Katty Xiomara, Buchinho e Luís Carvalho Levam Sustentabilidade e Feminismo a Paris

Os três designers viajaram, com o apoio do Portugal Fashion, até à capital francesa. Por: Inês Aparício -- Imagens: © Ugo Camera.

Enquanto França é assoberbada pela notícia da morte do ex-presidente Jacques Chirac, esta quinta-feira, 26 de setembro, num hotel, em Paris, este assunto permanece afastado. Aí, fala-se de moda. E, mais do que isso, fala-se de moda em português. Katty Xiomara, Luís Buchinho e Luís Carvalho são o tema de conversa, no dia em que viajam, apoiados pelo Portugal Fashion, até à cidade da luz para a apresentação das suas propostas para a primavera/verão 2020.

É no Hotel d’Évreux que as coleções destes três criadores nacionais são expostas. Sim, expostas. Ao contrário do habitual desfile, no qual as modelos caminham pelo espaço para mostrar os coordenados dos designers, foi a vez de o público deambular por três salas. Em cada uma destas, era exibida parte da linha para as estações quentes, que ia sendo continuamente alterada de modo a que todos os looks fossem mostrados ao público.

Àquele espaço na Praça de Vendôme, situado a apenas um quilómetro do Museu do Louvre, chegou o empoderamento feminino, a igualdade de género e a sustentabilidade, em forma de tecidos, cores e estampados, num momento em que a urgência de abordar estas questões é cada vez maior.

Katty Xiomara pergunta-nos «e agora?»

O mundo está em constante mudança, mas o modo como o futuro se molda é uma incógnita. Mais que isso, é uma preocupação. Pelo menos para Katty Xiomara, que quer que reflitamos sobre o estado atual da sociedade, moda, política, economia e ambiente, através das suas propostas.

«O nome da coleção é After Now? e o conceito é um bocado esse: e agora? Porque penso que estamos, não só em termos ambientais, como económicos, sociais, políticos e, sobretudo, no mundo da moda, num “e agora”. Porque ninguém sabe o que é que vai acontecer. As coisas estão a mudar. As pessoas não compram da mesma forma, não consomem da mesma forma, os canais de venda já são diferentes. Temos de evoluir, mas acho que chegámos a um momento em que não sabemos como e para onde», conta a designer, à ELLE. Contudo, Katty Xiomara quer tentar dar um primeiro passo no caminho desta descoberta. E é a sustentabilidade a direção que começa por tomar.

Numa coleção em que existe uma introdução notória de materiais reciclados e processos mais amigos do ambiente, a criadora não conseguiu, ainda assim, abandonar a cor e os estampados – normalmente obtidos através de tingimentos que utilizam quantidades elevadas de água. No entanto, ao preferir matérias como o poliéster reciclado, pôde diminuir o consumo deste elemento. «Ao optarmos pelo poliéster, podemos utilizar um processo que se chama sublimação – feito com papel – e, por isso, conseguimos continuar com a opção dos printings e da cor, mas de uma forma um pouco mais segura», explica a criadora. Esse papel, nota, é posteriormente aproveitado para as embalagens, tornando a sustentabilidade num mote até ao último momento do desenvolvimento das peças.

Além deste material, a artista de origem venezuelana introduziu peças criadas com algodão orgânico e, ainda, «bastantes tecidos técnicos com acabamento de cortiça, que é dos materiais mais naturais e mais amigos do ambiente que existe».

Mas Katty Xiomara não se ficou por materiais e processos mais verdes nesta coleção – se bem que a paleta de cores, composta por azuis, rosas e amarelos como pontos de cor numa coleção pintada ainda de branco, preto e bege, não incluiu esta cor. A designer foi ao mais ínfimo detalhe, pensando de forma abrangente nas suas consumidoras. «Nesta coleção, a maior parte das peças dá para vestir por pessoas que habitualmente usam até ao tamanho XL. Apenas uma das peças tem fecho. As calças não têm fecho, o próprio macacão não tem fecho, os vestidos, que funcionam como vestido ou colete, são de trespasse. Portanto, conseguem ser vestidos com facilidade por mulheres com corpos maiores. Cada vez mais, em termos de sustentabilidade, se quisermos abrir um grande leque de pessoas, temos de ter muitos tamanhos por peça. Se conseguirmos que as peças seja mais versáteis em termos de tamanhos, é mais fácil [contornar esta situação]».

Luís Buchinho é um turista acidental (tal como todos nós)

Quem também teve a sustentabilidade como um dos pontos de partida para a coleção foi Luís Buchinho. O criador, que definiu esta questão como um objetivo claro para marca, procurou, não só utilizar materiais mais amigos do ambiente – nomeadamente poliéster reciclado e algodão orgânico –, como reduzir o desperdício através da reutilização de tecidos que lhe sobraram de coleções anteriores.

«Nesta coleção há um reutilizar enorme de materiais que já estavam encostados, porque, como trabalhamos sazonalmente, temos sempre imensa coisa que sobra, uma vez que, primeiro, nunca utilizamos os materiais todos, e, depois, quando fazemos para produção, as quantidades nunca são exatamente aquelas que são necessárias. Quando damos por nós, temos uma imensidão de pequenos nadas que são, no fundo, desperdício. E eu quis que esses tecidos ganhassem uma vida nova, de uma maneira que não aborrecesse o cliente que já os adquiriu há uns dois, três ou cinco anos atrás», referiu o designer.

Através da mistura de estampados, sobreposições de tecidos e modelação dos materiais, deu, a essas sobras, uma nova vida. E exatamente por causa desse mix e reinterpretação das matérias que usara previamente, a repetição não é óbvia. «Procurei dar-lhes [às sobras de tecidos de linhas passadas] olhares novos em, por exemplo, estampados sobre estampados. Estampados, por exemplo, é uma coisa difícil de voltar a utilizar porque são coisas que marcam muito, mas que, se levarem outro estampado por cima já não se vai notar absolutamente nada, porque a mensagem é completamente diferente. Mas há, por exemplo, tecidos que marcaram muito as minhas coleções e que, de momento, são utilizados em acabamentos. Acho que isso até reafirma a memória e a identidade da minha marca», refere. «Foi um exercício muito cerebral, mas que foi muito bom tê-lo feito, porque dá uma certa sensação de arrumar a casa», completa.

Foi assim que o criador deu vida a Turista Acidental, uma coleção que é também uma espécie de crítica aos viajantes de agora. «Hoje em dia todos nós fazemos umas viagens que, há uns anos atrás, não estaríamos à espera de fazer. Com elas, tentamos muito rapidamente conhecer a cultura, os costumes dos países que visitamos, e fiz uma espécie de ironia com isso, através de um Turista Acidental, em Portugal», explica Buchinho.

Deste modo, transformou, de forma irónica, as frases das t-shirts que se compram nas lojas de souvenirs, nas quais o amor ao país que se visita é declarado sem medos, e estampou-as, também sem reservas, na fronte das peças. Além disso, adicionou os lenços típicos de Viana do Castelo, que considera serem «apoderados, cortados e levados numa espécie de memória acoplada a uma t-shirt», banalizando a tradição, em detalhes e mangas.

«Tentei, com isso, criar um imaginário que fosse um pouco divertido sobre um assunto que é um bocadinho sério, na verdade. Tem a ver com a gentrificação, a sustentabilidade, a maneira como o planeta está a evoluir e a consumir recursos e é um pouco uma reflexão sobre isso e também sobre o que se passa um bocadinho na minha vida pessoal e empresarial, da maneira como posso olhar e mudar algo que eventualmente poderá estar menos bem», declarou.

Luís Carvalho viaja até aos anos 20 para empoderar as mulheres

Especialmente desde o surgimento, no ano passado, do movimento #MeToo, que a luta pela igualdade de género e o empoderamento feminino está na ordem do dia. No entanto, as reivindicações das mulheres não vêm apenas de agora. E foi exatamente até ao início deste movimento que Luís Carvalho viajou para a coleção de primavera/verão 2020.

Inspirado pela década de 20 e pela emancipação feminina que surgiu precisamente nessa altura, o criador procurou quebrar barreiras de género, através, por exemplo, da desconstrução do clássico fato. Assim, convergem, no mesmo coordenado, peças habitualmente associadas a homens e mulheres, como saias plissadas que cobrem parte de calças fluidas, quer em propostas para o sexo feminino, como masculino.

Contudo, Luís Carvalho não pretendeu apenas fazer uma fusão de géneros, mas também um contraste entre estes. Este vê-se através de uma «parte mais feminina e glamorosa, na qual os tons pastéis, os tecidos mais fluidos, os vestidos de noite, as lantejoulas e os acetinados», nota o criador.

Foi nesta onda feminista que este viajou, pela primeira vez como designer convidado pelo Portugal Fashion, para Paris. O artista que, por norma, apresenta as coleções na ModaLisboa admite acreditar que a integração no calendário internacional da organização portuguesa será uma mais valia para a marca, sendo esta já um objetivo do mesmo. «Espero que traga alguns contactos, que é uma coisa que só conseguimos descobrir no final do evento. Este era um objetivo que tracei para a marca. Claro que não apenas apresentar em Paris, mas também com um objetivo comercial, de posicionamento e de imagem», afirmou.

Os três designers regressam a Portugal para voltar a apresentar as propostas para as estações quentes na ModaLisboa e no Portugal Fashion, marcados, respetivamente, para os dias 11 a 13 de outubro e 23 a 26 do mesmo mês.