelos. É tudo extremamente entusiasmante, mas consegue-se imaginar o percurso que tem de fazer até se tornar num produto de luxo.

«Não conseguimos imaginar

um produto de luxo que não tenha em consideração aspetos sociais.»

 

A mudança de práticas leva tempo?

Sim. E eu não acredito em abandonar as coisas de um momento para o outro, porque há uma dimensão humana a considerar. Temos de educar o público e explicar porque é que estamos a mudar. São assuntos complexos. Repare no caso da pele de píton: cruelmente faltava-nos conhecimento sobre o assunto. Será que as pítons deviam vir de ambientes naturais ou de cativeiro? Quais são as melhores condições para criação e abate? Para evitar o tráfico, temos de ter atenção à dimensão social: a maioria das pítons vem do sudeste asiático, onde as populações locais vivem, muitas vezes, apenas do seu comércio, e seria impensável deixar estas comunidades sem rendimento. Estamos sempre à procura do melhor equilíbrio, porque muitas vezes não há nenhuma solução milagrosa. No caso da píton, desenvolvemos uma quinta na Tailândia, enquanto ao mesmo tempo continuamos a removê-las do seu ambiente natural – sempre rastreando a sua origem. Mas a Kering não pode resolver estas questões de biodiversidade sozinha. Podemos contribuir, mas era ainda melhor que os nossos concorrentes se envolvessem também. Partilhando a mesma causa faremos mais progressos.

O desenvolvimento sustentável é uma causa tão nobre que o fator concorrência parece perder importância…

Felizmente o desenvolvimento sustentável transcende praticamente tudo. Incluímos não só os nossos fornecedores, mas também os nossos concorrentes. No caso da curtição da pele tornámos as nossas inovações públicas. E no que toca ao ouro e às pedras preciosas estamos a trabalhar com os nossos concorrentes, de forma a gerar mudanças.

E onde ficam os designers em tudo isto?

São como parceiros. Eu encontro inovações ambientais e socais e proponho-lhes. E eles estão genuinamente interessados no assunto, até porque sabem a dimensão do compromisso do François-Henri Pinault com a causa. Ele encontra-se pessoalmente, várias vezes ao longo do ano, com eles para discutir especificamente estas questões. Cada marca tem alguém à frente deste setor ou equipas inteiras e temos reuniões regulares com eles.

Falou-me do laboratório de inovação em Itália. Está alguma coisa do género na calha para a relojoaria e a joalharia?

A partir deste ano haverá novidades nessa área. Estamos a trabalhar em processos e materiais com universidades, escolas e start-ups. Queremos que 100% do ouro utilizado pelo grupo, em 2020, provenha de fontes de comércio ético. E, em 2025, queremos assegurar o mesmo para os diamantes, pedras peciosas e semipreciosas.

Como é que concilia o respeito pelo planeta com o facto de trabalhar num grupo cujo objetivo é maximizar o lucro?

O nosso objetivo é o mesmo. A Kering continua a crescer reduzindo o seu impacto ambiental e participando na criação de postos de trabalho e conhecimento. Não partilho nenhuma das crenças anti-lucro, particulamente quando falamos de uma escala global, há populações que ainda não têm acesso a energia, medicamentos ou água potável. Elas querem crescer. É tudo uma questão de equilíbrio.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de fevereiro de 2018.